
Flávio e o Partido Digital Bolsonarista (Antônio Carlos de Medeiros)
Intuo que a candidatura de Flávio Bolsonaro ainda tem fôlego eleitoral relevante nas pesquisas em decorrência da movimentação digital

A partir de 2013, Jair Bolsonaro construiu um ecossistema digital bolsonarista. Cresceu gradualmente até 2018 e consolidou-se no período em que Bolsonaro foi presidente da República (2019-2023).
Pois bem. Este ecossistema resultou na existência do Partido Digital Bolsonarista (PDB). Um novo modelo partidário, não institucionalizado, que nasce digital com a lógica da própria rede da internet. Ou seja, a internet é o próprio ambiente do partido, que não se trata de um partido-plataforma.
A tese da existência do PDB vem de uma pesquisa seminal de três anos no Cebrap/SP, publicada agora em 2026. Resultou no livro digital “Partido Digital Bolsonarista” (Cebrap) organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira.
No debate sobre a organização política contemporânea, o PDB é uma novidade. Não é só o “ismo” (Bolsonarismo). Produto da ascensão da extrema direita, um fenômeno global, é visto como uma nova forma de partido político, “com potencial para remodelar a democracia moderna”: o partido digital.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAtua regularmente nas redes digitais, como nova forma de ação política – independente dos partidos tradicionais. No Brasil, o PDB tem o PL como interface institucional, “para ter acesso ao poder”. No interior do PL, existe a ala Centrão fisiológica e a ala de membros do PDB, que é majoritária – dizem os autores.
O Partido Digital seria uma espécie de atualização do Partido de Massas da virada do Século XIX. No Século XX, os partidos de massas foram disruptivos em termos de mobilização de massas. “Agora, o Partido Digital é uma espécie de atualização do partido de massas”(…)”no Brasil, entre os maiores partidos, só o PT construiu um partido de massas”. Um partido orgânico, mas ainda analógico.
Trata-se, portanto, de um processo de metamorfose da democracia representativa e do governo representativo. Uma provável nova democracia de massa, depois de um longo período minimalista da democracia do tipo schumpeteriana – na qual “o papel do cidadão é apenas eleger representantes” e a democracia só se mobiliza em épocas de eleições.
O Partido Digital atua de forma constante, coordenada e intensa, não apenas em épocas eleitorais.
O livro mostra que é impressionante o grau de coesão entre o eleitorado.: “uma coletividade unificada com agenda identitária, coesão, organização coletiva e escolha social”.
A escolha e escala social ocorre pela via da utilização de “múltiplas plataformas online para criar redes densamente articuladas de lealdade entre topo e base, mediadas por camadas intermediárias de influenciadores”. São cadeias de lealdade, com interseção entre diferentes cadeias de lealdade. Portanto, “as fronteiras da legenda digital tornam-se difusas”(…)”com expansão contínua”.
O pertencimento, como se sabe, vem da qualidade do engajamento online de cada indivíduo.
O fato é que o Partido Digital acaba resgatando características dos partidos de massas que haviam sido perdidas com a ascensão de partidos eleitorais. A chamada democracia minimalista.
O objeto de conquista de poder social do PDB é o bolsonarismo. Mas os autores mostram que ele está se ampliando para outros grupos de direita. São cadeias de lealdades (tipo “correntes partidárias) “atreladas a elementos práticos de engajamento, financiamento, hierarquia, coesão, coordenação, disciplina partidária e atuação institucional”. Atuação institucional via PL e outros partidos do Centrão.
Com dinâmica de rede, o PDB está sempre em ritmo de campanha permanente, para além dos ciclos eleitorais. “Tal vantagem se estende às formas de financiamento e construção de influência, que não se restrigem aos canais formais e permitem sustentar uma atuação contínua”.
OU seja, “sem leis que obriguem a transparência de algoritmos ou o controle de fluxos financeiros virtuais, o PDB consegue manter uma estrutura hierárquica e de financiamento que escapa à fiscalização do Estado. A lógica permanente de mobilização reorganiza o tempo político, tornando a campanha uma condição contínua. Ao mesmo tempo, o PDB desenvolve mecanismos próprios de legitimação. Eventos de grande visibilidade pública funcionam como rituais nos quais se tornam observáveis a hierarquia interna, a capacidade de ativação e o grau de disciplina do conjunto”.
Em suma, dizem os autores, o PDB sinaliza uma “mutação nas bases do governo representativo que excede a simples adaptação tecnológica”.
Tese relevante (o PDB) para compreender e debater melhor o momento político brasileiro. Vale a leitura.
Intuo que o PDB esteja, ainda, sustentando a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Entretanto, ao mesmo tempo, dado que estas eleições presidenciais de 2026 são “sui generis” e que a indecisão é muito alta (54%), está em curso uma queda do ativismo digital e da polarização impulsionada pelas redes.
Maria Cristina Fernandes registrou outro dia que Renato Dolci da Timelens fez as contas: “dos 168,7 milhões de conectados, apenas 27 milhões se manifestam sobre política. Desses, aqueles cujo número de seguidores e taxa de engajamento tornam relevantes, não passam de 8,7 milhões”.
Maria Cristina diz que “a direita predomina entre os perfis relevantes, mas são os extremos que geram o grosso das menções”. Assim, é por isto que “Dolci contesta a tese de que o Brasil esteja polarizado. Os extremistas digitais da política representam apenas 1 milhão, entre 157,8 milhões de eleitores, 168,7 milhões de internautas e 212 milhões de brasileiros” – diz ela.
Ou seja, a polarização ideológica está circunscrita a uma bolha.
Neste contexto, será possível o Partido Digital Bolsonarista continuar sustentando a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro?
Antônio Carlos de Medeiros é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

