
A direita gostou do jogo (por Felipe Sampaio)
No Brasil, desde 2018, a direita saiu do armário. Isso é bom.

Em ano de Copa do Mundo o espírito torcedor contagia a disputa eleitoral. No entanto, apesar do clima polarizado, admitamos que o bolsonarismo não inaugurou a direita raiz na Terra da Santa Cruz. Ao contrário, os excessos daquele transtorno obsessivo extremista chegam a causar rejeição nos estratos tradicionalistas brasileiros, decepcionados com a falta de entregas (e de charme). Sejamos francos, nossa democracia mal acabada já nasceu de direita. A inusitada deposição de um imperador republicano (no Brasil isso é possível) por um marechal monarquista não resultou de inspiração do recente iluminismo, tampouco de movimentos populares. Bastou Pedro II (este sim, iluminista) comentar nos piqueniques franceses que o melhor para ‘les misérables brésiliens’ seria uma república abolicionista. Prontamente, a oligarquia agrária escalou Deodoro para desmontar o ministério liberal e dar um susto no rei moderninho. Pra variar, o braço forte pesou mais que a mão amiga. Sobrou para a coroa, banida sem volta com o séquito de plantão para o Alentejo.
Um século depois, na ressaca de 21 anos de governos militares, o hemisfério direito da política nacional abrigou-se sob siglas republicanas, liberais, cristãs, nacionalistas ou mesmo democratas, nas quais coubessem seus valores conservadores. Nesse cenário, após 1985, enquanto os políticos de direita buscavam asilo entre a bíblia e o economês, seus simpatizantes ficaram órfãos de uma representação eleitoral assumida. Não admira que as pessoas tenham preservado nos militares a materialização de família, religião, princípios e pátria. Talvez, por isso, na falta de uma simbologia política própria, tenham recorrido à camiseta da CBF.
A dificuldade em se assumir de direita depois de reaberturas democráticas não foi exclusiva dos políticos brasileiros. Após a II Guerra Mundial, por exemplo, aconteceu o mesmo na Europa, onde o fascismo havia deixado uma memória vexatória. Ultimamente, a direita volta à superfície, em torno de figuras como Sanae Takaichi, Putin, Trump, Le Pen, Milei, Bukele, Antônio Kast ou Giorgia Meloni. Esta, por exemplo, até tenta se repaginar, confessando admiração por Mussolini e simpatia pela democracia ao mesmo tempo.
No Brasil, desde 2018, a direita saiu do armário. Isso é bom. Já era hora de os políticos da direita brasileira assumirem abertamente seu compromisso com os costumes e as expectativas conservadoras do seu eleitorado. No cenário ainda polarizado de 2026, o frisson será normal nas eleições, assim como na Copa. É preferível que cada um expresse claramente em que acredita (excluindo-se aqui os atos golpistas, discurso de ódio e fake News). Assim, a democracia fica mais justa e efetiva. O futuro se constrói com tolerância.
Como não sou de direita, creio neste ano em uma ampla aliança em torno da candidatura de Lula, como em 2022. Uma reedição do palanque da democracia, que segue sob a mira de pseudonacionalistas com discurso anarcoliberal (paradoxo de um Brasil colônia de si mesmo). Será inadiável, também, que o novo Parlamento reverta sua tentação de se impor como co-Executivo, ao mesmo tempo em que priorize a qualidade legislativa, evitando retrocesso de costumes e descaminho orçamentário. A responsabilidade política é um valor basilar da sociedade que antecede as posições de direita ou de esquerda.
Felipe Sampaio: cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; sócio da Terra Consultoria e Inovação; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife; foi secretário-executivo substituto no Ministério do Empreendedorismo.
