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Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

Do agrotóxico para o agroecológico

Ficção com dados

08/09/2026 13:00
Joel Rodrigues/Agência Brasília
Horta no Parque da Cidade

Jadson beija a filha na testa e diz que tudo vai ficar bem, que está orgulhoso porque ela é uma menina muito forte. Abraça a mulher, que ficará no hospital durante parte da noite. Antes de sair, cumprimenta os pacientes e os familiares que dividem o mesmo quarto.

Na rua, acende um cigarro, a tosse irrompe e pensa: preciso deixar esse lugar. O médico disse para ele parar de fumar que seu pulmão não aguenta mais tabaco e glifosato. João esteve internado também, uma semana, pneumonia, igual a filha. Mas ir pra onde? Para se mudar, só com trabalho garantido. A saúde capengava mas trabalhava, comida não faltava. Ali porém muita gente tossia, adoecia, enlouquecia. Tinha que proteger a sua filha, mas ir pra onde?

João bem sabia, nem precisava apresentar estudo¹ algum. Na reunião de moradores falaram que 60% dos moradores de Campos de Júlio, Campo Novo do Parecis e Sapezal apresentaram algum relato de doença relacionada ao veneno; 24,5% tiveram intoxicação aguda, problemas renais atacaram 23,5%; 23,4% abalados por problemas psicológicos;, aborto espontâneo deixaram em luto 5,6%. Que fazer se a soja cercava as casas e o veneno matava o ar e as águas do Mato Grosso?

Poucos dias depois sua prima ligou. Deus ajuda. Só Circe mantinha contato, cultivava a fidelidade das memórias da infância em Camaçari; ligava vez em vez pra falar das distâncias, que não via mais ninguém, a não ser a mãe e o irmão – que estava de mudança pro garimpo. Separou e quis ganhar o mundo. A vida é dele, ela diz, mas desaprovava abandonar os filhos com a mãe. E Circe ainda tinha que alugar o quarto e sala dele, quase mobiliado, e assim ajudar a pagar a pensão das crianças.

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Acende a ideia em João e parece que o cérebro é melhor que o celular pra se comunicar, porque quando essa vontade começou a cavalgar seu coração, Circe pergunta se eles querem mudar para Camaçari. Ela falaria com seu marido que trabalha com construção e está sempre reclamando de peão bom. Tinha vaga de faxineira para sua esposa em duas escolas próximas. Se não acertasse poderia trabalhar com os doces da vizinha. Trabalho tinha. Deus ajuda.

Às vezes a vida pede pra ser ágil pras chances não fugirem. Em dez dias João vendeu o que pôde e doou o que sobrou, comprou as passagens e seguiram pra Bahia sem olhar pra trás. Havia uma expressão de alívio no rosto da filha, de indiferença nas feições da mulher e dúvidas no coração de João. Voltar para Camaçari trazia a nostalgia das alegrias da infância, o retorno ao lar; mas nessa casa também habitavam os traumas tatuados pela violência e a pobreza.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, Camaçari deixou a 4ª posição no ranking nacional de violência, com uma taxa de 74,8 mortes violentas por 100 mil habitantes. Agora era a décima cidade, com uma taxa de homicídio de 62,9 por 100 mil habitantes. Segundo a prefeitura, houve esforços em prevenção à violência, melhoria da iluminação pública e reabertura de espaços de convivência e educação. A periferia que João voltava e trazia a família era um lugar desconhecido.

Foi chegar e a vida da família se ajeitou. João trabalhando na construção de um prédio com o marido de Circe, sua mulher na escola, na mesma escola em que a filha estudava. No último fim de semana, fizeram um churrasco na casa de Circe: as famílias se abraçavam.

Só que três meses depois, uma briga de facções deixou um morto na porta da casa da família. João escapou de uma briga em um bar em que facas farejaram sangue. Foi a mulher de João que contou das maldades que a filha sofria na escola. Bullying que chamava. Era por isso que a menina escondia tristeza nos olhos baixos e se refugiava no celular com afinco.

A mulher de João começou a falar que na cidade da mãe não tinha nada disso. Mas tinha trabalho? Perguntava João. Não, não tinha trabalho, respondia a mulher. Essa resposta decidia tudo, sem trabalho, sem mudança, Camaçari era casa, ainda que doesse.

Foi em um domingo; João caçava as roupas sujas, a filha varria a sala, a mulher regia o almoço quando o celular tocou. O chocalho da panela de pressão abafou a conversa. Pouco depois ela entregou o celular aos ouvidos de João. Era a irmã dela. “Bom dia cunhado, se você tá pensando em mudança vem pra cá que o sul da Bahia te espera”. João torceu o cérebro, não gostava da irmã de sua mulher e suas manias de política. Ela morava em um assentamento do MST em Prado.

“Aqui não tem veneno do agronegócio não, estamos resgatando os saberes da agroecologia, é só comida boa na mesa. Mas não é fácil, vou avisando. Dias desses fizeram um estudo² por aqui, nossos problemas: ninguém facilita crédito, faltam biofertilizantes e defensivos naturais, a prefeitura e o estado não querem saber da gente e o que a gente produz ainda não paga as contas. Mas não falta comida. Aqui tá todo mundo na luta”

João desligou o telefone prometendo ligar depois. Durante todo o domingo uma palavra rodeava sua cabeça. Era tempo de parar de fugir. Correu do Mato Grosso, corria de Camaçari. Sempre no sufoco, cercado de veneno, cercado de violência e ninguém fazia nada, só aguentava. Talvez em Prado estivesse todo mundo junto, brigando, tentando, uma comunidade. O chão é feito de gente. Talvez fosse tempo de parar de fugir. Talvez fosse tempo de começar a lutar.

1 – Exposição aos agrotóxicos, condições de saúde autorreferidas e Vigilância Popular em Saúde de municípios mato-grossenses – Revista Saúde em Debate

2 – Transição agroecológica no Extremo Sul da Bahia: desafios e perspectivas a partir do Projeto de Assentamentos Agroecológicos. – Cadernos da Associação Brasileira de Agroecologia