Análise: Bolsonaro deixa economia com Guedes e intervém na política

Ao tentar controlar instituições como PGR e Polícia Federal, presidente ensaia fazer um governo de acordo com suas conveniências

Foto: Rafaela Felicciano/MetrópolesFoto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 20/08/2019 7:29

Desde a campanha eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) franqueou ao ministro Paulo Guedes o comando da economia do país. Com exceção da interferência do capitão no preço do diesel, em abril, pode-se dizer que, de modo geral, o governo segue a cartilha da Escola de Chicago.

Em compensação, na política, quem aponta o rumo é o próprio chefe do Executivo. Não tem para ninguém. Mesmo os generais mais próximos, como Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), de vez em quando ouvem expressões como “Vocês não entendem de política, quem ganhou a eleição fui eu”.

Natural que a opinião do presidente prevaleça sobre seus subordinados, pois, de fato, foi Bolsonaro quem deu o tom da vitória na corrida para o Palácio do Planalto. O uso que o presidente faz de suas prerrogativas, no entanto, distorce o caráter republicano exigido do cargo.


Se passa a imagem de liberal na economia, Bolsonaro revela-se interventor na política. Tenta fazer um governo à sua imagem e semelhança. Atua para impor suas vontades, segundo conveniências, principalmente, da própria família.

Nota-se fortemente esse viés, por exemplo, na interferência do presidente na Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Não é um cargo qualquer, pois o titular tem sob sua responsabilidade a investigação a respeito das suspeitas de omissão nas declarações de bens do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

Ao pressionar pela troca do delegado, o capitão escancara a intenção de controlar o trabalho da PF nos problemas do primogênito, ex-chefe do notório Fabrício Queiroz. A relação entre o gesto do presidente e as suspeitas sobre Flávio é direta e intransferível.

Para se fazer uma comparação, durante os governos do PT, a Polícia Federal deflagrou a Operação Lava Jato, responsável por levar para a cadeia boa parte dos dirigentes petistas – entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao Metrópoles, o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo lembrou as pressões que recebeu do partido para intrometer-se nas investigações.

O presidente também revela sua vertente intervencionista quando busca um nome para o comando da Procuradoria-Geral da República fora da lista tríplice eleita pelos integrantes do Ministério Público. Sem qualquer pudor, Bolsonaro quer colocar no cargo alguém que atenda suas vontades. Ou, como se viu no governo Fernando Henrique Cardoso, um engavetador-geral da República.

O mesmo tipo de intromissão indevida se dá na Receita Federal, no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – este último para atender suas ideias negacionistas em relação ao desmatamento da Amazônia. No campo familiar, deve-se registrar também a tentativa de nomear outro filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para a Embaixada do Brasil em Washington, caracterizada como nepotismo pela Consultoria Legislativa do Senado.

Por fim, em mais uma comparação, vale lembrar o governo Dilma Rousseff. A presidente petista, de certa forma, fez o contrário do que faz Bolsonaro. Com Guido Mantega no Ministério da Fazenda, prevaleceu o modelo de intervenção na economia.

Na política, em compensação, Dilma teve pouco controle. De um lado, não tinha ascendência sobre os petistas, que sempre viram Lula como líder principal. Do outro, enfrentou uma oposição agressiva e aliados de ocasião que a derrubaram do Palácio do Planalto.

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