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Contrato e barbaridade (por Ricardo Guedes)

Como diz Noah Harari, em ”Sapiens”, o homo sapiens tem muito pouco de sapiens, caminhando para um desastre a curto prazo

24/07/2026 13:01
Reprodução
Arnault, Elon Musk e Zuckenberg - Metrópoles

Rousseau disse que a única maneira de se sair da barbárie é o “Contrato Social”, no “Espírito das Leis” de Montesquieu. Na Democracia, os grupos sociais estariam politicamente representados, o sistema eleitoral levaria sempre à eleição dos melhores, e a representatividade na negociação política iria garantir a repartição da renda. Mas nada disso ocorreu. Os grupos sociais não são representados, as eleições elegem, via de regra, os piores, e a distribuição de renda piora cada vez mais. Onde vamos parar?

Do início da Revolução Industrial até o final do século XX, experimentamos surtos de democracia. Na Inglaterra, o Parlamentarismo prosperou, conjuntamente com os movimentos sociais e melhor distribuição de renda.  Nos Estados Unidos, a Revolução Americana instalou os princípios da liberdade e do mercado, com grande desenvolvimento econômico e político. Na França, a Revolução Francesa introduziu os conceitos de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, e após 50 anos de conturbação política que seguiram, a França encontrou sua forma da Terceira República em diante. Na Suécia, capital e trabalho fizeram o que se denomina de pacto “Social Democrata”, com revezamento no poder entre as classes e benefícios para todos.

Passamos por duas Guerras Mundiais, por motivos geopolíticos e de poderio econômico das nações.

Até 1980, a renda das três classes sociais, a alta, a média e a baixa, aumentou. A partir de 1980, entretanto, dispara a renda da classe alta, estabiliza-se a renda da classe baixa, e cai significativamente a renda das classes médias, como dados do “World Inequality Report”. Ao mesmo tempo, o sinal amarelo, hoje quase vermelho, da crise ecológica e dos recursos naturais, acende-se.

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As classes médias, que dependem de estabilidade para viver, desgostosas com os sistemas eleitorais por não serem representativos e redistributivos, e aversas ao socialismo ou à políticas  sociais, agarram-se aos líderes radicais de direita. Simon Commander, ex-professor da London Business School, em sua nova revista “Modern Autocracy”, indica que hoje 2/3 de humanidade vive em “Modern Autocracies”, no desmanche das ordens constituídas. E some-se a isso a crise ecológica que se acentua, com a predominância da geopolítica pelos países sobre os interesses das classes sociais.

A Lei perece, e a Barbárie cresce. Nesta Copa, por exemplo, até um “cartão vermelho” foi revertido pela FIFA a pedido – ou, poderíamos por assim dizer, por determinação – de Donald Trump.

Como diz Noah Harari, em ”Sapiens”, o homo sapiens tem muito pouco de sapiens, caminhando para um desastre a curto prazo. O interesse na  riqueza imediata e o usufruto individual de suas benesses prevalecem sobre o bem das futuras gerações.

Como na música de “As Meninas”:

“Analisando essa cadeia hereditária
Quero me livrar dessa situação precária
Onde o rico cada vez fica mais rico
E o pobre cada vez fica mais pobre
E o motivo todo mundo já conhece
É que o de cima sobe e o de baixo desce”

Ricardo Guedes é Ph.D. pela Universidade de Chicago e Autor do livro “Economia, Guerra e Pandemia: a era da desesperança”