“A tendência é acirrar os ânimos”, diz ministro do STF Marco Aurélio Mello

Magistrado ainda rebateu o decano da Corte, Celso de Mello, que comparou o Brasil atual à Alemanha nazista: "Discordo totalmente"

Ministro Marco Aurélio MelloSTF/DIVULGAÇÃO

atualizado 01/06/2020 18:05

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), se disse preocupado com a chegada da polarização política às ruas do país. Ao falar sobre os atos registrados em São Paulo e no Rio de Janeiro, em que torcidas organizadas protestaram contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a favor da democracia, o magistrado avaliou que a tendência é de acirramento dos ânimos.

“Me preocupo quando surge o antagonismo de rua, como o que vimos em São Paulo e no Rio. A tendência é acirrar os ânimos. As pessoas se mostram muito apaixonadas. É um caso sério”, disse, em conversa com o Metrópoles.

Na avaliação do ministro, as polícias militares dos respectivos estados agiram bem ao separar os protestos contra o mandatário da República daqueles que o apoiam. O que tem de ser evitado a todo custo, avalia, é um confronto entre os dois grupos, pois isso poderia aumentar a temperatura da crise.

“O que eles [policiais] não podem é tergiversar. Tem de entrar com pulso de aço e luva de pelica. Mas tem que separar. Às vezes, é preciso o uso da força”, argumentou.

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Restou claro que o ministro não se soma àqueles que colocaram em dúvida a ação da Polícia Militar. O ex-candidato presidencial Fernando Haddad e a ex-aliada de Jair Bolsonaro deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), por exemplo, denunciaram suposta “repressão” por parte dos agentes de segurança.

“É difícil criticar a polícia. Não temos o que tivemos nos Estados Unidos, que ficou muito feio”, comparou Marco Aurélio, em referência à morte de George Floyd, homem negro que, sem apresentar resistência, foi imobilizado por um policial branco e posteriormente encontrado morto. “Não temos violência nesse sentido”, prosseguiu.

Brasil e Alemanha nazista 

Marco Aurélio Mello discordou do tom adotado pelo decano da corte, o também ministro Celso de Mello, que, em mensagem classificada como de cunho pessoal, comparou a situação do Brasil atual à Alemanha nazista.

“’Intervenção militar’, como pretendida por apoiadores do presidente e outras lideranças autocráticas que desprezam a liberdade e odeiam a democracia, nada mais significa, na novilíngua bolsonarista, senão a instauração, no Brasil, de uma desprezível e abjeta ditadura militar”, anotou Celso de Mello.

“Guardadas as devidas proporções, o ‘ovo da serpente’, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar (1919-1933), parece estar prestes a eclodir no Brasil”, assinalou, ao citar o regime anterior ao nazismo.

O ministro Marco Aurélio, porém, não faz coro à leitura. “Discordo totalmente da avaliação. Não há comparação a ser feita. Se estivéssemos como a Alemanha, estaríamos muito mal”, frisou. “Momento é de temperança e compreensão. Precisamos de bombeiros, não de incendiários”, concluiu.

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