Planalto vê politização do tarifaço ganhar força com Flávio em audiência
Governo Lula avalia que atuação do senador em sessão nos EUA reforça caráter político da tarifa, enquanto negociações seguem em curso

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que a participação do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) na audiência pública que discute a proposta dos Estados Unidos de taxar em 25% produtos brasileiros importados pelos EUA, nesta terça-feira (7/7), reforça a percepção de que a nova tarifa é impulsionada por motivações políticas.
Segundo integrantes do governo, a iniciativa do senador de discursar em sessão promovida pelo Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) pode até buscar sensibilizar autoridades norte-americanas, mas, sobretudo, tende a ter uso interno.
A avaliação é que o parlamentar e seus apoiadores explorarão recortes de sua participação para sustentar a narrativa de que ele atuou para afastar sua responsabilidade pela imposição da tarifa.
A sessão, aberta à sociedade civil, conta com associações e empresas inscritas para se manifestar, mas não terá representantes do governo brasileiro. Interlocutores do presidente afirmam não ver sentido na participação do Executivo em uma audiência voltada à sociedade civil, já que o país mantém um canal direto de diálogo com a gestão Donald Trump para tratar do tema.
Na visão do Planalto, o encontro não é espaço de negociação, mas de manifestação de setores afetados pelas alíquotas propostas pelo USTR.
Atuação bolsonarista
A gestão Lula atribui a ameaça de taxação à atuação de Flávio e de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Desde o anúncio, em junho, do resultado da investigação do USTR contra o Brasil, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — que recomendou a tarifa de 25% por práticas consideradas desleais —, a avaliação no Planalto é de que os argumentos carecem de fundamentação técnica e têm caráter político.
Fontes palacianas, ouvidas sob reserva, afirmam que a família Bolsonaro tenta ajustar sua estratégia em relação ao tarifaço imposto no ano passado, diretamente associado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no âmbito da trama golpista. Naquele contexto, a medida acabou favorecendo Lula, que registrou alta de popularidade ao reforçar o discurso de soberania nacional e resistir às pressões externas.

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Ver todasAgora, porém, auxiliares do presidente avaliam que o impacto pode ser mais negativo para o clã Bolsonaro.
Isso por que, caso a tarifa seja de fato implementada — cenário considerado mais provável pelo governo brasileiro —, a população poderá também atribuir a Flávio o custo político da medida, caso ele não consiga revertê-la, enfraquecendo a narrativa de proximidade sólida com a gestão Trump.
Na semana passada, o senador enviou um ofício ao governo norte-americano pedindo a suspensão da medida, sob o argumento de que a tarifa poderia favorecer Lula eleitoralmente.
“As tarifas propostas entregariam ao atual governo brasileiro precisamente a vitória política que ele vem arquitetando, ao mesmo tempo que prejudicariam a economia americana e os próprios brasileiros, que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, escreveu.
O parlamentar solicita que o governo Trump suspenda a aplicação de sobretaxas ao menos até a realização das eleições presidenciais no Brasil.
Audiência sobre tarifa
- Acontece nesta terça-feira (7/7) a segunda parte da audiência promovida pelo USTR que discute a proposta de taxar em 25% produtos brasileiros importados pelo EUA. A sessão acontece na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em Washington, e foi dividida em 14 painéis. Os primeiros sete foram realizados nessa segunda-feira (6/7), enquanto os sete restantes começam às 11h de terça-feira (7).
- Durante os painéis, o órgão escuta membros da sociedade civil, empresas e associações sobre as taxas. A previsão é que as tarifas sejam implementadas a partir do dia 15 de julho. Até lá, contudo, o governo brasileiro espera chegar a um acordo com o país.
- Além do filho mais velho de Jair Bolsonaro, associações de setores atingidos pelo tarifaço, como a indústria e o agronegócio, também se inscreveram para falar.
- Como mostrou o Metrópoles, ao menos 13 inscritos pretendem discursar a favor das tarifas. O grupo de pessoas que pretende defender a taxação é composto por empresas e associações norte-americanas que alegam sofrer prejuízo com o mercado brasileiro. Eles representam segmentos variados, como o etanol, proteína bovina e produção de aço.
- O influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo havia se inscrito para discursar na sessão dessa segunda, mas desistiu após um ruído com o aliado, Flávio Bolsonaro. Nas últimas semanas, Paulo Figueiredo publicou um vídeo em que criticava a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e dizia que “mulheres votam muito mal” nas eleições. Figueiredo também afirmou que a inclusão feminina é uma ideia “feminista”, “marxista” e “completamente incompatível com o movimento da direita”. A declaração bateu mal na campanha de Flávio, que tem tido dificuldade em converter voto entre o eleitorado feminino.
Brasil tenta destravar negociação
Como mostrou o Metrópoles, na última quinta-feira (2/7) o governo brasileiro apresentou à equipe econômica de Donald Trump um “mapa do caminho” com alternativas de compensação para evitar a imposição do novo tarifaço.
Até esta fase das negociações, as autoridades norte-americanas ainda não haviam esclarecido quais pontos poderiam ser discutidos em troca de uma eventual suspensão das tarifas.
Diante disso, o governo brasileiro elaborou uma proposta que prevê o reforço de mecanismos de controle nas áreas questionadas pelos EUA com base na Seção 301: comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
O documento propõe ampliar medidas já existentes para demonstrar que os pontos investigados não distorcem o comércio norte-americano, buscando assegurar que essas áreas continuarão sem impactos negativos para a economia dos Estados Unidos.
O governo brasileiro também sinaliza disposição para adotar medidas adicionais em cada uma das seis áreas investigadas, algumas já em desenvolvimento. O Pix, no entanto, é considerado inegociável por integrantes do governo e não integra o documento.
Setores interessados
Três setores principais podem entrar na mesa de negociação, com possibilidade de redução de tarifas de importação de forma ampla, beneficiando a indústria norte-americana: máquinas, equipamentos na área da saúde e tecnologia da informação, que somam cerca de 300 linhas tarifárias.
Segundo o governo brasileiro, essas áreas atendem a interesses dos EUA e, ao mesmo tempo, preservam a indústria nacional — a proposta foi desenhada para não prejudicar o produtor brasileiro.
Com essas iniciativas, o Brasil tenta evitar que a gestão Trump alegue falta de engajamento como justificativa para aplicar a tarifa. Ainda assim, apesar de o “mapa do caminho” ter sido bem recebido, de acordo com fontes envolvidas nas negociações, auxiliares do governo avaliam que a alíquota deve ser implementada.
O governo dos Estados Unidos tem até 15 de julho para decidir se adotará a recomendação do USTR.
Técnicos dos dois países devem se reunir novamente no início da próxima semana, em preparação para um encontro de alto nível entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante de comércio exterior dos Estados Unidos, Jamieson Greer, antes do prazo final.















