Análise: Moro fica vulnerável a novas revelações antes de ir ao Senado

Situação do ministro da Justiça na CCJ vai depender da gravidade de possíveis diálogos sobre a Lava Jato ainda não divulgados por site

Foto: Hugo Barreto/MetrópolesFoto: Hugo Barreto/Metrópoles

atualizado 12/06/2019 7:18

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, tem dias complicados pela frente. Atingido pela divulgação de diálogos com integrantes da Operação Lava Jato, o ex-juiz vai ao Senado no próximo dia 19 para prestar esclarecimentos sobre as mensagens publicadas pelo site The Intercept. Até lá, ainda estará sujeito a novas revelações sobre o caso.

Não se conhece o conteúdo do arquivo obtido pelo site, mas o primeiro lote de conversas, postado nesse domingo (09/06/2019), dá uma ideia do potencial destrutivo do material para os envolvidos. O jornalista Glenn Greenwald, fundador do The Intercept, afirma que ainda processa as informações recebidas antes de novas publicações.

Enquanto vive a expectativa de ter o nome citado em mais reportagens sobre os bastidores da Lava Jato, Moro se prepara para a audiência no Senado. Pelas circunstâncias atípicas, a sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) terá ares de sabatina, como se o ministro fosse indicado para uma vaga Supremo Tribunal Federal (STF), onde pretende chegar um dia.

Moro dispõe de uma semana para tentar reduzir o impacto, sobre sua autoridade, da revelação dos diálogos. Diante de senadores, do governo e da oposição, ele será instado a se explicar sobre as conversas com procuradores sobre investigações e processos da Lava Jato. Precisará esclarecer, por exemplo, a cumplicidade demonstrada no relacionamento com integrantes do Ministério Público responsáveis pela operação.

Os trechos do arquivo conhecidos até agora comprometem a imparcialidade do então juiz, principalmente, nos processos contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), adversário político do governo. Por ter aceitado o cargo de ministro da Justiça, ele convive com suspeita de que recebeu o posto em troca de sua atuação contra o petista.

Nos dois dias seguintes às revelações do The Intercept, Moro recebeu apoio discreto do presidente Jair Bolsonaro (PSL). As manifestações mais ostensivas partiram do vice-presidente, Hamilton Mourão, e dos ministros militares, Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Carlos Alberto dos Santos Cruz, da Secretaria de Governo, e do general Eduardo Villas Boas, também do GSI.

Moro chegou ao governo com status de superministro. Quando comparecer à CCJ, no entanto, sua estatura será medida não só pela fama conquistada como juiz da Lava Jato, mas também sob o impacto do desgaste sofrido com os diálogos publicados pelo site.

Se, nos próximos dias, a Operação Abafa, executada principalmente pelos generais, conseguir se contrapor à gravidade das denúncias, o ministro da Justiça tentará se manter no cargo como se nada de negativo tivesse ocorrido. Esse é o cenário ideal para o ex-juiz.

Porém, caso surjam novidades que reforcem a impressão de que Moro privilegiou os acusadores, sua situação será de extrema fragilidade. Nessa circunstância, Moro corre o risco de sair da CCJ ainda menor do que entrou. O desfecho desse episódio, então, depende do The Intercept.

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