HFA tem 16,4 mil pílulas de cloroquina e hidroxicloroquina encalhadas

Ao menos desde abril, nenhum comprimido de cloroquina foi usado pela unidade de saúde para o tratamento de pacientes

atualizado 28/10/2021 9:47

Jacqueline Lisboa

O Hospital das Forças Armadas (HFA) mantém em seu estoque, há meses, milhares de comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina – medicamentos que têm sido defendidos insistentemente pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), mesmo sem comprovação científica, como armas contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2). Os medicamentos deverão perder a validade no primeiro semestre do próximo ano.

Dados enviados ao Metrópoles via Lei de Acesso à Informação (LAI) em 13 de abril de 2021 mostram que havia, na ocasião, 10,5 mil unidades de cloroquina e 10,8 mil de hidroxicloroquina no HFA.

Seis meses depois, o estoque de cloroquina é exatamente o mesmo: há 10,5 mil comprimidos do medicamento no hospital. Por sua vez, o estoque de hidroxicloroquina caiu em 45%, para 5,9 mil. Esses dados são de 15 de outubro e também foram encaminhados à reportagem por meio da LAI.

Esses remédios estocados no HFA foram enviados pelo Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (LQFEx), que gastou, segundo o Ministério da Defesa, cerca de R$ 1,141 milhão com a produção de cloroquina no ano passado. No total, o hospital recebeu mais de 50 mil comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina em 2020. Nos três anos anteriores (2017 a 2019), a unidade de saúde não recebeu ou comprou nem mesmo uma pílula dos mesmos medicamentos.

O prazo de validade do remédio é de dois anos. Segundo documentos enviados à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, a cloroquina produzida pelo laboratório do Exército vence em março de 2022 – tempo para lá de insuficiente para zerar o estoque, caso o HFA mantenha o mesmo ritmo de uso dos últimos seis meses. Ao se considerar os dois medicamentos, o hospital usou 26,5 comprimidos por dia. Até 1º de abril de 2022, caso a média de consumo seja a mesma, seriam consumidas mais 4.450 pílulas, restando, logo, quase 12 mil unidades.

O Metrópoles acessou os registros da CPI da Covid com o auxílio do Pinpoint, plataforma desenvolvida pelo Google que permite buscas por palavras-chaves em documentos públicos. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) colabora com o site.

Responsável pelo HFA, o Ministério da Defesa tem sido procurado desde a quarta-feira da semana passada (20/10) para se manifestar sobre o achado, confirmar o prazo de validade dos medicamentos e indicar o que será feito com o material estocado. Não houve qualquer resposta até a última atualização desta reportagem. O espaço segue aberto.

O uso de cloroquina no HFA provocou a abertura de uma investigação pelo Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRMDF). “A prescrição de qualquer medicamento só deve ser feita em consequência de um exame clínico. O CRMDF já está apurando as denúncias. O procedimento apuratório corre em sigilo processual nos termos do Art 1° do CPEP [Conselho de Processo Ético-Profissional]”, afirmou a instituição em nota.

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Em fevereiro deste ano, o Ministério da Defesa confirmou em nota enviada ao Metrópoles que os hospitais militares adotaram o tratamento precoce, mas que a prescrição é exclusiva dos médicos. “Os hospitais militares vêm adotando protocolo de tratamento precoce. A escolha da prescrição de medicamento é inerente à atividade do médico assistente e ocorre mediante o consentimento livre e esclarecido, sendo o paciente monitorado continuamente durante o tratamento”, afirmou a pasta.

Na ocasião, o órgão não especificou como funcionava o protocolo.

Zero pacientes com malária e 207 com lúpus

Após o Metrópoles recorrer da resposta enviada via LAI, que estava incompleta, o HFA informou que a prescrição de cloroquina e hidroxicloroquina para tratamento da Covid-19 “se deu seguindo protocolos vigentes à época e em consonância com o Parecer n° 4/2020, do Conselho Federal de Medicina”.

Ao longo da pandemia do novo coronavírus, foram atendidos no setor de triagem respiratória do hospital 53,9 mil pacientes, sendo que 5,9 mil confirmados com a Covid. “Em relação a quais pacientes usaram os medicamentos, a informação está protegida, por sigilo médico, conforme o Código de Ética Médica”, acrescentou o HFA.

A unidade de saúde também enviou informações sobre pacientes com lúpus e malária tratados no hospital. Cloroquina e hidroxicloroquina são comumente usados para o tratamento dessas doenças – nesses casos, com eficácia comprovada pela ciência. Desde o início de 2020, o HFA cuidou de 207 pacientes com lúpus e nenhum com malária. A dosagem costuma variar, segundo médicos da área, de um a dois comprimidos por dia. No caso do lúpus, o tratamento é contínuo e pode durar anos.

Produção

No total, o Exército Brasileiro produziu 3,229 milhões de comprimidos de cloroquina em 2020. Trata-se de um aumento de 1.145% em relação à última quantidade produzida, que abasteceu dois anos. Em 2017, o LQFEx fabricou 259,4 mil pílulas.

Em junho deste ano, o ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, afirmou, em documento enviado à CPI da Covid-19, que a elevada produção do remédio aconteceu devido a uma suposta “corrida mundial” em busca do medicamento. “Em 18 de março de 2020, começaram a surgir as primeiras publicações científicas internacionais que apontavam na direção do tratamento com antimaláricos, como a da Cell Discovery, provocando uma verdadeira corrida mundial em busca do difosfato de cloroquina, insumo farmacêutico ativo (IFA) para a produção de cloroquina”, escreveu.

O ministro da Defesa alegou também que a aquisição do insumo ocorreu “dentro de um cenário de iminente crise de desabastecimento”. Segundo ele, o aumento de produção ocorreu apenas após nota técnica do Ministério da Saúde.

A hidroxicloroquina é um derivado da cloroquina. Os dois medicamentos foram descartados como método eficaz de tratamento ou cura para a Covid-19 em diferentes pesquisas. Até o momento, nenhuma autoridade sanitária reconheceu alguma droga efetiva para curar a doença. Além da cloroquina, a Organização Mundial da Saúde (OMS) desaconselha o uso de ivermectina, remdesivir e lopinavir/ritonavir.

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