Análise: CPI da Lava Toga empurra Flávio para o vale-tudo do Congresso

Beneficiado por decisão de Dias Toffoli, filho do presidente trabalha contra a instalação da CPI da Lava Toga, proposta para pressionar STF

Fotos Igo Estrela/MetrópolesFotos Igo Estrela/Metrópoles

atualizado 11/09/2019 7:31

Os seguidores do presidente Jair Bolsonaro (PSL) vivem um dilema político. Se quiserem manter o discurso contra o Supremo Tribunal Federal (STF), terão de levar em conta que nem mesmo a família do capitão se mostra empolgada com essa pressão sobre os magistrados.

Tornaram-se evidentes nos últimos dias os movimentos do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) para tentar impedir a instalação da CPI da Lava Toga, comissão de inquérito proposta por um grupo de parlamentares para investigar o Poder Judiciário. O primogênito sequer assinou o pedido de criação do colegiado.

Para quem acompanhou as manifestações de apoio ao governo desde o início do ano, o comportamento de Flávio parece contraditório. Protestos de bolsonaristas na Praça dos Três Poderes e nas ruas pediram o fechamento do STF em nome do combate à corrupção.

Ao pressionar o Supremo, os manifestantes agiram em sintonia com uma declaração feita em 2018 por outro filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). “Se quiser fechar o STF, basta um soldado e um cabo”, afirmou o parlamentar de São Paulo. A declaração viralizou durante a campanha.

O discurso de combate à corrupção e de confronto com o STF começou a perder o sentido para a família Bolsonaro logo depois da vitória eleitoral. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo do dia 12 de dezembro de 2018 revelou que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificara movimentações atípicas em contas de Fabrício Queiroz, ex-policial militar que trabalhava no gabinete de Flávio, na época deputado estadual no Rio de Janeiro.

A falta de explicações convincentes e o sumiço de Queiroz tornaram o primogênito um personagem vulnerável ao jogo pesado do Congresso. Na prática, o senador fluminense foi empurrado para o vale-tudo dos políticos federais.

Desde o início da Operação Lava Jato, parlamentares atingidos pelas investigações tentaram reduzir os estragos causados pelas investigações. Uma dessas iniciativas foi justamente a proposta de instalar uma CPI para acuar o Judiciário, batizada de Lava Toga por analogia à operação comandada pela força-tarefa de Curitiba. Na cabeça dos parlamentares incomodados com as investigações, a comissão de inquérito desestimularia o STF a condenar políticos acusados pela Lava Jato.

Nesse tempo, Bolsonaro e o presidente do STF, Dias Toffoli, construíram uma relação de proximidade à revelia da vontade dos manifestantes que radicalizaram o discurso de combate à corrupção. Em julho, Toffoli determinou a suspensão dos processos judiciais que usaram dados bancários de pessoas investigadas compartilhados por órgãos de controle como o Coaf.

Essa decisão beneficiou Flávio diretamente. Com isso, a família Bolsonaro perdeu o ímpeto de atacar o Judiciário e o primogênito passou a trabalhar contra a Lava Toga.

Agora, os bolsonaristas mais agressivos contra o Supremo terão de reavaliar a estratégia futura. Uma alternativa é acompanhar a família no recuo em relação à CPI. Outra opção é continuar a pressão sobre o STF, como faz o senador Major Olímpio (PSL-SP), mas falando sozinhos.

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