Porta-voz: demissão de Bebianno é decisão de foro íntimo do presidente

Após Rêgo Barros confirmar exoneração, Bolsonaro divulgou vídeo no qual agradece colaboração do ex-subordinado

atualizado 19/02/2019 6:38

DIDA SAMPAIO/ESTADAO CONTEUDO

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) confirmou nesta segunda-feira (18/2) a exoneração do secretário-geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno. Segundo o porta-voz do governo, Otávio Rêgo Barros, o presidente agradeceu a Bebianno pela “dedicação à frente da pasta e desejou sucesso na nova caminhada”. “O motivo da exoneração é de foro íntimo do presidente”, disse o porta-voz, que afirmou desconhecer se foi oferecido algum outro cargo a Bebianno. A demissão foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta terça.

Assume a Secretaria-Geral o general Floriano Peixoto. Respondendo a pergunta do Metrópoles, o porta-voz disse não ter conhecimento se o presidente da República entrou em contato nesta segunda-feira com Bebianno, que coordenou a campanha vitoriosa de Bolsonaro rumo ao Planalto. Tampouco foi informado se o agora ex-secretário-geral terá alguma atribuição dentro do PSL.

Logo após o anúncio da exoneração de Bebianno, Bolsonaro saiu do Planalto sem se pronunciar. Instantes depois, o presidente divulgou um vídeo no qual diz que, “desde a semana passada, diferentes pontos de vista sobre questões relevantes trouxeram a necessidade de reavaliação. Avalio que pode ter havido incompreensões e questões mal-entendidas de parte a parte, não sendo adequados pré-julgamentos de qualquer natureza”, fala o presidente.

“Tenho que reconhecer a dedicação e o comprometimento do senhor Gustavo Bebianno à frente da campanha eleitoral em 2018. Seu trabalho foi importante para o nosso êxito. Agradeço ao senhor Gustavo pelo esforço e empenho quando exerceu a direção nacional do PSL, e continuo acreditando na sua seriedade e qualidade do seu trabalho”, ressalta.

Assista ao vídeo:

Bebianno passou dia isolado em hotel
O clima de tensão dominou o cenário político nesta segunda-feira. O primeiro dia de trabalho oficial do presidente Bolsonaro foi marcado por diferentes realidades de agenda.

Enquanto o Palácio do Planalto permaneceu movimentado desde o início da manhã, o então secretário-geral da República, Gustavo Bebianno, passou o dia trancado no quarto do hotel onde está hospedado. Em dias normais, era comum ver pessoas fazendo visitas e reuniões com o então secretário. Porém, no dia em que ele seria exonerado, ninguém foi visto procurando-o na recepção do estabelecimento.

Essa foi a realidade para Bebianno desde semana passada, quando a expectativa era que ele seria demitido. Não foi possível confirmar quem esteve com o ex-secretário durante o dia. Mas, segundo os funcionários do hotel, nem mesmo um pedido de serviço de quarto foi solicitado. Ainda não se sabe o motivo da demora no anúncio da demissão, mas especula-se que tenha ocorrido devido à possível falta de nomes para assumir o cargo ou à hipótese de delações que podem vir de Bebianno.

Nesta segunda, Bolsonaro se encontrou logo cedo com o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), e com o subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Jorge Antonio de Oliveira Francisco. Ele também se reuniu com os ministros: da Defesa, general Fernando Azevedo; do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno; e de Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Candidaturas laranjas
No início de fevereiro, surgiram suspeitas de que esquemas de financiamento de candidaturas laranjas tenham ocorrido durante as eleições de 2018 no partido do presidente, o PSL. O primeiro integrante do governo citado no caso foi o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que era dirigente do diretório da sigla em Minas Gerais.

De acordo com reportagem do jornal Folha de S.Paulo, quatro postulantes em Minas Gerais receberam R$ 279 mil do comando nacional da legenda. Elas ficaram entre as 20 candidaturas do partido que mais receberam recursos no país, mas tiveram baixa votação – menos de mil votos cada uma –, o que levantou a possibilidade de que os pleitos tenham sido de fachada. O então ministro Bebianno, que durante a campanha de 2018 era presidente nacional da sigla, negou as acusações.

Essa seria a primeira de uma série de suspeições relacionadas a repasses de recursos para candidaturas do PSL. Bebianno foi implicado diretamente nas suspeitas de financiamento de candidaturas laranjas cerca de 10 dias após a primeira reportagem sobre o caso. Como presidente do PSL e coordenador da campanha de Bolsonaro, ele teria aprovado repasse de R$ 250 mil para a candidatura de uma ex-assessora. As prestações de conta mostram que o dinheiro foi repassado a uma gráfica em endereço de fachada – onde não havia máquinas para impressões em grande escala.

Enquanto Bebianno era presidente da sigla, sete candidatos do PSL repassaram R$ 1,2 milhão a uma empresa de um dirigente do partido. O valor – gasto em gráfica localizada em um pequeno imóvel em Amaraji, na Zona da Mata pernambucana – é equivalente ao triplo do que a campanha de Jair Bolsonaro declarou em gastos com impressão de materiais gráficos. Entre os sete candidatos, só um foi eleito: o atual presidente nacional do PSL, o deputado federal Luciano Bivar.

Inquérito da PF
A Polícia Federal entrou no caso oficialmente na terça-feira da semana passada (12/2), quando intimou a prestar depoimento uma candidata a deputada federal pelo PSL acusada de ter sido laranja durante as eleições. A Procuradoria Regional Eleitoral e a Polícia Civil de Pernambuco também apuram o caso.

No dia seguinte, o presidente Jair Bolsonaro disse, em entrevista à TV Record, que havia dado “carta branca” ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, para investigar o caso por meio da PF.

Carlos Bolsonaro, filho do chefe do Executivo nacional, foi às redes sociais para dizer que Gustavo Bebianno mentiu ao afirmar que teria conversado três vezes com o presidente na terça (12). Ele também publicou um áudio, o qual indica ter sido gravado pelo pai, no qual Bolsonaro diz a Bebianno que não falará com ninguém.

“Falei três vezes com o presidente”, garantiu Bebianno em uma entrevista ao jornal O Globo, oportunidade em que negou ser motivo de instabilidade no governo. Horas depois, Jair Bolsonaro endossou os ataques do filho ao republicar, no Twitter, a mensagem que continha o áudio.

“Voltar às origens”
No mesmo dia, o presidente admitiu a possibilidade de demissão de Bebianno caso alguma irregularidade relacionada a repasse de recursos a candidaturas laranjas fosse identificada. “Se [o Bebianno] estiver envolvido e, logicamente, [for] responsabilizado, lamentavelmente o destino não pode ser outro a não ser voltar às suas origens”, afirmou, em entrevista à TV Record.

Bebianno, por sua vez, afirmou à imprensa que não pretendia deixar o cargo e confidenciou a amigos próximos que, se o presidente quisesse que ele saísse, teria de demiti-lo – o que aconteceu no início da noite desta segunda (18).

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