Paracatu: crimes reacendem debate sobre violência contra a mulher

Vítimas do empresário Rudson Guimarães se tornaram símbolos da luta por respeito para as moradoras da cidade

Andre Borges/Esp. MetrópolesAndre Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 24/05/2019 7:29

Enviado especial a Paracatu (MG) – As mortes de Heloísa Vieira Andrade, 50 anos; Rosângela Albernaz, 50; e Marilene Marins de Melo Neves, 38, reacendeu em Paracatu, cidade mineira distante 234km de Brasília, a discussão sobre o combate à violência contra a mulher.

As vítimas do empresário Rudson Aragão Guimarães, 39, que matou sua ex-namorada Heloísa com um golpe de canivete no pescoço e abriu fogo contra os fiéis em uma igreja evangélica, tornaram-se para as habitantes de Paracatu um símbolo da luta pelo respeito às mulheres. Elas pedem: basta de violência.

De todas as idades e classes sociais, as cidadãs do município querem punição mais rígida aos agressores e alertam para a importância da denúncia. A comerciante Leize Santana, 49, está descrente. Para ela, a flexibilização do porte de amas promovida pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) irá acentuar o problema.

“Acho que a tendência é piorar. Armar a população é grave. A mulher está cada vez mais indefesa. Eu não vou me armar para me defender”, destaca, ao dizer que homens violentos terão sua agressividade potencializada.

As mortes de Heloísa, Rosângela e Marilene, segundo ela, devem ser observadas como um exemplo a não ser seguido. A comerciante diz que é preciso mudar o comportamento. “Toda mulher fica sensibilizada quando acontece um caso desses. Elas eram mulheres como eu”, lamenta.

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A comerciante Leize Santana acredita que armar a população deixará as mulheres mais indefesas

 

Leize emenda. “Estão acabando com as políticas para defender as mulheres. Quem vive uma situação dessas deve falar, denunciar e não se amedrontar”, alerta.

Na mesma tendência, a funcionária pública Fabiana Teixeira, 30, cobra mais rigor na punição de agressores. “Os homens que agridem mulheres devem ser mais penalizados. A falta de severidade nesses casos deixa a sensação de que nada nunca vai mudar”, avalia.

Para ela, que é brasiliense, mas adotou Paracatu como casa há 5 anos, o Brasil precisa viver uma profunda transformação cultural. “Muita coisa tem que mudar. Não aceitem, mulheres, esse tipo de comportamento”, orienta.

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A funcionária pública Fabiana Teixeira avalia que o Brasil precisa viver uma profunda transformação cultural

 

Poderia ser minha filha
Fabiana é mãe de Lívia, 2 anos. Ela espelha na filha a preocupação com o futuro das mulheres. “Como não projetar? Essa mulher poderia ser eu; amanhã, minha filha. E a covardia se perpetuando”, reclama.

Ana Cristina dos Santos, 49, vendedora ambulante, vivenciou de perto a agressão de um homem contra uma mulher. A filha dela, que terá o nome preservado a pedido da entrevistada, foi agredida por um ex-namorado. A lembrança do episódio causa revolta. “Dói na gente como mãe, mulher e como pessoa humana”, pondera, ao dizer que a filha não denunciou o seu algoz.

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A lembrança do episódio causa revolta em Ana Cristina dos Santos: “Dói na gente como mãe, mulher e como pessoa humana”

 

Violência é sempre ruim para a mulher e para o homem. Não é certo fazer esse tipo de coisa. Fico indignada

Ana Cristina dos Santos, vendedora ambulante e moradora de Paracatu

Nessa quinta-feira (23/05/2019), os investigadores começaram a ouvir formalmente as testemunhas dos crimes, analisaram os resultados das perícias e fizeram novas diligências. Ainda falta saber a origem da arma usada nos assassinatos e o que motivou a ação.

 

Passo a passo do crime
Por volta de 20h da última terça-feira (21/05/2019), Rudson Aragão Guimarães foi à casa da mãe dele, onde também estava a ex-namorada Heloísa Vieira Andrade, 50. Lá, ele esfaqueou a mulher no pescoço com um canivete. Ela morreu a caminho do hospital, devido a uma parada cardiorrespiratória.

Minutos depois, Rudson invadiu a igreja evangélica Shalom, atirou contra Rosângela Albernaz, 50, e Antônio Rama, 67, que não resistiram aos ferimentos e morreram. A intenção dele, segundo a polícia, era matar o pastor Evandro – mas, como ele fugiu com a ajuda de fiéis, Rudson alvejou o pai do religioso por vingança.

Rudson ainda rendeu outra fiel e a manteve sob ameaça. A Polícia Militar chegou ao local da ocorrência e tentou negociar. Nervoso, ele disparou contra Marilene Marins de Melo Neves, 38, a quarta vítima.

O atirador foi ferido pela Polícia Militar com tiros na mão e no ombro, então foi levado para o hospital – onde, segundo os médicos, está isolado e tem reagido bem ao tratamento.

Tentativa de suicídio
Nesta quinta-feira (23/05/2019), às 6h50, Rudson tentou suicídio, ferindo-se em três partes do pescoço com uma lâmina de bisturi. “O paciente foi atendido pela equipe cirúrgica. Ele permanece internado e sob escolta”, destaca a Prefeitura de Paracatu, em nota.

A direção do Hospital Municipal de Paracatu instaurou uma investigação administrativa, uma vez que o paciente, mesmo sob escolta de dois agentes da Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi), conseguiu ter acesso à lâmina.

Difícil convivência
O atirador é descrito como um homem temperamental, impulsivo e envolvido com drogas. Rudson é conhecido como uma pessoa de difícil convivência.

Os mais próximos a ele contam que o agressor, empresário do ramo imobiliário, vivia o momento de maior conforto financeiro. Apaixonado por animais e motos, muitos estranharam a arrancada violenta contra a ex-namorada.

Rudson não tem registros policiais por violência doméstica. Ele já foi preso por tráfico de drogas. Os relatos colhidos até o momento não apontam um comportamento agressivo.

A Polícia Civil de Minas Gerais trabalha com diversas linhas de investigação sobre o caso. Uma delas é que o motivo do crime pode ter sido o afastamento de Rudson das atividades da Igreja Batista Shalom.

Segundo a delegada responsável pelo caso, Thaís Regina da Silva, chefe da Divisão de Homicídios da 2 Delegacia de Paracatu, ainda não há indícios de um crime passional. Contudo, ela não descarta o indiciamento por feminicídio.

Veja quem são as vítimas do ataque:

Heloísa Vieira de Andrade
Ex-namorada do atirador. Morreu ao ser golpeada com um canivete no pescoço. Heloísa trabalhava como coach, dava treinamentos em empresas e palestras. A vítima estava na casa dos familiares de Rudson quando foi morta.

 

Rosângela Albernaz
Era fiel da Igreja Batista Shalom e proprietária de uma lanchonete que fica a um quarteirão do local. Segundo a Polícia Militar, a vítima, de 50 anos, tinha duas filhas e estava na reunião com o marido quando ocorreu o ataque.

 

Antônio Rama
Aposentado, Antônio morreu aos 67 anos. Era membro da igreja e pai do pastor Evandro Rama, que celebrava o culto na hora do crime. Com base em informações da PM, o atirador entrou na Igreja Batista Shalom procurando pelo líder religioso e atirou contra o pai dele por vingança.

 

Marilene Marins de Melo Neves
Fiel da igreja, Marilene trabalhava como serviços gerais na Escola Municipal Coraci Meireles e auxiliava na cantina da Creche Domingas de Oliveira. Ela era casada, tinha filhos e um neto.

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