Pulverizada, bancada do RenovaBR sofre sem partido próprio

Eleitos com suporte do projeto apoiado por Luciano Huck são afinados ideologicamente entre si, mas desconfortáveis nas siglas tradicionais

Luis Macedo/Câmara dos DeputadosLuis Macedo/Câmara dos Deputados

atualizado 14/10/2019 11:39

Não é raro ouvir dentro do Congresso Nacional de algum parlamentar do RenovaBR – grupo apoiado pelo apresentador Luciano Huck – desabafos sobre retaliações de partido pelo qual foi eleito. Pulverizados nas mais diferentes (e ideologicamente divergentes) agremiações, senadores e deputados simpatizantes do projeto criado com o objetivo de acabar com velhas práticas políticas têm esbarrado em represálias dos caciques de conhecidas legendas, desconfiados sobre as intenções do grupo fundado pelo empresário Eduardo Mufarej.

As reclamações não são exclusivas das casas legislativas em Brasília, mas também em assembleias estaduais e são recorrentes, inclusive nos encontros programáticos realizados pela entidade. Na edição carioca, onde mais de 200 integrantes estiveram reunidos no último dia 21, no Teatro XP (Jóquei Club), os comentários sobre a falta de sintonia com as legendas foram recorrentes, inclusive quando o microfone foi usado. “Tentem escolher bem o partido de vocês. O meu eu escolhi antes de entrar no Renova”, orientou Paulo Ganime, deputado federal pelo Novo do Rio de Janeiro.

Com 17 políticos eleitos no Brasil, o instituto reúne personagens com um único interesse: a renovação de práticas consideradas exclusividade da política tida como tradicional. A afinidade entre o grupo é grande, inclusive nas recentes bordoadas sofridas após posicionamentos individuais provocarem conflitos partidários. Os deputados federais Felipe Rigoni (PSB-ES) e Tabata Amaral (PDT-SP), na foto em destaque, não foram os únicos, mas servem bem como exemplo. Ambos sentiram o poder da canetada dos caciques após darem voto favorável à aprovação da reforma da Previdência.

Carimbados pelo projeto apoiado por Huck, os congressistas foram suspensos pelos comandos nacionais de PDT e PSB e afastados de comissões da Câmara dos Deputados. No caso de Rigoni, de 12 grupos temáticos dos quais participava na Casa, agora integra apenas um. As sanções também atingiram as relatorias de projetos importantes: das 40 matérias, o partido redistribuiu para outros parlamentares 38 delas. Já para Tábata, o presidente do PDT, Carlos Lupi, orientou que ela deixasse todos os postos que ocupava pela sigla dentro do Congresso Nacional.

Agência Senado
Deputado federal Marcelo Calero (Cidadania-RJ) deve disputar a Prefeitura do Rio nas eleições de 2020

Escolhas
No Rio de Janeiro, Rigoni não deixou de criticar as legendas políticas pela manutenção dos mesmos nomes no cenário das decisões. “Temos que lembrar que a gente tem uma escolha e o Brasil hoje precisa muito de escolhas melhores. “No Brasil, nos últimos 30 anos, e também nos partidos, faltaram essas boas escolhas. Essa, para mim, é a grande diferença que o Renova faz”, discursou o parlamentar, o primeiro deputado federal cego eleito para o Congresso Nacional.

O tom do capixaba também é assumido pelos incentivadores do projeto, que vem criando corpo por todas as regiões do Brasil. “Qual é a ideia? Como é que faz? Com qual dinheiro? Pode ser de esquerda, de direita de centro, tanto faz. Eu consigo enxergar muita beleza nas ideias liberais, acredito num mercado aberto, desburocratizado, mas se a gente não tiver um olhar social numa sociedade como o Brasil não vai dar certo”, frisou Luciano Huck, ao demonstrar o desinteresse por bandeiras partidárias específicas. Luciano é sondado para disputar o Palácio do Planalto na sucessão de Jair Bolsonaro (PSL), embora negue constantemente.

A própria entidade tenta evitar mostrar preferência ideológica e defende muito mais a postura ética do que o ativismo ideológico em questões pontuais. “O RenovaBR é uma escola de formação política apartidária. Recebemos alunos de diferentes partidos e ideologias, que têm plena liberdade na definição de suas pautas”, explica a assessoria de imprensa do grupo. Contudo, a mistura política sempre acaba sendo alvo de piadas. “Ele é do PSL, mas nem tanto”, brincou um dos líderes do projeto ao apresentar o deputado federal Luiz Lima, também defensor das propostas renovadoras.

A bandeira suprapartidária tem despertado interesse de quem nunca participou do universo político. Nas últimas eleições, por exemplo, os integrantes do RenovaBR receberam cerca de 4,5 milhões de votos. Para o processo de formação de novos nomes com holofote nas eleições municipais, a instituição foi procurada por quase 32 mil interessados e, desses, 1,4 mil pessoas da sociedade civil, de 445 municípios brasileiros diferentes, foram selecionadas para levarem o carimbo da renovação. Desse total, 40% não decidiram ainda por qual partido disputar as prefeituras e câmaras de vereadores em 2020.

Para o próximo ano, o grupo não esconde o interesse na renovação política do Rio de Janeiro. “O Rio é vitrine para o Brasil. Se não cuidarmos direito da cidade, o Brasil entra em colapso”, explicou Mufarej ao Metrópoles. O RenovaBR não apoia individualmente nenhum candidato. Entretanto, quem poderia se aproveitar da situação é um dos principais líderes do projeto: o ex-ministro da Cultura e deputado federal Marcelo Calero (Cidadania-RJ). Mesmo sem confirmar oficialmente, o congressista não esconde o interesse em trabalhar para evitar que o atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) seja reconduzido ao posto de titular do Palácio da Cidade.

“O que eu vejo é uma mobilização muito grande, e a gente está conseguindo ultrapassar aquela coisa do carioca de apenas dizer que vai marcar um encontro, uma conversa, e que nunca acontece. A gente está conseguindo materializar pensamentos, discussões, mobilizações e acho, realmente, que isso será uma grande surpresa para as eleições do ano que vem. Uma grata surpresa”, afirmou o deputado à reportagem.

Mesmo com as recentes sanções sofridas contra seus líderes, Mufarej descarta o interesse da entidade virar futuramente um partido político. “Acreditamos na independência dos nossos membros e na capacidade deles em tomar decisões. Não pretendemos nos transformar num partido político”, afirmou. Só para se ter ideia, o recente processo seletivo realizado pelo RenovaBR identificou candidatos de 30 legendas das mais diferentes vertentes ideológicas.

O movimento
Criado em 2017, em São Paulo, o RenovaBR é uma iniciativa que pretende preparar novas lideranças para o ingresso no mundo político. “Não somos um partido político, nem apenas um movimento. Somos uma iniciativa de formação de lideranças e de engajamento cívico”, diz o texto no site da instituição. Trata-se de uma escola de formação política apartidária, com cursos on-line respaldados por notáveis do Brasil. “De educação à saúde pública, de gestão fiscal ao desenvolvimento social, os líderes são preparados pelos maiores especialistas do Brasil e aprendem o que todo político deveria saber”, sustenta o grupo.

De acordo com a entidade, a rede de alunos é acompanhada durante e depois da formação, recebendo suporte e se conectando com pessoas de valores semelhantes. O único compromisso, segundo o próprio Mufarej indica, é que, caso sejam eleitos, os líderes do RenovaBR têm de manter a honestidade e a transparência no mandato. “Recebemos alunos de diferentes partidos e ideologias, que têm plena liberdade na definição de suas pautas”, garante.

O primeiro processo seletivo da organização foi aberto para as eleições de 2018. Foram 133 pessoas selecionadas de inúmeros partidos. Do total, 17 pessoas que cursaram as aulas do RenovaBR venceram as eleições em diversas legendas. O mais recente curso on-line começou no início do mês de agosto para 1,4 mil novos alunos. O Rio de Janeiro é o terceiro estado com maior número de inscritos, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. No Distrito Federal, 12 nomes foram selecionados para a empreitada, de olho nas cadeiras vagas para as eleições de 2022.

O repórter viajou a convite da organização do evento.

SOBRE O AUTOR
Caio Barbieri

Cursou jornalismo no Centro Universitário de Brasília (UniCeub). Passou pelas redações do Correio Braziliense, Agência Brasil, Rádio Nacional e foi editor-adjunto da Tribuna do Brasil. Ocupou a assessoria especial no Ministério da Transparência e foi secretário-adjunto de Comunicação do GDF. Chefiou o relacionamento com a imprensa na Casa Civil, Vice-Governadoria, Secretaria de Habitação e na Secretaria de Turismo do DF. Fez consultoria para vários partidos, entidades sindicais e políticos da Câmara Legislativa e do Congresso Nacional. Assina a coluna Janela Indiscreta do Metrópoles e cobre os bastidores do poder em Brasília.

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