Com 21 mortes e sem plano do governo, coronavírus avança entre quilombolas

Dados apontam para taxa de letalidade do coronavírus de 16,4% entre quilombolas. Ministério da Saúde diz que responsabilidade é das cidades

atualizado 14/05/2020 7:15

A taxa de letalidade do coronavírus entre quilombolas é três vezes maior do que a média brasileira. São ao menos 21 mortes registradas entre descendentes de escravos que vivem nessas comunidades tradicionais e 128 casos confirmados. Ou seja, 16,4% dos casos confirmados evoluíram para o óbito dos pacientes, a maioria na região norte do país. No Brasil, a taxa de letalidade do coronavírus está em 5,2% segundo o Ministério da Saúde.

Os números indicam que essa população, que se espalha em 2.847 comunidades reconhecidas pelo país (e ao menos 1.500 não oficiais) em 24 estados, está especialmente vulnerável. Apesar disso, não há um esforço governamental coordenado para tentar proteger os descendentes de trabalhadores cativos, que comemoraram nesta terça (13/05) 132 anos da abolição da escravatura no Brasil.

Os números de casos e mortes nem mesmo são de uma fonte oficial – porque o governo não está contando. São dados que fazem parte de um boletim epidemiológico recém-divulgado pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).

Além dos números de casos confirmados e mortes, a entidade apurou junto a representantes locais que há outros 36 casos suspeitos e duas mortes em investigação. Das confirmadas, 7 ocorreram em comunidades do Amapá; 5 no Pará; 2 em Goiás e Pernambuco; e uma no Rio de Janeiro, uma na Bahia e uma no Maranhão.

A entidade avalia que a subnotificação é grande nesses dados, porque existe dificuldade para entrar em contato com as comunidades e para testar pacientes nas comunidades mais isoladas. “O acesso a exames tem sido negado, segundo relatos que chegam de quilombos”, informa a entidade, em nota.

“Até o momento, aproximadamente a cada dois dias tem ocorrido um óbito pela Covid-19 entre quilombolas”, informa a Conaq em nota. Segundo a entidade, a maioria dos quilombos não conta com sistema de saúde estruturado nem sequer saneamento básico, o que aumenta os riscos.

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“Cabe aos gestores municipais”
Questionado sobre a estratégia para proteger as comunidades quilombolas do coronavírus (da mesma maneira que ocorre, por exemplo, com os indígenas), o Ministério da Saúde informou que não há um plano específico para essas populações.

A pasta informou, porém, que “está mobilizada no apoio aos profissionais e gestores de saúde locais, principalmente os que cuidam de populações mais vulneráveis. Para isso, a pasta lançou nova metodologia de atendimento nos postos de saúde para pacientes com sintomas característicos da Covid-19, como febre, dor de garganta ou dificuldade respiratória”.

O ministério informou ainda que populações vulneráveis, como os quilombolas, estão inseridas em um programa lançado em novembro do ano passado, o Previne Brasil, que “estabelece o novo modelo de financiamento de custeio da Atenção Primária no âmbito do SUS. O programa busca ampliar o acesso da população aos serviços de saúde para garantir a universalidade do SUS, atendendo às necessidades e prioridades epidemiológicas, demográficas e socioeconômicas, ponderando vulnerabilidade socioeconômica, perfil demográfico e classificação geográfica na transferência de recursos para municípios”.

Sobre os quilombolas, especificamente, ainda segundo o Ministério da Saúde, “cabe aos gestores municipais a organização, execução e gerenciamento dos serviços e ações locais, de forma universal, dentro do seu território, implementando ações que garantam o acesso”.

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