Pets como família: nova lei em SP autoriza enterro conjunto em jazigos
Lei paulista autoriza enterro de pets com tutores e reforça reconhecimento de um luto ainda pouco validado socialmente
atualizado
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A relação entre pessoas e animais de estimação tem se tornado cada vez mais próxima, com muitos tutores tratando os pets como parte da família. Em São Paulo, uma nova lei passou a autorizar o sepultamento de cães e gatos em jazigos familiares, mudança que também reforça o reconhecimento do vínculo afetivo e do impacto emocional da perda desses animais.
A norma foi sancionada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 10 de fevereiro, após aprovação do projeto pela Assembleia Legislativa paulista em dezembro. O texto prevê a criação de alas específicas para pets em cemitérios públicos e privados e autoriza o sepultamento conjunto com seus tutores, com a diretriz de preservar dignidade, memória e respeito aos vínculos afetivos.
Antes da regulamentação, muitos tutores recorriam a enterros informais em quintais ou áreas inadequadas, muitas vezes por falta de informação ou dificuldade para arcar com serviços especializados. A nova regra busca organizar essa prática e oferecer uma alternativa mais adequada para quem deseja se despedir do animal.
Luto por pets pode ser tão intenso quanto o familiar
Do ponto de vista emocional, especialistas ouvidos pelo Metrópoles afirmam que o luto por um pet pode ser tão intenso quanto a perda de um familiar.
“A dor de perder um animal é comparável à perda de um familiar, porque o cérebro não faz essa distinção. Muitas vezes a pessoa convive mais com o pet do que com parentes próximos, então o sofrimento pode ser até maior dependendo da relação”, destaca a psiquiatra Vanessa Greghi, diretora médica do Instituto de Psiquiatria Paulista (IPP).
O psicólogo Yuri Busin, que atua em São Paulo, reforça que o vínculo com o animal envolve afeto real e profundo.
“Perder um pet muitas vezes é como perder alguém querido. Existe amor, rotina, presença constante. Esse luto não deve ser julgado, precisa ser acolhido para não se tornar um sofrimento mal elaborado”, afirma.
Por que esse luto ainda é deslegitimado?
Apesar disso, a dor ainda costuma ser minimizada socialmente. Segundo Vanessa, persiste a ideia cultural de que o animal seria apenas uma posse, e não um membro da família.
“A pessoa sofre, mas muitas vezes não encontra validação social. Frases como ‘era só um cachorro’ podem tornar o processo ainda mais doloroso”, afirma.
Para Yuri, o caminho mais saudável é oferecer apoio e observar a evolução do luto. “Se depois de um período a dor não evolui ou continua muito intensa, é importante buscar ajuda profissional em vez de julgar quem está sofrendo”, afirma.
A especialista destaca ainda que o reconhecimento legal do vínculo, como no caso da nova lei paulista, pode ajudar no processo de lidar com a perda.
“Quando uma lei reconhece esse vínculo, ela reforça a importância desse afeto. Integrar o animal ao ritual de despedida pode ajudar a ressignificar a perda e trazer sensação de respeito à história vivida com ele”, explica Vanessa.
Sinais de luto prolongado e como lidar de forma saudável
Segundo a psiquiatra, tristeza, choro e até dificuldade temporária para manter a rotina são reações esperadas após a perda de um animal. O alerta surge quando o sofrimento permanece intenso por meses e começa a comprometer trabalho, vida social ou autocuidado.
“Se mesmo depois de um tempo a pessoa não consegue retomar a rotina ou a dor continua incapacitante, é importante procurar acompanhamento profissional”, orienta.
Para enfrentar o luto de forma mais saudável, a recomendação principal é validar o próprio sentimento. Evitar minimizar a dor, manter rituais de despedida, preservar a rotina de autocuidado e dar tempo para elaborar a perda podem ajudar.
“Validar a própria dor é fundamental. Fazer um ritual de despedida, mesmo simples, e cuidar de si nesse período ajudam na elaboração do luto. É uma perda importante e merece ser tratada com respeito”, conclui Vanessa.
