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Lontras podem ser domesticadas e adestradas? Especialistas revelam
Nas redes, é comum ver vídeos de lontras brincando e interagindo com pessoas. Especialistas revelam se é permitido criar animal no Brasil
atualizado
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No Japão, por exemplo, é muito comum ver cafeterias que contam com a presença de animais fofos e até inusitados. Entre eles, estão as lontras, e, nas redes sociais, não é difícil encontrar vídeos de pessoas interagindo com os mamíferos nesses espaços. No entanto, pode surgir a dúvida: no Brasil, é permitido ter uma lontra como animal de estimação?
Apesar de parecerem dóceis e brincalhões, esses mamíferos são considerados animais silvestres e não é recomendada a criação como animal doméstico. Nicole Zuchini, médica-veterinária, alerta que, no Brasil, criar lontras como pet é considerado crime ambiental — por ser um bicho da fauna silvestre nativa.
A especialista ainda comenta que, em todo o mundo, existem 13 espécies conhecidas, mas, no país, há apenas duas. “Lontra-neotropical e a ariranha, ambas semi-aquáticas que vivem em rios, lagoas e áreas de manguezal, alimentando-se de peixes, crustáceos e pequenos vertebrados, sendo grandes predadoras.”

É possível domesticar uma lontra?
Cleber Santos, especialista em comportamento animal, explica que as lontras são animais extremamente inteligentes e curiosos. Porém, segundo ele, isso não quer dizer que elas podem ser “adestradas” no sentido tradicional da palavra. “O conceito mais adequado é condicionamento operante.”
Devido ao comportamento exploratório intenso, predatório e territorial, elas não passaram por um processo de domesticação ao longo dos anos. “Em ambientes controlados, profissionais utilizam o condicionamento operante com reforço positivo para ensinar comportamentos específicos, que facilitam cuidados veterinários, manejo sanitário e reduzem estresse.”
Nicole acrescenta que, mesmo em instituições autorizadas, os cuidados exigidos são rigorosos: elas necessitam de ambiente amplo, com acesso constante à água limpa e adequada para natação, além de enriquecimento ambiental diário. “Animais silvestres possuem necessidades ecológicas e não devem ser humanizados ou mantidos fora de condições adequadas.”

Instinto animal
De acordo com a veterinária, a alimentação das lontras também deve ser balanceada para manter o bem-estar geral. “É essencial o acompanhamento de veterinário especializado, para garantir cuidados com manejo que minimizem o estresse, já que elas podem apresentar comportamento defensivo ou agressivo.”
Cleber complementa ao alertar que espécies selvagens mantêm repertórios instintivos muito fortes. “Mesmo após condicionamento, podem reagir de forma imprevisível quando estímulos ambientais ativam padrões naturais de defesa ou predação.”
“A retirada desses animais da natureza compromete o equilíbrio ambiental e representa riscos tanto para o bem-estar do animal quanto para a saúde pública, principalmente pensando no controle de zoonoses e na disseminação de doenças para os animais”, pontua Nicole Zuchini.

Por fim, o profissional reforça que, apesar da capacidade de aprender, não é correto incentivar a ideia de que lontras são animais para convivência doméstica. “Essa distinção é fundamental para que a informação seja transmitida com responsabilidade, respeito à espécie e compromisso com a ciência”, conclui o especialista da ComportPet.
