
Claudia MeirelesColunas

Não é só gordura: entenda o que é o lipedema e seus sinais silenciosos
Dor, inchaço e gordura resistente podem indicar lipedema, condição crônica que afeta principalmente mulheres e ainda é pouco diagnosticada
atualizado
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Durante anos, muitas mulheres escutam a mesma recomendação quando o tema em questão é o acúmulo ou excesso de gordura: “é só emagrecer” ou “precisa treinar mais”. Mas, para uma parcela significativa delas, o problema não está na falta de esforço, e sim em uma condição ainda pouco diagnosticada: o lipedema.
Crônico e progressivo, o lipedema é uma doença que altera a forma como a gordura se distribui no corpo, com forte influência hormonal e genética. Ele aparece com mais frequência em regiões como quadris, coxas e pernas e, em alguns casos, também nos braços, criando um acúmulo desproporcional que não responde da maneira esperada à dieta ou ao exercício físico.

“Não se trata apenas de gordura localizada”, explica a médica Camila Paes, especialista em emagrecimento. “Existe uma alteração no funcionamento desse tecido, com aumento da inflamação, maior sensibilidade e fragilidade dos vasos, o que pode levar à dor e ao aparecimento frequente de hematomas.”
Sinais que vão além do peso
Um dos principais desafios é diferenciar o lipedema de outras condições comuns, como obesidade ou retenção de líquido. No caso da obesidade, o acúmulo de gordura tende a ser mais distribuído pelo corpo. Já na retenção, há variações ao longo do dia.
No lipedema, não: o padrão corporal é bastante característico. A gordura se concentra principalmente nas pernas, enquanto o tronco pode permanecer mais fino. Outro sinal típico é a preservação dos pés, criando um aspecto de “torniquete” na região dos tornozelos.
Além disso, sintomas como dor ao toque, sensação de peso nas pernas, pele com textura irregular e facilidade para desenvolver hematomas fazem parte do quadro clínico.
“Essa gordura, na maioria das vezes, não responde como esperado à dieta e ao exercício. E os sintomas vão além da estética, impactando diretamente o bem-estar e a qualidade de vida”, destaca a especialista.

Por que o diagnóstico demora
Mesmo com sinais relativamente característicos, o diagnóstico do lipedema ainda costuma levar anos. Isso acontece, em grande parte, pela falta de informação, inclusive dentro da própria área da saúde.
Outro fator que contribui para essa demora é o papel dos hormônios. O lipedema costuma surgir ou se agravar em fases como puberdade, gestação e menopausa, o que pode mascarar os sintomas e dificultar a identificação precoce.
Uma doença progressiva
Sem o acompanhamento adequado, o quadro tende a evoluir com o tempo. Pode haver aumento do volume das pernas, intensificação da dor, maior inflamação e até endurecimento do tecido, impactando a mobilidade.
“O lipedema é uma doença progressiva. Por isso, quanto antes for identificado e tratado, melhores são os resultados”, reforça.

Tratamento vai além de dieta e exercício
Embora alimentação equilibrada e atividade física sejam fundamentais, elas não são suficientes para eliminar o lipedema.
“A alimentação com foco anti-inflamatório e a prática de exercícios, principalmente de baixo impacto, ajudam a melhorar a circulação, reduzir sintomas e controlar a inflamação. Porém, isso não elimina o lipedema – ajuda a controlar a doença”, explica.
O tratamento clínico inclui ainda terapias de compressão, como drenagem linfática e o uso de dispositivos específicos, além de acompanhamento médico individualizado.
Em alguns casos, a cirurgia pode ser indicada, especialmente quando há limitação de movimento. Ainda assim, ela não substitui o tratamento contínuo.

Sem cura, com controle
Apesar de não ter cura definitiva, o lipedema pode ser controlado. O acompanhamento constante e a abordagem individualizada são fundamentais para reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida.
“É possível tratar a doença, mas isso precisa ser feito de maneira contínua e personalizada”, afirma a especialista.

Os mitos que atrasam o diagnóstico
Entre os maiores obstáculos estão as ideias equivocadas que ainda cercam o lipedema. A crença de que se trata apenas de excesso de peso ou falta de cuidado é uma das mais prejudiciais.
Confusões com retenção de líquido ou celulite também são comuns, e contribuem para que muitas mulheres passem anos sem diagnóstico.
“Frases como ‘é só gordura’, ‘é só emagrecer’ ou ‘é falta de treino’ fazem com que muitas mulheres se culpem por algo que, na verdade, é uma condição de saúde e precisa ser tratada”, destaca.
Dar nome ao problema, nesse contexto, é mais do que um diagnóstico. É o início de uma nova relação com o próprio corpo — baseada em informação, cuidado e, principalmente, compreensão.
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