Com Rebeca Ligabue, Sabrina Pessoa, Marcella Freitas, Carina Benedetti e Luiz Maza

Conheça os conglomerados mais poderosos da moda e do luxo

Os grupos LVMH e Kering disputam entre si domínio e poder por meio das marcas que detém. São donos de nomes como Louis Vuitton e Gucci

atualizado 30/11/2022 15:54

Fachada da loja da marca de luxo francesa Louis Vuitton. É possível ver, na imagem, uma porta grande de vida, a logo da marca e vitrines com manequins Lya Cattel/Getty Images

Dentro do mercado internacional de luxo, uma das variáveis para medir a chance de sucesso de uma marca ou de um designer é se ele chamou a atenção de algum dos maiores conglomerados: o LVMH ou o Kering. Esses nomes disputam entre si os novos talentos, as etiquetas consolidadas e também a posição no ranking de empresas mais lucrativas. A coluna destaca o lado business da indústria da moda e destrincha a história dos dois grupos.

Vem entender mais!

Giphy/Gucci/Dior/Balenciaga/Louis Vuitton/Bottega Veneta/Loewe/Divulgação


Muitas pessoas podem classificar a moda como futilidade, mas quem tem faro para negócios sabe do impacto econômico da produção e vendas de artigos de vestuário. Quem destaca o fato é a professora Marília Carvalhinha, coordenadora do curso de fashion business da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em entrevista à coluna.

A pesquisadora aponta que a indústria da moda está avaliada em aproximadamente US$ 850 bilhões no mundo. Desse total, só o LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton SE fechou o ano de 2021 com uma receita US$ 64,2 bilhões. O grupo soma ainda 75 marcas em seu portfólio e mais de 175 mil funcionários espalhados por todos os negócios.

Apesar de bem menor se comparado ao LVMH, o segundo conglomerado mais representativo do mercado da moda é o francês Kering. O grupo fechou o ano passado com uma receita de mais de US$ 17 milhões e 42.800 funcionários. Atualmente, possui o controle de 10 marcas.

A estrutura que esses conglomerados oferecem às labels sob sua tutela o que é importante para mantê-las em pé ou até para que possam estrear no mercado. “A moda é um mercado desafiador com características muito específicas, como a questão das confecções, com fábricas espalhadas por todo o mundo. Um grande grupo consegue trabalhar essa gestão com muito mais eficiência”, explica Marília Carvalhinha.

Homem branco e de meia idade, com cabelo curto castanho, posando para foto em uma bancada de costura. Ele é um alfaiate, usa uma camisa de botão branca, uma gravata marrom e uma calça clara
O conglomerado LVMH detém os nomes mais tradicionais do luxo, como a Louis Vuitton e a Berluti, referência em alfaiataria e acessórios masculinos

 

Foto de campanha da marca Moynat, que vende artigos em couro. Na imagem é possível ver uma bolsa estilo sacola de compras, larga, e uma carteira. Ambas são de couro azul e possuem a parte interna laranja
Os artigos de couro, como os da marca Moynat, são o carro-chefe do grupo LVMH

 

Mulher negra e jovem, de cabelo trançado, posando para foto em um fundo branco. Ela usa um vestido amarelo estilo princesa da marca de luxo Alexander McQueen.
O grupo Kering define as marcas do seu portfólio como referência em “criatividade, inovação e desenvolvimento sustentável”

 

Homem branco, de cabelo castanho raspado, posando para foto em um fundo cinza. Ele usa um brinco de uma joalheria chamada Boucheron: a peça é em formato de polvo, em prata, com diamantes aplicados, e fica encaixada na orelha
O segundo maior conglomerado do luxo também se movimentou para adquirir nomes consolidados e clássicos, como a Boucheron, joalheria fundada em 1858
LVMH: grande aglutinador

A fundação oficial da empresa LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton é datada no ano de 1987, mas algumas das marcas que originam o grupo remontam ao século 18. Os empresários Henry Racamier e Alain Chevalier eram os nomes iniciais à frente do projeto, mas, após brigas e até batalhas judiciais, entrou – e ficou – em cena Bernard Arnault, que se tornou um dos homens mais ricos do mundo graças a essa “vitória”.

O francês Bernard Arnault se formou em engenharia para seguir os passos do pai, um empresário da construção civil. Na década de 1980, mudou-se para os Estados Unidos com o objetivo de expandir os negócios da família. Lá, se apaixonou pelo “american way of business” e decidiu que queria apostar em outras áreas, entre elas a da indústria têxtil. Começou arrematando uma empresa estatal, que já estava mal das pernas há algum tempo, até que seu caminho se cruzou com os executivos que fundaram o grupo LVMH.

Em 1989, Bernard assumiu a presidência do conselho de administração do conglomerado que, naquela época, já detinha a Louis Vuitton e a produtora de bebidas Moët & Chandon. A estratégia de expansão passou a ser, então, adquirir novas marcas. Assim, vieram nomes como Kenzo, Loewe, Céline e a gigante da beleza Sephora.

O empresário francês Bernard Arnault, um homem idoso e branco, de cabelo liso, branco e curto, posando para foto em frente a manequins com roupas da marca Dior. Ele usa camisa branca de botão, um blazer escuro e gravata. A foto é de 1988.
Bernard Arnault é o 3º homem mais rico do mundo, segundo a revista Forbes. Acima, o empresário em uma loja da Dior, em 1988. Foi a primeira marca de luxo que ele adquiriu

 

O empresário francês Bernard Arnault, um homem idoso e branco, de cabelo liso, branco e curto, posando para foto na saída do desfile da marca Dior, da qual é dono. Ele usa camisa branca de botão, um blazer escuro e gravata. A foto é de 2020.
O francês começou fazendo fortuna no mercado da construção civil, mas foi no segmento de luxo que adquiriu dinheiro e poder

 

O empresário francês Bernard Arnault, um homem idoso e branco, de cabelo liso, branco e curto, posando para foto no desfile da Louis Vuitton, marca da qual é dono. Ele usa camisa branca de botão, um blazer escuro e gravata. Ao seu lado está uma mulher loura, de pele bronzeada e meia idade. É sua esposa, Hélène Mercier, que veste um vestido branco e óculos escuros na cor preta.
Arnault teve cinco filhos. Quatro deles trabalham em empresas do grupo LVMH. Acima, o empresário com Hélène Mercier, sua segunda esposa

Uma das aquisições mais recentes do grupo LVMH foi a Tiffany & Co., casa norte-americana que é sinônimo de luxo e exclusividade dentro do segmento de joias. O negócio simbolizou a vontade do conglomerado de expandir para além das fronteiras europeias, especialmente ao comprar uma das marcas mais renomadas dos Estados Unidos.

Outra movimentação do grupo que chama a atenção é a aposta em novos designers. Em 2018, por exemplo, a Louis Vuitton, uma das maiores marcas do LVMH, convidou Virgil Abloh para assumir a direção criativa da linha masculina. Até 2021, ano em que o estilista norte-americano faleceu precocemente, os desfiles com sua assinatura causavam grande burburinho na cena fashion.

Em maio de 2019, o conglomerado também apostou na fama e no estilo único de Rihanna e anunciou o lançamento da marca de roupas de luxo Fenty. No começo de 2021, porém, o LVMH e a cantora decidiram encerrar a etiqueta para se concentrar nos negócios mais lucrativos: Fenty Beauty e Fenty Skin, de maquiagens e autocuidado, respectivamente; e a de lingerie Savage x Fenty.

Foto de campanha da marca de luxo Kenzo com dois modelos brancos nas ruas de Paris. Ele, de cabelo castanho raspado, usa um conjunto de calça e casaco com capuz na mesma estampa floral verde. A mulher, de cabelo curto, liso e loiro, usa uma boina vermelha e um conjunto de casaco com saia, ambos em uma estampa rosa floral.
A Kenzo, marca do estilista japonês Kenzo Takada fundada na década de 1970, foi adquirida pelo grupo LVMH em 1993

 

Foto de campanha da marca de joias Tiffany & Co. com a cantora Rose, do grupo de k-pop Blackpink. Ela é uma mulher branca, com traços asiáticos, e cabelosos lisos e loiros. Ela usa um vestido preto curto, meia calça preta, um salto preto e joias da marca, como colares, pulseiras e brincos.
A compra da Tiffany & Co. mostra a vontade do conglomerado em expandir as operações europeias. Além da marca de joias, o LVMH também é dono da Marc Jacobs

 

Campanha de divulgação da linha masculina da marca de luxo Louis Vuitton. Na foto, é possível ver três modelos, homens jovems e negros, com roupas diferentes, mas todas na estampa quadriculada preta e branca. Usam alguns itens na cor rosa choque
A Louis Vuitton é umas das etiquetas mais consolidadas do conglomerado. Durante a gestão criativa de Virgil Abloh, a linha masculina movimentava o mundo fashion
Kering: foco em sustentabilidade

O conglomerado Kering é outro que se desenvolveu graças à veia business de um francês. François Pinault começou a trabalhar na empresa madeireira do seu pai e lá ficou até 1963, quando fundou a Pinault Company, que atuava no setor de materiais para construção.

Ao longo dos anos, a empresa expandiu os negócios para diversas áreas ao adquirir, por exemplo, uma empresa de seguros e a rede de lojas Fnac. Mas foi apenas na década de 1990 que Pinault entrou em uma briga para adquirir a Gucci, que nessa época estava em plena ascensão criativa – graças ao comando do estilista Tom Ford – e em contendas que envolviam a família fundadora e investidores.

Com uma das marcas de moda mais consolidadas anexada ao seu portfólio, François resolveu que era hora de trazer novos estilistas e repaginar a imagem do grupo. Em 2001, comprou a marca homônima do britânico Alexander McQueen e também a espanhola Balenciaga. Em 2013, a empresa ganhou o nome que conhecemos hoje: Kering. 

François Pinault, empresário francês fundador do grupo Kering, em uma exposição de arte no ano de 2022. Ele é um homem idoso, de pele branca e cabeça careca, e usa uma blusa preta de gola alta e mangas cumpridas, um blazer azul escuro e calça de alfaiataria da mesma cor.
François Pinault, fundador do grupo Kering. Ele saiu da diretoria do próprio império em 2005, quando passou o cargo para o filho, François-Henri Pinault

 

O estilista italiano Alessandro Michele, um homem jovem, branco, de barba e cabelos longos castanhos, posando ao lado do empresário François-Henri Pinault, um homem idoso, branco e de cabelos também brancos
François-Henri Pinault, herdeiro do Kering, com o atual diretor criativo da Gucci, o estilista italiano Alessandro Michele

 

Campanha da linha de roupas masculinas da marca italiana Gucci. Os dois modelos, um homem branco de cabelo grande, e um negro de cabelo raspado, posam para foto em uma praia. O primeiro usa um casaco de moletom bege e um shorts azul; e o segundo usa uma camisa polo, também bege, e um shorts verde
A Gucci é uma das marcas mais rentáveis do mercado e do grupo Kering, especialmente após a gestão criativa de Alessandro Michele

 

A modelo Bella Hadid, uma mulher branca, jovem e de cabelo liso longo, posando para foto em um fundo cinza. Ela está sem blusa e veste apenas uma calcinha preta, que está aparente, e uma calça de couro, além da bolsa da marca da Balenciaga
Com todas as polêmicas e estratégias fora do comum, a Balenciaga também é uma das marcas mais rentáveis do grupo. As criações de Demna Gvasalia subvertem a moda e movimentam a crítica e os consumidores

 

Campanha da marca de roupas de luxo Saint Laurent. Na foto, uma modelo, negra e de cabelo raspado, usa um vestido laranja de mangas cumpridas e com ombreira, um colar e um brinco grande.
Outro grande casa de luxo que o conglomerado conseguiu arrebanhar, ainda na década de 1990, foi a Saint Laurent

Apesar de possuir um portfólio de marcas bem mais enxuto que o do LVMH, o grupo Kering tem duas vantagens competitivas. A primeira é possuir a Gucci e a Balenciaga, duas etiquetas que são queridinhas de diversas gerações e que atingiram ótimos resultados nos últimos anos, mesmo com a pandemia. A segunda é ter largado à frente do concorrente nas pressões por práticas mais sustentáveis.

Em setembro de 2021, o conglomerado anunciou que baniria o uso de pele animal das suas marcas. O LVMH, por sua vez, faz ações pontuais para mostrar que está alinhado às questões ambientais, mas não tomou nenhuma grande medida. Os artigos de couro, inclusive, são as principais fontes de renda da empresa.

 

Colaborou Carina Benedetti

Mais lidas
Últimas notícias