Bolsonarista e contra Lula: saiba mais sobre PM que prendeu professor

O 1º tenente da Polícia Militar Marlon Jorge Albuquerque teve nome completo revelado pelo Metrópoles e confirmado pela corporação

atualizado 01/06/2021 17:03

Tenente Albuquerque, da PM de Goiás, que prendeu professor por levar faixa contra Bolsonaro, é apoiador do presidenteDivulgação

Goiânia – Um tenente da Polícia Militar de Goiás, afastado das ruas nesta terça-feira (1º/6) e investigado por suposto abuso de autoridade por prender professor com faixa “Fora Bolsonaro genocida”, é autodeclarado na internet como defensor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O oficial critica o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e o PT, além dos que chama de “esquerdalhas”.

O 1º tenente da Polícia Militar Marlon Jorge Albuquerque teve seu perfil revelado pelo Metrópoles e também é instrutor de curso de aperfeiçoamento de colegas de farda. Ele prendeu o professor e dirigente do PT em Goiás Arquidones Bites Leão Leite, de 58 anos, em Trindade, na região metropolitana, na segunda-feira (31/5).

Tenente Albuquerque, como é chamado pelo seu nome de guerra, coleciona, em suas redes sociais, diversas publicações atribuídas a Bolsonaro e críticas a Lula, ao PT e à esquerda. Ele também aparece na internet em uma foto ao lado do presidente e se apresenta como judeu.

O portal não conseguiu localizar o contato de Albuquerque nem da defesa dele. O espaço segue aberto para manifestação do militar.

Manifestação

Em uma das mais recentes publicações nas redes sociais, o tenente reproduz parte da declaração do presidente em manifestação antidemocrática e inconstitucional em Brasília, contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso, realizada no dia 3 de maio.

Naquele dia, Bolsonaro disse que as Forças Armadas estão com ele e que “chegou ao limite”, que “não tem mais conversa” – sem explicitar o que isso significa, e o que pretende fazer em caso de novas decisões judiciais sobre atos da presidência da República considerados ilegais.

“O Poder Executivo está unido (…). O povo está conosco, as FFAA ao lado da lei e da ordem. Chegamos no limite”, escreveu o oficial da PM goiana, em seu perfil no Instagram. A identidade completa dele foi confirmada ao portal pela assessoria de comunicação da PM.

Em 2018, o tenente publicou, em suas redes sociais, que também tem fotos ao lado de sua família e de conferências de judeus, críticas ao ex-baixista e ex-vocalista do Pink Floyd Roger Waters depois de o artista aderir ao #EleNão e incluir Bolsonaro em uma lista, projetada em seu show, em outubro daquele ano.

“Roger Water (sic) é nazista, apoia o PT e o Haddad. Você que se diz judeu ainda tem coragem de apoiar o PT? Isso ocorreu na Alemanha”, escreveu o tenente.

Em outra publicação, Albuquerque também usou foto e o conhecido jargão do personagem Patrick, do humorístico Zorra Total, que era encenado pelo ator Rodrigo Fagundes. “Adélio Bispo de Oliveira – Vulgo Patrick. Olha a faca!”, escreveu o oficial.

O tenente da PM goiana citou na legenda o nome do responsável pela facada em Bolsonaro, durante a campanha à presidência da República, em setembro de 2018, e, Juiz de Fora (MG). Ele está internado compulsoriamente por transtornos mentais.

Em outro post, Albuquerque equipara a esquerda ao nazista Adolf Hitler e os diferencia em relação a Bolsonaro: “direita, apoio a Israel, cristão, estado mínimo capitalista, contra o aborto, cidadãos armados, democracia, liberdade de imprensa, liberdade individual”, entre outros.

“Bolsonaro genocida”

O educador Arquidones Bites levava em seu carro uma faixa com os dizeres: “Fora Bolsonaro genocida”. Ele foi parado por uma guarnição de quatro policiais militares na rua e solicitado a retirar a indumentária do veículo.

De acordo com o tenente responsável pela abordagem, identificado como Albuquerque, o professor estaria infringindo a Lei de Segurança Nacional no trecho que proibiria calúnias ao presidente da República.

Criada pela ditadura militar, e modificada em 2016, novas mudanças na lei estão em debate no Congresso e sob avaliação no Supremo Tribunal Federal (STF). Em maio, a Câmara aprovou projeto que a revoga, mas ainda falta o Senado decidir sobre o tema.

Abuso de autoridade

O Governo de Goiás confirmou, em nota, que o “policial militar foi afastado de suas funções operacionais. Ele responderá a inquérito policial e procedimento disciplinar para apuração de sua conduta”, disse texto assinado pela SSPGO.

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“O governo de Goiás, por meio da Secretaria de Segurança, informa que não coaduna com qualquer tipo de abuso de autoridade, venha de onde vier. Assim sendo, todas as condutas que extrapolem os limites da lei são apuradas com o máximo rigor, independentemente do agente ou da motivação de quem a pratica”, afirmou a nota.

A Polícia Federal informou, também por meio de nota, que, após ouvir todos os envolvidos, “entendeu-se não ter havido transgressão criminal de dispositivo tipificado na Lei de Segurança Nacional”. Por isso, o professor foi liberado, ainda na noite de segunda-feira.

Irmão do ex-secretário do Entorno do Distrito Federal e ex-vereador de Valparaíso de Goiás Arquicelso Bites, que morreu vítima da Covid-19 em 30/3, Arquidones disse ter tomado um soco dos policiais que o pararam na rua, em Trindade (GO), na segunda-feira. Ele protestou em memória do irmão caçula.

“Somos 19 irmãos, veio morrer justamente o caçula. Ele saiu da ordem”, lamentou Arquidones. “Saiu da ordem por causa que o presidente da República, esse genocida, não comprou vacina”, discursou ele, repetindo a frase que incomodou os PMs goianos, ao sair da Polícia Federal em Goiânia.

Segundo caso em 4 dias

Esta é a segunda vez em quatro dias que a PM de Goiás se envolve em polêmica relacionada à abordagem. Na sexta-feira (28/5), repercutiu em todo o Brasil o momento em que uma dupla de policiais aborda um jovem negro em Cidade Ocidental.

O youtuber Filipe Ferreira filmava manobras em uma bicicleta para seu canal quando os PMs param a viatura, apontam as armas e o revistam. Ele disse que foi vítima de abuso de autoridade.

O titular da SSP, Rodney Miranda, disse ao Metrópoles que o caso será investigado.

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