É tudo tão bonito no tempo da seca que nem dá vontade de morrer

A estranha cidade fica muito linda nos meses sem chuva. Mas também muito má: já matou de uma só vez mais de 40 homens, pretos e brancos

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 05/09/2019 8:06

O ar denso, a umidade baixa, o sol avassalador, os imensos campos abertos, a soma inclemente de desatinos da natureza matou mais de 40 homens, entre pretos e brancos, em setembro de 1722, quando Anhanguera, o bandeirante paulista, subiu o Planalto Central em busca de ouro para explorar e índios para escravizar.

Os bandeirantes iam morrendo, um a um, de desidratação, insolação e desnutrição, como descreve Paulo Bertran em “História da Terra e do Homem do Planalto Central”. O historiador estimou que Bartolomeu Bueno da Silva, chefe da expedição, perdeu pelo menos um terço de seus homens.

As grandes chapadas goianas respondiam, com a seca silenciosa e devastadora, à aproximação das bandeiras e seu rastro de usurpação do ouro e genocídio de índios.

Quase três séculos depois, índios e ouro já não há, uma civilização surgiu entre chapadas, e agosto e setembro seguem implacáveis. As vastidões de cerrado foram recobertas por uma esquisita cidade geométrica que se desdobra quase colada ao chão. E toda ela se transforma, todos os anos, nos mesmos meses, num jardim de desconcertante beleza.

Na inesperada cidade brotam, nos agostos e nos setembros, flores amarelas, brancas, vermelhas, roxas de espécies várias, embora os ipês tenham ampla soberania sobre as demais tamanha a intensidade das cores e a floração absoluta. (Não fica uma folha. Todas caem).

Rente ao chão, sobre a grama cinzenta, surge um manto de nuvens esvoaçantes. São as painas tão caras aos cerratenses de antes. Com elas, eles faziam colchões e travesseiros, coisas de amaciar o corpo e amolecer o espírito. É garbosa, quase amazônica, a paineira e tem um tronco rotundo que nem uma barriguda, nome que os antigos lhe davam.

Seriam flores as painas, mas são parte dos frutos. Têm afetuosa função: recobrem as sementes e assim, cobertas de asas, aterrissam no chão. Embora parente próxima do algodão, a paina não serve para fiar tecidos, por ser mais curta e delicada.

Contam-se perto de 60 mil paineiras na cidade — multidão que se concentra no Setor Policial Sul, no Eixão, próximo à Torre de Tevê, às margens da Epia Sul. Mas há delas por muitos outros lugares. Por serem espécies de rápido crescimento e copa frondosa, foram usadas largamente no começo da arborização de Brasília. Éramos uma cidade açoitada pelo sol. As barrigudas, generosamente, abriram-se em copas para nos proteger da crueza solar.

 

A seca de agosto e setembro tem o encanto implacável dos desertos. Algumas espécies desenvolveram uma estratégia de sobrevivência: livram-se de todas as folhas, como se estivessem mortas. Estão, na verdade, concentradas em economizar energia e buscar água nos veios subterrâneos. Ficam nuas e lindas, como esqueletos de árvores em concreto — perfeitas, portanto, para a enigmática cidade.

As folhas abandonadas não vão embora. Ficam crespas, crocantes e, semoventes, recobrem as calçadas, o asfalto, os jardins, os gramados. Voam baixinho, cantam e dançam embaladas pelo vento.

É tudo tão bonito que nem dá vontade de morrer.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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