Análise: na queda de vetos, Bolsonaro deixou Moro perder sozinho

Nem mesmo o líder do governo, atingido por operação policial, ajudou o ministro a derrubar trechos da lei que dificultam investigações

Foto: Dida Sampaio/Estadão ConteúdoFoto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

atualizado 25/09/2019 10:58

A derrubada dos vetos presidenciais na noite dessa terça-feira (24/09/2019) tem elementos curiosos para quem gosta de acompanhar a política nacional. De imediato, percebe-se a derrota estonteante do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

No confronto entre o ex-juiz da Lava Jato e o Congresso, venceram os políticos — especialmente os investigados. A pedido do ministro, Bolsonaro vetara 36 dispositivos da Lei de Abuso de Autoridade. Os plenários da Câmara e do Senado, porém, derrubaram metade das canetadas do chefe do Executivo.

Quando se olha mais de perto, nota-se que o governo deixou Moro sozinho nas mãos dos congressistas. Na hora que precisava do apoio político do Palácio do Planalto, o ex-juiz viu-se isolado entre os autores da lei. Assim, não dava mesmo para esperar uma vitória.

Para se entender um pouco mais o que se passou no Parlamento, deve-se atentar para os movimentos do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE). Em discurso feito na tarde dessa terça-feira (24/09/2019), horas antes da apreciação dos vetos, o senador pernambucano disse que a busca em seu gabinete era uma “operação política para atingir o Congresso e o governo do presidente Jair Bolsonaro”. 

Esse seria exatamente um exemplo do tipo de “abuso” que a lei quer impedir. Mas se o próprio líder do governo entende que essas operações devem ser coibidas, o ministro não tem a quem recorrer para fazer prevalecer suas propostas. 

Talvez Moro não tenha notado, mas Coelho encarna quase com perfeição a figura desempenhada por cerca de duas décadas pelo então senador Romero Jucá (MDB-RR). Por saber jogar – e fazer parte – do jogo pesado do fisiologismo, o político de Roraima foi líder nos governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT). 

O senador pernambucano é bem parecido com Jucá no envolvimento com as tramas do Congresso, mas pode não se segurar no cargo por muito tempo em consequência, exatamente, das investigações da Polícia Federal. Na foto em destaque, ele aparece à esquerda, em conversa com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), à direita, e com o líder PDT, Weverton Rocha (MA).

Para se ter uma ideia de como as coisas se deram, horas antes da sessão que apreciou os vetos, Coelho anunciou que negociava para que apenas parte dos vetos fosse derrubada. Essa era a conversa de quem aceitara devolver para o texto legal metade dos dispositivos eliminados por Bolsonaro. O líder do governo nem disfarçou sua condescendência com a derrota de Moro.

Outro sintoma importante do isolamento do ministro foi o sumiço do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Ele teve papel importante na eleição do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP),  mas não usou a influência para auxiliar Moro. Se trabalhou pela manutenção dos vetos, ninguém viu. Desta vez, não se falou de toma lá, dá cá nem de distribuição de cargos.

Moro só contou mesmo com sua capacidade de convencer os congressistas de que deveriam manter os vetos que lhes tiraram prerrogativas contra investigadores e juízes. Essa era uma missão, obviamente, fadada ao fracasso.

Enquanto isso, Bolsonaro participava em Nova York da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Logo, mesmo que quisesse, estaria limitado em sua capacidade de ajudar. 

Bolsonaro jogou nas duas pontas do dominó
Mas, quando leva em conta os interesses da família presidencial, fica mais fácil entender a paralisia do governo na defesa dos vetos pedidos por Moro. Envolvido nos rolos do ex-assessor Fabrício Queiroz, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) tem tanto interesse em barrar as investigações quanto todos os atingidos pela Lava Jato.

A aproximação do filho mais velho do presidente com a turma barra pesada do Senado ficou evidente na atuação dele para impedir a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigue a Justiça – conhecida como CPI da Lava Toga. 

Por todas as circunstâncias, pode-se concluir que Bolsonaro jogou nas duas pontas do dominó. Ao vetar os dispositivos a pedido de Moro, o presidente atendeu seu eleitorado que admira o ministro e brada por combate à corrupção. Quando deixa o titular da pasta da Justiça sozinho contra o Congresso, o capitão atende às necessidades do filho e de sua nova turma.

Desse jeito, Bolsonaro até parece trabalhar contra Moro, o mais popular de seus ministros. Assim, vão acabar adversários em 2022.

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