Verdades indiscretas (Por Pedro Rogério Moreira)
Este implicante amador preferia mil vezes o Lula dos tempos de dona Marisa
atualizado
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Tomei emprestado para batizar este artigo o título de um livro de ensaios do mineiro Antônio Torres (1885-1934). Ele era vigário em Diamantina, deixou a paróquia por implicância ao bispo, e foi ser padre no Rio de Janeiro, onde implicou com o arcebispo Arcoverde e acabou largando a batina. Virou jornalista implicante. Depois, diplomata no exterior, implicou com seu chefe em Hamburgo. Era um implicante profissional. Implicou até com o uso de barba pelos oficiais do Exército na Primeira República.
Cada qual com a sua implicância. O autor deste artigo implica com as leguminosas subterrâneas que infestam a horta política nacional.
O sábio Samuel Johnson disse há três séculos que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. A máxima política serviu a Jair Bolsonaro para sequestrar a camiseta da Seleção Brasileira e fazer do manto sagrado do nosso futebol o seu escudo para a trama golpista.
No ano da Copa do Mundo, milhares de torcedores envergonhados não a vestirão, para não serem confundidos com a canalha que manchava a camisa na porta dos quartéis. Uma pena, porque nesse setor somos milhares de otimistas e damos força à boa estrela de Ancelotti antes de pôr fé nos jogadores que dão o melhor de si em seus clubes europeus do que vestindo o uniforme verde-amarelo. Argh!
Assistindo à TV Senado, porém, vem a implicância com alguns tipos distintos de leguminosas unidas pela admiração ao Bolsonaro pai e agora carregando o andor do Bolsonaro filho. O estropiado cantor de pagode gospel Magno Malta, o bizantino Mourão (em quem tanto, quando passou à Reserva, nutria-se uma esperança que se revelou vã) sempre ao lado de uma pastinha de burocrata onde guarda papéis inúteis, e o caladão Rogério Marinho fazendo um papel pedestre que não condiz com o nome de seu avô, o notável Djalma Marinho.
Se o ex-presidente lhes devotasse reconhecimento, haveria de tê-los convocado como auxiliares na trama golpista. Foram relegados, não porque fossem legalistas convictos, mas porque Bolsonaro não lhes dava a menor bola. Ao vice-presidente Mourão nem dava bom dia. Magno Malta desejava, como um guri a um Kibon, ser ministro, que fosse das Relações Exteriores (como pediu), e ficou chupando o dedo. O Marinho, quando ministro, ainda guardava um quê de respeito à memória política do mestre Djalma; perdeu-o na derrota eleitoral do golpista.
Nem vou citar o masteriano Ciro Nogueira, famoso de outros carnavais, quaisquer, importando que estivesse no corso ao lado do Momo endinheirado ou poderoso do momento. Para eles, ainda bem que mereceram o desdém de Bolsonaro, Deus seja louvado, ficaram de fora da bem aplicada Papudinha do Moraes, o mesmo Moraes que finge não ter nada a ver com nada da inacreditável revelação da implicante repórter Malu Gaspar de que a patroa ganhava um dinheirão do Vorcaro.
Esqueci de implicar com alguém? Sim, esqueci do Moro! Ofendido e humilhado publicamente pelo Jair, no único momento alto de sua passagem pelo Ministério da Justiça, no desgoverno que maltratou o Brasil por quatro anos, Moro agora faz cara de paisagem no plenário azul das nulidades. Esse legume ainda tem muito a purgar no inquérito do fim do mundo antes que o nosso mundo, o nosso Tayayá, acabe de vez.
Este implicante amador preferia mil vezes o Lula dos tempos de dona Marisa. Lembram-se? Ele carregava na cacunda o isopor de cerveja e camarão seco para enfrentar o domingo de classe média numa praia baiana, ela com a sobriedade e leveza de esposa de operário. Não tinha cara de não-me-toques de quem atingiu pela sorte da intimidade a culminância de primeira-dama. Dona Marisa caminhava junto, mas cedendo a primazia da dianteira ao marido. Isso é fotografia na parede. Fui.
Lula quis se tornar líder mundial, ora direis ouvir estrelas. Vive viajando para fora, numa gastação extraordinária de dinheiro e de energias, promove até conferências custosas em Belém do Pará sobre as águas do mundo, para tudo dar em água de barrela. Queima querosene da FAB e exaure o seu dinamismo pessoal, quando bem que poderia arregaçar as mangas no quintal de casa, metendo pesticidas nas larvas que corroem a lavoura e faz brotar as pragas de Master, INSS et caterva, e de leguminosas subterrâneas, duras de roer, como as espécies alcolumbres e mottas.
Pode uma coisa dessas, o Lula metido a ombrear-se com os maiorais da Europa e da Ásia? Pode sim, uai, o uai para implicar com o nosso João das Regras da fonética nacional, o luso-brasileiro Gilmar Mendes. Um crítico implicará: não pode não, nem falar inglês o analfabeto sabe. E daí? A defesa dos oprimidos tem idioma universal: é a palavra verdadeira, sincera, às vezes proferida em tom de revolta procedente. Lula sabe fazer isso, às vezes tropeçando, mas sabe.
Mas não precisava exagerar tanto, como nos últimos três anos, ao ponto de o sucesso nos palcos mundiais subir-lhe à cabeça e desejar até um topa-tudo com Stalone Trump. Tudo por causa da besta quadrada do outro filho do Jair que fugiu para ir futricar nos Estados Unidos em vez de vender hambúrgueres. Ainda bem que existem craques no Itamaraty e no empresariado nacional para consertar o estrago do fujão traidor e do próprio Lula, esse querendo engavetar o dólar e dar vez ao yuan chinês.
Mas Lula acha que é bom de sela. Não é, a alimária alucinada pelas esporadas recebidas de Lula mostrou há dias no rodeio do Senado que é capaz de atirar ao chão quem lhe monte sem dar um afago. Não bastam as emendas secretas, as leguminosas subterrâneas não têm limites para sugar o esterco da pecúnia. Sobrou para o pobre coitado do Bessias, aquele mesmo leitor da Bíblia que assinava o besteirol da incompente (de mãos limpas) afastada pelo golpe parlamentar do Eduardo Cunha, esse mesmo que agora aguarda, confiante, a desmemória do eleitorado mineiro para voltar ao rodeio da Câmara dos Deputados.
Todo animal gosta de afago. Ora, custava colocar a pachecal figura no STF? Essa mesma figura saída de um velho volume do Eça, aquela figura que tem medo de enfrentar o energúmeno Zema, outra espécie de leguminosa que viceja na política, o candidato que deseja a legalização do trabalho infanto-juvenil, isto é, deseja que a molecada pobre abandone a escola para trabalhar nas vendas de beira de estrada de que é proprietário em Minas.
A pachecal figura teme detetizar a leguminosa tipo zema num prélio eleitoral, mas não teme sentar-se na cadeira que um dia foi de gente intimorata como seus conterrâneos Sepúlveda Pertence, Adauto Lúcio Cardoso, Victor Nunes Leal. Lula podia até melhorar muito a indicação, oferecendo outro nome crescido no Senado, o Bruno Dantas, soprado pelos experientes próceres do MDB.
Sem falar que Lula poderia mirar no campo feminino, agora o dono da voz de comando. Voz que chega a cravar: tem de ser mulher e negra, ponto final, como disse outro dia a magister dixit Miriam Leitão. E da próxima vez, será mulher e dos “povos originários”, como dizem afetadamente os apresentadores de TVs. Proibido dizer índio, indígena – silvícola então nem pensar!
Não sei se há tempo de Lula corrigir o rumo que agradaria aos lulistas não-petistas, como o implicante leitor de Antônio Torres. O presidente poderia ter agido desde muito antes, se percebesse a Verdade Biden que estava na cara. Não que o homem esteja ruim da cabeça, a radioterapia ele vai tirar de letra. No campo político, está com dificuldade nos pés. Não chuta mais com os dois, como a imprensa mostrava que ele fazia nas peladas do Alvorada regadas a pinga e cerveja, no primeiro governo aplaudido, apesar do Mensalão.
A saída teria sido seguir o exemplo da figura paradigmática de todos os democratas sul-americanos, o uruguaio Pepe Mojica. Com esse não dá para implicar! Lula o amava sinceramente. Mas, com essa viajação para o estrangeiro, Lula o esqueceu.
Ah, se tivesse trabalhado para fazer um sucessor ou sucessora! Ah, se lá atrás tivesse escalado um moço carismático como esse Camilo Santana, que sabe falar à juventude, ou deixar de ser prisioneiro do PT e apontado o dedo para outro jovem radiante de energias como o prefeito de Recife, João Campos, ou dado espaço e força a uma ministra de seu governo ou a um coroa experimentado nos coices da vida como o lúcido dono da palavra de fogo, Flávio Dino, mas para este agora é tarde.
O implicante está jogando a toalha? De maneira alguma, está só implicando, pois permanece o sonho de reconquistar a sequestrada camisa verde-amarela da Seleção, com ou sem a panturrilha do Neymar. Argh! Neymar? Melhor reler Antônio Torres.


