David Miranda diz ter mais da metade dos votos para CPI da Vaza Jato

Militantes da causa LGBT, os deputados federal pelo Rio e distrital conversam sobre as dificuldades de alcançar conquistas para a comunidade

atualizado 24/06/2019 19:02

Na semana em que são lembrados os 50 anos da revolta de Stonewall, ocorrida em 28 de junho de 1969, nos Estados Unidos, que representa um marco na luta contra a discriminação de homossexuais, dois dos principais defensores da causa LGTB no país pontuam conquistas, relembram dificuldades e avaliam: o caminho pela garantia dos direitos humanos ainda é longo. Tanto o deputado federal David Miranda (PSol-RJ) quanto o distrital Fábio Felix (PSol) estão no mesmo enfrentamento político diário — são homossexuais assumidos, criados em periferia e erguem a bandeira pela igualdade de direitos.

Durante a conversa, Miranda falou também a respeito dos vazamentos de informações envolvendo o ex-juiz federal Sergio Moro e procuradores da Operação Lava Jato, divulgadas pelo The Intercept – site do jornalista Glenn Greenwald, marido de David Miranda –, o parlamentar mostrou-se confiante sobre a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) denominada Vaza Jato, para apurar a atuação da força-tarefa. “Eu acho que talvez a gente tenha umas 130 ou 140 [assinaturas]. Acredito que o Centrão vai se movimentar para entrar com as assinaturas. E que a gente possa instaurar, ainda nesta semana, e fazer esse trabalho de investigação a fundo”, afirmou o deputado federal. Para abrir uma CPI são necessárias ao menos 171 assinaturas na Câmara.

Em relação à declaração polêmica do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho presidente Jair Bolsonaro (PSL), que afirmou, no último dia 19, que o deputado federal teria comprado o mandato para ocupar o lugar de Jean Wyllys, pela quantia de US$ 750 mil, Miranda soltou: “É inacreditável como eles criaram uma cortina de fumaça utilizando uma máquina de fake news. Primeiro, eu não tenho esse dinheiro. Depois, quem em sã consciência ia querer pagar para receber ameaças de morte, ficar longe dos filhos e de seu marido?”, disse.

Além disso, na ocasião, Flávio Bolsonaro atacou o jornalista Glenn Greenwald, marido do parlamentar, que divulgou em seu site, o The Intercept, diálogos entre o atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e procuradores da Operação Lava Jato, dizendo que Greenwald teria contratado um hacker russo para invadir os celulares. “A pergunta que fica é: ‘Cadê o Queiroz?’. Isso é uma cortina de fumaça para não responder à inconsistência do [ex-]juiz Moro, mostrando como o promotor tinha que trabalhar”, avaliou David Miranda.

Assista à entrevista:

Caso Rhuan
Os parlamentares comentaram o caso do menino Rhuan Maycon da Silva Castro, de apenas 9 anos, morto e esquartejado pela mãe em Samambaia, no Distrito Federal. Durante as investigações, a polícia descobriu que a autora do crime tinha amputado o pênis e os testículos do garoto antes do brutal assassinato, porque queria que ele fosse menina. Após a descoberta, algumas pessoas passaram a associar a execução com a chamada “ideologia de gênero”.

“Nós repudiamos a execução do menino Rhuan. Isso não tem nada a ver com a sexualidade. A maior parte dos crimes é cometida dentro do contexto da família, inclusive a família tradicional brasileira. Isso não quer dizer que tem vínculo”, declarou Fábio.

Em seu perfil no Twitter, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) publicou um vídeo questionando o silêncio por parte da mídia. O parlamentar conectou o caso à chamada “ideologia de gênero” e citou defensores como a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) e Jean Wyllys, que abandonou o mandato. “Tudo o que os filhos do Bolsonaro falam é um desserviço. Ajuda a criar desinformação e violência”, disse Fábio Félix.

“Luta necessária”
Ao comentar o assassinato da amiga e vereadora Marielle Franco (PSol-RJ), David Miranda avaliou que a luta “é muito difícil”. “Eu e Marielle eramos melhores amigos. A gente saía para jantar, meus filhos chamavam ela de tia Marielle. É muito difícil ver uma companheira de luta, da sua cor, de favela, ser assassinada”, lamentou o deputado.

“A LGBTfobia não é só a paulada. É ser expulso de casa, é o que acontece todo dia quando alguém faz piada, quando uma jovem travesti não consegue um emprego. É difícil, mas acho que é uma das lutas mais necessárias. Não tem outro caminho. Precisamos lutar pelos nossos. Não tem muita opção. Se a gente foi escolhido para ser porta-voz, não temos escolha”, disse o parlamentar, ao ser questionado sobre a dificuldade de assumir um papel importante na política.

Apesar de citar as ameaças de morte e os preconceitos enfrentados durante sua trajetória como deputado, Miranda vê muitos pontos positivos. “A quantidade de amor que eu recebo, o carinho das pessoas e o quanto elas falam para não desistir. As pessoas dizem para gente resistir. Tudo isso vale a pena, porque sei que temos uma juventude que está sofrendo e não tem voz. É muito necessária a nossa luta”, avaliou.

Orgulho LGBT
Os dois parlamentares foram entrevistados pelo Metrópoles nesta segunda-feira (24/06/2019) para abordar os temas, um dia após a Avenida Paulista reunir mais de 3 milhões de pessoas durante a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior manifestação a favor da causa realizada no país. Neste ano, o evento apresentou críticas ao governo de Jair Bolsonaro (PSL) e celebrou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de criminalizar a homofobia.

“Esse é um movimento contra um projeto de poder que atenta contra as nossas vidas. Uma parada que ganha mais importância, porque temos um presidente declaradamente homofóbico”, disparou Miranda durante o evento. Felix também participou e lembrou da falta de tolerância contra quem integra a comunidade gay. “Como cresce o fundamentalismo religioso, os discursos de ódio têm um desdobramento, que é a real violência. Cada palavra desses líderes é um gatilho que se aperta contra um LGBT”, disse.

Nesta segunda (24/06/2019) e terça-feira (25/06/2019), a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e a Câmara dos Deputados realizam seminários com a pauta LGBT para discutir como os legislativos Federal e local podem atuar para garantir às minorias os direitos reivindicados. “Nós ainda estamos lutando para não morrer. O Brasil lidera o ranking de intolerância e de violência contra os LGBTs. Nossas vidas importam e precisamos implementar políticas públicas que garantam dignidade e segurança”, defendeu Felix.

Ameças de morte
Casado com o jornalista Gleen Greenwald – fundador do site The Intercept Brasil –, David Miranda encaminhou recentemente denúncias sobre ameaças de morte à Polícia Federal. As informações são do jornal Folha de S.Paulo. O parlamentar já havia feito denúncia-crime, em 13 de março, a respeito de ameaças recebidas após assumir a vaga de deputado federal, em substituição a Jean Wyllys. Na época, o antecessor, eleito em 2018, desistiu do posto devido às constantes ameaças destinadas a ele.

Conforme relato do parlamentar, depois da divulgação de mensagens entre o ministro da Justiça, Sergio Moro, e o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, as ameaças se intensificaram.

A reportagem foi publicada no início de maio no site Intercept e indica suposta troca de colaboração entre o então juiz federal Sergio Moro e procuradores da Lava Jato.

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