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Apuração pelo Brasil

Ilca Maria Estevão

Marcas de luxo recriam logos para passar imagem sustentável

Produtos menos poluentes e estratégias de marketing são apostas da moda para responder às novas necessidades do mercado

31/07/2022 02:00, atualizado 05/12/2022 14:38
Louis Vuitton/Divulgação
Modelo de tênis da marca francesa Louis Vuitton. A peça é toda branca com a logo marca impressa em verde

A marca francesa Louis Vuitton e as italianas Prada e Valentino, três gigantes do luxo, reformularam seus próprios logotipos para estamparem produtos classificados como sustentáveis. Os diferentes designs brincam com o símbolo clássico da reciclagem e visam passar uma imagem eco-friendly das marcas. 

Vem entender o porquê!

Giphy/Prada/Divulgação

O que levaria uma casa com séculos de tradição como a Louis Vuitton a mudar seu icônico monograma? A estratégia ousada, que veio justamente de uma marca que zela pelo próprio legado, é um ótimo exemplo de como as empresas da moda perceberam que precisam recalcular a rota para atender às novas demandas dos consumidores. 

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O “LV” da marca francesa perdeu as linhas retas, ganhou setas e foi redesenhado de uma forma que remete ao símbolo da reciclagem. Apareceu pela primeira vez ainda em 2020, na coleção de primavera/verão da linha da masculina, que tinha Virgil Abloh como diretor criativo. E é o símbolo que carimba o novo tênis da label, feito com 90% de material reciclado e que chega às lojas em setembro. 

Louis Vuitton/DivulgaçãoModelo de tênis da marca francesa Louis Vuitton. A peça é toda branca com a logo marca impressa em verde
A “nova” logo da Louis Vuitton foi criada por Virgil Abloh em 2020
Tomohiro Ohsumi/Getty ImagesModelo jovem e negro, com cabelo curto crespo, desfilando na passarela com roupas da marca Louis Vuitton. Usa um macacão azul royal, camisa preta e gravata amarela, além de uma bolsa de couro branca
A coleção de primavera/verão 2020 da Louis Vuitton trouxe acessórios antigos remodelados para a passarela, mostrando que o trabalho do upcycling pode ser luxuoso
Peter White/Getty ImagesVirgil Abloh
Virgil Abloh, que ficou no comando da linha masculina até sua morte, em novembro de 2021, sempre buscou inovar com itens sustentáveis

As etiquetas italianas Valentino e Prada não querem ficar para trás. A primeira também remodelou seu logotipo com o símbolo da reciclagem como referência. O motivo? Promover um tênis confeccionado a partir de materiais reciclados e com base biológica.

Já a Prada, que tem no comando Miuccia Prada, neta do fundador, possui esforços mais antigos em passar uma imagem sustentável. A marca que conquistou fãs com suas bolsas e mochilas em nylon anunciou, ainda em 2019, o compromisso de encerrar o uso de nylon virgem em suas criações. 

Valentino/DivulgaçãoDivulgação do tênis da marca Valentino, em couro branco, e com solado pontilhado feito de borracha. O calçado possui uma faixa preta no centro
O logotipo da marca italiana ganha setas que remetem ao símbolo da reciclagem
Valentino/DivulgaçãoDois modelos de tênis da marca Valentino, em couro branco, e com solado pontilhado feito de borracha. O primeiro modelo possui uma faixa preta e, o segundo, taxinhas coloridas em rosa, amarelo e vermelho.
Os modelos Open e Rockstud Untitled, da Valentino, são veganos e feitos com materiais reciclados
Prada/DivulgaçãoLogo sustentável da marca de moda Prada
A Prada fez o compromisso de não usar mais nylon virgem em seus produtos
Prada/DivulgaçãoHomem branco e jovem, com cabelo curto castanho, posando para foto de divulgação da coleção da Prada. Ele usa um casaco, uma mochete e um chápeu pescador, tudo preto e feito em nylon, da marca Prada
A linha Prada Re-Nylon foi expandida e deu vida a roupas e acessórios diversos
Mudança x Greenwashing

É importante que as gigantes do mercado de moda estejam dispostas a mudar as próprias condutas e a adotar práticas mais sustentáveis. Porém, é preciso que o consumidor esteja atento ao que é só narrativa e o que é, de fato, mudança. Na ânsia de querer ser eco-friendly, as marcas podem cair no chamado greenwashing.

O greenwashing, que pode ser traduzido como “lavagem verde”, é usado para designar “a forma que empresas adotam para passar uma aparência sustentável”, explica Paula Flórido, diretora de marketing da Dover Fueling Solution, à coluna. A professora de marketing do Centro Universitário Iesb, Dra Kátia Balduíno de Souza, explica que a prática “é uma maquiagem de uma empresa que não adota técnicas ambientalistas de maneira correta”. 

Apesar de ser possível lucrar por meio dessa “maquiagem”, o tiro pode sair pela culatra. Isso porque o consumidor da atualidade “é antenado e quer comprovação”, segundo Paula Flórido. “O cliente não se contenta em saber que um produto é orgânico: ele quer saber que órgão o certificou”, explica.

Por isso, a professora Kátia Balduíno de Souza faz a ressalva. “Quando uma estratégia de marketing é mal posicionada, pode acabar fazendo com que o público-alvo vá para as redes sociais se manifestar contrário à empresa, o que vai gerar uma imagem negativa em um momento que a comunicação não é passiva e silenciosa”, completa.

Sunny/Getty ImagesPedaço de um brócolis, que lembra uma árvore, sendo pintado de verde
Greenwashing “é uma maquiagem de uma empresa que não adota técnicas ambientalistas de maneira correta”, explica a professora Kátia Balduíno de Souza
Antonio Cossio/picture alliance via Getty ImagesMontanhas de lixo têxtil em uma região afastada do Chile
Como a moda é uma das indústrias mais poluentes, as marcas criam estratégias para melhorar a própria imagem
Yui Mok/PA Images via Getty ImagesPessoas brancas e jovens, com cabelo castanho, protestando sobre as mudanças climáticas. Usam um casaco verde com textura de grama para passar a mensagem de necessidade de cuidar do meio ambiente
Segundo as especialistas, os consumidores estão mais atentos quanto ao discurso das empresas e exigem mudança na confecção de produtos

Paula Flórido tem uma visão otimista e acredita que mesmo as instituições que praticam o greenwashing podem mudar as condutas. Segundo ela, há casos em que empresas implementam “uma cultura mais voltada para o meio ambiente e descobrem que é possível iniciar uma jornada de longo prazo”. Já aos consumidores e à imprensa cabe o papel de ser atento às estratégias e sempre questionar.


Colaborou Carina Benedetti