Veja quem é o professor preso pela PMGO com faixa “Bolsonaro genocida”

Arquidones Bites Leão Leite, de 58 anos, é professor, sindicalista, militante, ex-vereador e secretário de movimentos populares do PT em GO

atualizado 04/06/2021 17:10

goias perfil professor preso faixa bolsonaroArquidones Bites/Arquivo pessoal

Goiânia – Acusado de desrespeitar a Lei de Segurança Nacional e ter sido preso pela Polícia Militar de Goiás na última segunda-feira (31/5), ao colocar uma faixa com a frase “Fora Bolsonaro genocida” em seu carro, o educador Arquidones Bites Leão Leite, de 58 anos, milita pelas causas sociais desde a juventude.

Professor de história do ensino médio e dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) em Goiás, ele foi preso por ter se recusado a retirar a faixa do veículo. Bites estava em Trindade, na região metropolitana da capital goiana. Ele foi encaminhado a uma delegacia do município e, posteriormente, para a sede da Polícia Federal, em Goiânia. O professor foi liberado nas duas corporações, já que houve o entendimento oficial de não ter ocorrido violação da lei citada pelo militar que realizou a abordagem, o 1º tenente PM Marlon Jorge Albuquerque.

“Bolsonaro genocida”

De acordo com o tenente responsável pela abordagem, identificado como Albuquerque, o professor estaria infringindo a Lei de Segurança Nacional no trecho em que proíbe calúnias contra o presidente da República.

Criada na ditadura militar, e modificada em 2016, novas mudanças na lei estão em debate no Congresso Nacional e sob avaliação do Supremo Tribunal Federal (STF). Em maio, a câmara aprovou projeto revogando a norma, mas ainda falta o Senado decidir sobre o tema.

De acordo com Arquidones, a faixa “Fora Bolsonaro genocida” foi colocada no veículo dele para os protestos de sábado (29/5) contra o presidente Jair Bolsonaro e ele decidiu deixá-la.

“Minha namorada ligou, disse que os policiais iam prender o carro e ela se não tirasse a faixa. Eu fui lá e falei ‘esse é meu direito de me manifestar. Na minha família morreram várias pessoas dessa doença porque o presidente não providenciou a vacina. Além de ser militante, eu tenho essa revolta de ter acontecido na minha família. Tenho por todo mundo, mas por meu irmão e minha sobrinha, que morreu semana passada, a revolta cresce mais”, afirmou o militante ao ser liberado na sede da PF.

Abordagem policial

Ao Metrópoles, Arquidones relatou que após o ocorrido se sentiu feliz e angustiado. Após a liberação na PF, o professor contou que foi recebido no portal de Trindade, e cerca de 20 carros o acompanharam até sua casa, por volta das 23h30. Eufórico, ele disse que não conseguiu dormir.

“[Ele e a namorada] deitamos, nem eu nem ela não conseguimos dormir. Levantei de madrugada, mexi no celular. O que aconteceu foi um absurdo, parece que a gente não acredita. Se alguém me contasse isso e me mostrasse fatos e imagens, eu não acreditaria”, contou ele sobre a abordagem arbitrária que sofreu.

“Fiquei angustiado e ao mesmo tempo alegre. Tive a solidariedade do Brasil, e de fora do Brasil, como da Noruega, Portugal e Espanha. Me senti orgulhoso por cumprir esse papel revolucionário. Para mim, hoje, defender a vida é um papel revolucionário, mas eu de algema fiquei muito constrangido”, acrescentou o educador.

Ainda segundo Bites, providências devem ser tomadas em relação ao estado. “Apesar de ter chegado ao hospital, ter falado que fui preso não por ser bandido, mas porque Bolsonaro é genocida, a SSP já afastou [o tenente que fez a abordagem], vai fazer uma auditoria. Ninguém do estado me ligou até agora. Na segunda vou me reunir com os advogados e vamos ver o que fazer”, concluiu ele sobre o possível abuso de autoridade do militar.

Por meio de nota, o Governo de Goiás afirmou que o policial militar que realizou a abordagem “foi afastado de suas funções operacionais. Ele responderá a inquérito policial e procedimento disciplinar para apuração de sua conduta“. A PF, também por meio de nota, disse que, após ouvir todos os envolvidos, “entendeu-se não ter havido transgressão criminal de dispositivo tipificado na Lei de Segurança Nacional”.

Família

Arquidones é o 14º de uma numerosa família de 19 filhos. Agora, são 18, após o falecimento do irmão, ex-secretário do Entorno do Distrito Federal e ex-vereador de Valparaíso de Goiás, Arquiceldo Bites, vítima da Covid-19, em 30/3.

Segundo o professor, que se manifestou e gritou várias vezes para tentar expressar a presença do irmão: “Eu senti a presença do Arquicelso. Foi muito forte esse sentimento e de revolta. Porque meu irmão morreu e várias outras pessoas morreram porque o presidente não providenciou vacina. Ele não tem culpa do vírus, mas tem culpa por não ter providenciado a vacina antes e diminuído bastante o número de mortes”, afirmou.

Ao falar da família, Arquidones contou com orgulho ao Metrópoles sobre a matriarca e inspiração dos irmãos. Mãe de 16, “pegou um para criar”, além de outros dois que eram filhos só do pai. Segundo ele, o parteiro era o próprio pai, farmacêutico prático, que, apesar de não ter formação acadêmica, não recusava ajuda e atendia aos moradores da região.

“Meu pai era farmacêutico prático, não tinha formação. Tinha farmácia homeopática em um povoado de Trindade. Lá, ele extraía bala das pessoas, fazia curativos, primeiros socorros. Já a minha mãe era professora e, por sinal, a maioria dos irmãos também é professor. Minha mãe era uma professora extraordinária, Messias Leite Leão.”

Bites relata ainda que a mãe o inspirava também no campo político. “[Entre os filhos] são nove professores, eu sou professor, quatro advogados e um jornalista. Eu falo que a minha mãe foi a nossa inspiração, de todos os irmãos, ela era extraordinária. A minha mãe era eleição presidencial. Ela teve câncer, foi uma guerreira e fez 10 cirurgias. Ela falou que não queria fazer cirurgia antes da eleição, porque queria eleger a Dilma, primeira presidente do Brasil”, contou o professor, falando que herdou a bravura e a resistência da mãe.

De acordo com Arquidones, a mãe foi operada a contragosto, pois ela pediu para esperar a eleição presidencial. No entanto, por orientação médica, ela fez a 10ª cirurgia e morreu depois de aproximadamente uma semana internada. “A minha mãe operava e quando saía do hospital trabalhava, fazia comida, tinha uma disposição tremenda. Um dia antes de ir para o hospital, ela foi comigo no supermercado fazer compras, eu tenho isso como recordação. Ela foi muito guerreira e isso é uma inspiração.”

O professor é pai de três filhos, duas mulheres e um homem, com idades de 32, 31 e 26 anos.

Na família Bites, há também militares. Ele é tio, por exemplo, do ex-chefe da Casa Militar do Governo do Distrito Federal, coronel Rogério Leão. Ele ocupou funções de destaque na PM e no governo da capital federal principalmente na gestão de Agnelo Queiroz. O próprio Leão disse ao Metrópoles que são cinco militares na família.

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Militância

Formado em licenciatura plena em história pela antiga Universidade Católica de Goiás, Arquidones participa da militância dos movimentos sociais desde a juventude. Atualmente, ele é secretário estadual de movimentos populares do PT-GO, além de integrar o diretório municipal do partido em Trindade. Ainda em 1985, aos 23 anos, ele foi presidente da legenda no município e participou da executiva estadual outras duas vezes, nos anos 1990 e 2000.

Ele foi eleito para o primeiro mandato de vereador em Trindade em 1988. Em 1992, foi candidato à prefeitura da cidade, no entanto, não foi eleito. Em 1997, foi novamente escolhido para cumprir mandato na Câmara municipal da capital da fé em Goiás.

Sindicalista, ele também foi secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego) e da executiva da entidade por dois mandatos.

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