A rainha, as cigarras, o canto e o sexo escandaloso no Plano Piloto

Quando visitou a 308 Sul, Elizabeth II ficou intrigada com um barulho insuportável. Soube que eram machos desavergonhados atraindo as fêmeas

Joaquim Firmino/Arquivo PúblicoJoaquim Firmino/Arquivo Público

atualizado 17/09/2019 12:21

Conta-se que quando esteve no Jardim de Infância 308 Sul, em 1968, a jovem rainha Elizabeth II não gostou do que ouviu: uma zoada aguda e ensurdecedora, talvez alguma máquina fora de controle. Com a discrição e quem sabe, o sarcasmo britânico, alguém do cerimonial do Palácio de Buckingham perguntou a alguém do cerimonial brasileiro se era possível desligar o motor infernal. Não se sabe exatamente como foi a reação do brasiliense, mas é provável que não tenha entendido de imediato que barulho candango estaria incomodando os ouvidos reais.

Eram as cigarras que, naquele novembro, cantavam anunciando a chegada das chuvas e, por certo, aproveitavam tão monárquica visita para saudar a rainha. Também não ficou registrado se alguém teve o atrevimento de contar à Sua Majestade a verdadeira razão pela qual aqueles insetos cantavam tão desarvoradamente.

– É o macho, Vossa Majestade, que está chamando a fêmea para o acasalamento, o constrangido súdito deve ter dito à rainha Elizabeth, com o olhar levemente inclinado para o chão e um certo rubor britânico, se é que os britânicos têm rubores. Talvez tenha dito apenas para o príncipe Philip que se encarregou de transmitir a indecente informação à sua mulher. Como quem é rainha nunca perde a majestade, Elizabeth manteve o sorriso e a altivez que o mundo acompanha há 67 anos. Talvez, quem sabe, naquela noite, na suíte presidencial onde o casal ficou hospedado no Hotel Nacional tenham ecoado gritos de êxtase. Viagens costumam ser excitantes, ainda mais sob tão extravagante inspiração.

Arquivo publico

Há quem diga que as cigarras andam sumidas. O engenheiro florestal Manoel Cláudio, autor de dois guias de árvores do cerrado, brinca: “É o calor!”. Cadê as cigarras? Os brasilienses se perguntam a cada novo setembro. Ainda é cedo para dizer que neste ano elas não virão. O período de acasalamento tão escandaloso vai até novembro, para desespero de certos síndicos e vizinhos pudicos que tentam silenciar o sexo um pouco mais barulhento.

Ficarão um pouco mais tranquilos se souberem quão trágico e fugaz é o amor entre as cigarras. Elas passam a vida enterradas no chão e só saem quando o tempo esquenta. Emergem da escuridão com um projeto específico e vital: o sexo. Irrompem da casca, soltam as asas, gritam, gritam, gritam, acasalam-se, põem ovos e morrem. A gritaria chega a atingir mais de 120 decibéis (um concerto de rock alcança 110 decibéis, a decolagem de um avião a jato, 120).

As ninfas órfãs fogem em fios de seda para dentro da Terra e somente em um ou dois anos saem em busca de seus motéis preferidos: as cascas das árvores, de preferência bem debaixo dos quartos dos apartamentos do Plano Piloto. Suspeita-se que as cigarras tenham um projeto revolucionário: o de vingar os que têm sede de liberdade, de canto, de alegria, de amor, de exagero. Fazem sexo escandaloso bem debaixo da janela do quarto dos mal-humorados, dos cheios de não-me-toques, dos intolerantes, dos moralistas e dos pudicos em geral. Se tudo der certo, este dia está chegando.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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