
Fantasma do nazismo parece assustar menos os alemães (por Marcos Magalhães)
Entre os planos da AfD para a Saxônia estão os de segregar crianças refugiadas em escolas especiais

Poucos dias antes das eleições regionais na Alemanha, o primeiro-ministro Friedrich Merz, da sempre conservadora (mas civilizada) União Democrata Cristã (CDU), apresentou um duro alerta contra a ascensão da ultradireita em seu país.
Em entrevista a uma emissora de televisão, ele relatou que, no Parlamento, podia ouvir quase a seu lado as conversas entre deputados da Aliança pela Alemanha (AfD) sobre “destruir a CDU”, “destruir o sistema” e deixar o euro, o Acordo de Schengen e a União Europeia.
O alerta não parece ter sido suficiente. Nas eleições de domingo no estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, a AfD conquistou 43,8% dos votos – contra 17,2% da CDU, 9,3% do Partido Social-Democrata, 8,9% dos Verdes e 8,6% da Die Linke, de antigos comunistas da República Democrática Alemã.
A ultradireita ficou com 39, dos 83 assentos parlamentares no estado. Vai conseguir formar um governo? Ninguém sabe ainda dizer, pois precisará encontrar um partido que a ajude a obter a maioria parlamentar no estado.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSe tiver sucesso, a extrema-direita alemã chegará ao poder pela primeira vez desde a queda do regime nazista. O estado é pequeno. A Saxônia-Anhalt tem apenas 2,1 milhões de habitantes. Mas as repercussões do resultado das eleições são muito grandes.
Entre os planos da AfD para a Saxônia estão os de segregar crianças refugiadas em escolas especiais e montar uma força-tarefa para ajudar a deter e deportar imigrantes. Alguma coisa como “a Alemanha para os alemães”.
Soa raro que essa onda radical de direita se espalhe a partir do leste alemão. Afinal, por mais de 40 anos ali funcionou um regime socialista, onde crianças e jovens eram alertados sobre o nazismo, recebiam aulas de marxismo e conviviam com estudantes do Terceiro Mundo.
Uma explicação possível seria a sensação de desamparo nos estados da antiga RDA. Mesmo após grandes investimentos federais depois da reunificação do país, esses estados ainda são mais pobres e se sentem deixados para trás. Ressentimento atrai soluções radicais.
Mas não é só ali. A Europa, como um todo, sente o peso da decadência. Por um lado, luta contra a imigração ilegal dos que buscam ali melhores condições de vida. Por outro, sofre com o desemprego muitas vezes atribuído à invasão de produtos chineses.
Com isso, o que antes era estranho passa a ser quase normal. Um continente orgulhoso de sua defesa dos direitos humanos e sociais começa a conviver com partidos e governos que flertam sem pudor com antigos ideais fascistas e nazistas.
A ultradireita avança devagarinho. Aproveita as brechas da democracia para, pouco a pouco, conquistar espaço nos regimes democráticos do Velho Continente. A AfD já planeja alcançar o governo federal alemão em 2029.
O passado já não assusta mais? Parece que não tanto. O jornal francês Le Parisien resolveu perguntar aos eleitores que candidatos às eleições presidenciais de 2027 na França os inquietam menos.
Pois a candidata de extrema-direita Marine Le Pen foi a mais bem colocada, segundo resultado publicado no domingo. Ela inquieta 60% dos franceses. O candidato de esquerda Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, assusta bem mais: 81% dos eleitores.
O nível de rejeição a Mélenchon é comparável ao que tinha o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, nos anos 1980. É verdade que a filha suavizou o discurso. Ela chama de “radicais” inclusive os alemães da AfD. Mas é uma mudança e tanto para apenas 40 anos.
O contraponto a essa onda está do outro lado do Canal da Mancha, nas ilhas britânicas. Ali, o novo primeiro-ministro trabalhista Andy Burnhan promove uma guinada à esquerda em seu país e promete mais aproximação com a Europa. Boa parte da culpa por uma década de baixo crescimento, ele disse, é do polêmico e hoje impopular Brexit.
Que caminhos tomará o Velho Continente? O ressentimento de boa parte da população, com a ameaça de perder a vida boa das décadas de pós-guerra, ainda pode empurrar muitos eleitores a essa postura antissistema apontada por Merz em um programa de televisão.
Ao final do programa, o impopular primeiro-ministro disse ser impossível um acordo entre a CDU e a AfD. “Eu não vou deixar a União Europeia ou a Otan”, afirmou. “Não há possibilidade de compromisso, pois nós temos diferenças fundamentais nos principais temas políticos”.
Até aqui, o grande crescimento nas urnas da AfD ocorreu apenas em um pequeno estado do esquecido leste da Alemanha. Mas Merz e seus companheiros terão muito trabalho pela frente para conter a onda da ultradireita.
Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.

