Os candangos pisaram na Lua muito antes que os astronautas

Nos primeiros anos, Brasília era tão fantasmagórica quanto o solo lunar. Yuri Gagarin achou que era “um planeta diferente”

Arquivo Público do Distrito FederalArquivo Público do Distrito Federal

atualizado 20/07/2019 22:19

Quando os modernos rasgaram o cerrado em solo 1,1 mil metros acima do nível do mar, surgiu um deserto vermelho, como se a Lua brotasse de dentro da Terra, com a diferença de que a terra lunar é branca, cor dos raios solares refletidos no chão.

A paisagem do começo de Brasília estourava no peito como se os candangos fossem todos astronautas. Era como se pousassem na Terra pela primeira vez, como Neil Armstrong e Buzz Aldrin desceram a escadinha para pousar na Lua. Havia uma solidão estrangeira, cosmonáutica, uma inexistência de gente, bichos, árvores, casas. Era um nada sem nome acordando de um sono eterno.

Estranho deserto vermelho suspenso em chapadões abertos para o universo. Foi sobre solo lunar que Lucio Costa desdobrou o Plano Piloto – ele mesmo dizia que aqui não havia paisagem. Até hoje, quase 60 anos depois, Brasília é uma Lua de desconcertos, à espera de significados

Há quem concorde comigo e não é qualquer um. Quando pisou em solo candango, o cosmonauta russo Yuri Gagarin se viu de novo fora da órbita terrestre: “A ideia que tenho é a de que estou desembarcando num planeta diferente, que não a Terra”, ele disse a Juscelino em 29 de julho de 1961. Fazia 107 dias que ele havia dado a volta em torno do planeta. O primeiro homem a nos olhar com os olhos de Deus.

Impactante documentário sobre os 12 astronautas que desceram em solo lunar, Na Sombra da Lua mostra que a experiência de romper a órbita terrestre, atravessar a escuridão e descer num bola deserta mudou a vida de todos eles – alguns se perderam no álcool, outros viraram religiosos extremos e houve quem experimentasse uma epifania cósmica.

Um deles, não me lembro o nome, conta que da nave viu ao mesmo tempo a Terra, o Sol e a Lua flutuando em fundo negro. Sentiu então que tudo o que existia, inclusive ele e seus companheiros, e até mesmo a pele fria do aço do foguete, tudo era uma coisa só, tudo feito da mesma molécula, uma unicidade. Viveu a completude num instante, diz.

O sorridente Yuri Gagarin tinha 26 anos quando viu a Terra como nenhum homem antes tinha visto (“É azul!”). O cosmonauta russo matou de inveja os americanos e acelerou a corrida espacial. Desde aquele 12 de abril de 1961, eles ficaram loucos, insanidade que matou muito astronauta em explosões monumentais de foguetes no cabo Canaveral.

Gagarin morreu muito jovem, aos 33 anos, num acidente durante um voo experimental. A Lua tem uma cratera com o nome dele. Yuri Gagarin é o nosso Neil Armstrong.

A propósito:

O cosmonauta russo trouxe uma carta de Nikita Kruschev, primeiro-ministro soviético, para o então presidente Jânio Quadros (que havia assumido a presidência em 31 de janeiro de 1961): “Em nosso país se manifesta grande interesse pela vida de sua maravilhosa nação, pela cultura nacional de seu povo, e muito prezamos a posição que alcançou o Brasil no conceito da cultura mundial”. Bons tempos.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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