Deputado defende PM que prendeu professor com faixa contra Bolsonaro

Major Vitor Hugo considera que atitude do policial foi correta; questionado sobre decisão que afastou das ruas o tenente, ele desconversou

atualizado 04/06/2021 21:13

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Goiânia – O deputado federal Major Vitor Hugo (PSL-GO) disse nesta sexta-feira (4/6) que “não houve qualquer excesso” por parte do tenente da Polícia Militar de Goiás afastado das ruas por conduzir, até a Polícia Federal, na capital goiana, um professor que levava em seu carro uma faixa com os dizeres “Fora Bolsonaro genocida”. O episódio ocorreu em Trindade, na região metropolitana, e teve repercussão nacional.

O policial militar Marlon Jorge Albuquerque, conhecido como 1º tenente Albuquerque, foi retirado das ruas na terça-feira (1º/6), um dia depois de prender o professor e dirigente do PT em Goiás Arquidones Bites.

A PF liberou o professor por entender que ele não violou a Lei de Segurança Nacional, como alegou o oficial, que é investigado por suposto abuso de autoridade.

Em entrevista ao Metrópoles, Major Vitor Hugo, apoiador de Bolsonaro, disse que o tenente, de quem é amigo, “é um profissional pronto para continuar trabalhando pela proteção da sociedade brasileira e goiana, em particular”. “Conheço o Albuquerque há alguns anos. Ele tem mais de 28 anos de carreira policial. É um oficial experiente”, afirmou.

Conforme mostrou o portal, o nome do oficial aparece no site Goiás Transparente apenas desde 2010 e vinculado ao Comando da Academia da Polícia Militar. Ele também é instrutor de “uso seletivo da força”, em curso de capacitação da corporação destinado subtenentes e sargentos.

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“Tudo corretamente”

De acordo com Major Vitor Hugo, o seu colega de corporação “fez tudo corretamente”. Segundo o parlamentar, a decisão da Polícia Federal pode ser contestada. “Eu mesmo discordo da decisão. Sobre a atitude do tenente, não há qualquer reparo a ser feito”, ressaltou.

Apesar de defender o amigo, o deputado não quis contestar a decisão do comandante-geral da PM, Renato Brum dos Santos, que determinou também a investigação por abuso de autoridade contra o tenente. Albuquerque continua trabalhando apenas nas atividades administrativas.

“Não vou julgar a atitude do comandante da PM. Acho que ele fez o que achou que deveria fazer, para compreender as ações como um todo. A partir das averiguações, na minha opinião, o caminho a seguir é retornar o PM para atividades normais”, disse o parlamentar. “É isso que esperamos”, destacou.

Ao ser questionado se todos os PMs deveriam ter passaporte para conduzir manifestantes contrários ao governo, Major Vitor Hugo desconversou. “Cada caso é um caso”, disse. Segundo ele, o professor foi conduzido porque “estava repetindo, por diversas vezes, de maneira exaltada, que Bolsonaro é genocida, no limite do desacato ao policial”.

Portanto, o parlamentar preferiu não se manifestar sobre a possível defesa dele à atitude policial em outros casos semelhantes. “Não posso falar sobre situações em tese. Neste caso, era um PM de frente para o cidadão, que estava chamando o presidente da República de genocida. Não posso falar da multidão falando. Cada caso é um caso”, afirmou.

“Bolsonaro genocida”

O educador Arquidones Bites levava em seu carro uma faixa com os dizeres: “Fora Bolsonaro genocida”. Ele foi parado por uma guarnição de quatro policiais militares na rua e solicitado a retirar a indumentária do veículo.

De acordo com o tenente responsável pela abordagem, identificado como Albuquerque, o professor estaria infringindo a Lei de Segurança Nacional no trecho que proibiria calúnias ao presidente da República.

Criada pela ditadura militar, e modificada em 2016, novas mudanças na lei estão em debate no Congresso e sob avaliação no Supremo Tribunal Federal (STF). Em maio, a Câmara aprovou projeto que a revoga, mas ainda falta o Senado decidir sobre o tema.

Abuso de autoridade

O Governo de Goiás confirmou, em nota, que o “policial militar foi afastado de suas funções operacionais. Ele responderá a inquérito policial e procedimento disciplinar para apuração de sua conduta”, disse texto assinado pela SSPGO. O prazo para conclusão da investigação é de 40 dias.

“O governo de Goiás, por meio da Secretaria de Segurança, informa que não coaduna com qualquer tipo de abuso de autoridade, venha de onde vier. Assim sendo, todas as condutas que extrapolem os limites da lei são apuradas com o máximo rigor, independentemente do agente ou da motivação de quem a pratica”, afirmou a nota.

A Polícia Federal informou, também por meio de nota, que, após ouvir todos os envolvidos, “entendeu-se não ter havido transgressão criminal de dispositivo tipificado na Lei de Segurança Nacional”.

Irmão do ex-secretário do Entorno do Distrito Federal e ex-vereador de Valparaíso de Goiás Arquicelso Bites, que morreu vítima da Covid-19 em 30 de março, Arquidones disse ter tomado um soco dos policiais que o pararam na rua, em Trindade (GO), na segunda-feira. Ele protestou em memória do irmão caçula.

Segundo caso em 4 dias

Esta foi segunda vez em quatro dias que a PM de Goiás se envolve em polêmica relacionada à abordagem. Na sexta-feira (28/5), repercutiu em todo o Brasil o momento em que uma dupla de policiais abordou um jovem negro em Cidade Ocidental.

O youtuber Filipe Ferreira filmava manobras em uma bicicleta para seu canal quando os PMs param a viatura, apontam as armas e o revistam. Ele disse que foi vítima de abuso de autoridade.

O titular da SSP, Rodney Miranda, disse ao Metrópoles que o caso será investigado.

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