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Blog do Noblat - 22 anos

Um ventilador no pescoço e uma pergunta no ar (por Mariana Caminha)

Sobre a proliferação do que resolvi chamar de "gadgets da crise climática"

25/06/2026 12:19
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Reprodução
Ventilador portátil

A terça-feira começou aqui em Londres com uma tempestade de respeito – daquelas com trovões, raios e tanta água que inundou trilhos e provocou atrasos em toda a cidade.

Acordei às três da manhã com o barulho da chuva batendo na janela e não consegui voltar a dormir. Minha preocupação era prática: a logística do evento que vim cobrir durante a London Climate Action Week.

Mas a cidade ainda guardava outra surpresa.

Poucas horas depois da tempestade, o calor chegou com força. Tão forte que voltou a causar transtornos no transporte público, desta vez por um motivo oposto. Em menos de uma manhã, Londres havia experimentado dois extremos climáticos.

Não por acaso, dizem que o assunto preferido dos ingleses é o clima. Hoje, portanto, era impossível escapar da conversa.

Mas, para ser sincera, minha atenção já vinha sendo capturada por outro fenômeno desde que desembarquei aqui, na última sexta-feira: a proliferação do que resolvi chamar de “gadgets da crise climática”.

O mais popular deles é o ventilador portátil.

É verdade que ventiladores existem há décadas. Durante muito tempo, empresas lucraram vendendo conforto: ventiladores, aparelhos de ar-condicionado, piscinas. O que está mudando agora é outra coisa. Estamos assistindo ao surgimento de uma nova categoria de produtos: dispositivos criados para enfrentar ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas.

Estamos entrando na era em que grandes empresas de tecnologia não vendem apenas conveniência. Agora, trata-se de sobrevivência térmica.

Quando algumas das maiores marcas do mundo começam a investir pesadamente em dispositivos pessoais de resfriamento, talvez estejam nos dizendo algo que ainda relutamos em admitir: o calor extremo deixou de ser uma previsão para se tornar parte da rotina. E, como toda nova realidade, já ganhou seu próprio modelo de negócios.

Fui pesquisar o assunto.

Nos últimos meses, empresas tradicionalmente associadas a aspiradores de pó, eletrodomésticos e eletrônicos passaram a lançar ventiladores portáteis, sistemas de névoa refrigerada, colares térmicos e até uma espécie de “ar-condicionado vestível”.

A Dyson lançou o HushJet Mini Cool, um ventilador portátil que pode ser usado na mão, preso ao pescoço ou apoiado sobre a mesa. A Shark respondeu com o ChillPill, que combina ventilação, névoa refrescante e uma superfície metálica gelada para resfriar a pele. A Sony continua investindo no Reon Pocket, um dispositivo vestível que reduz a temperatura corporal por contato.

Comentei sobre isso com colegas do escritório. O que me impressiona não é exatamente a tecnologia. A inovação, afinal, sempre encontra novos mercados.

O que chama atenção é a aposta por trás dela.

Essas empresas estão investindo bilhões porque acreditam que o calor extremo deixará de ser um evento excepcional para se tornar uma condição permanente da vida moderna.

Há, porém, outro aspecto que merece reflexão.

Esses gadgets custam entre £100 e £200 – algo entre R$ 700 e R$ 1.500, dependendo da cotação. Não são produtos populares.

Enquanto uma parcela da população compra dispositivos sofisticados para enfrentar dias de 40 graus, outra enfrenta o calor sem sombra, sem ventilação adequada e, muitas vezes, sem acesso confiável à eletricidade.

A adaptação climática está se tornando um mercado. Mas continua em aberto uma pergunta incômoda: o frescor será um direito ou um privilégio?

Caminhando por Londres, entre ventiladores portáteis, alertas de calor e chuvas torrenciais, não consigo deixar de pensar que estamos nos tornando especialistas em nos adaptar às consequências de um grande problema. O que ainda falta é demonstrar a mesma urgência para enfrentar as causas dele.