
Um teste de estresse para Lula (por Marcos Magalhães)
Ainda há tempo para a economia se recuperar. Assim como há tempo para que Lula volte à plena forma

Para alguém que passou pelo que passou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas últimas semanas, com internações e intervenções cirúrgicas, o estresse deveria passar longe. Contudo, os últimos dias de 2024 ainda prometem fortes emoções.
De chapéu e camiseta branca, Lula recebeu em sua casa, em São Paulo, a visita do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na manhã de segunda-feira. O ministro disse estar “surpreendido com a disposição do presidente”. Melhor assim.
Os fins de ano costumam ser movimentados no Congresso Nacional. Este ano promete um tempero a mais. Estão em jogo temas como o ajuste das contas públicas, a nova estrutura tributária do país e, naturalmente, a definição de receitas e despesas de 2025.
Tudo isso enquanto os juros sobem, o dólar vai às alturas e o país assiste, pela primeira vez desde a redemocratização, à prisão de um general de quatro estrelas.
Os acontecimentos dos próximos dias e das próximas semanas serão decisivos para a definição da segunda metade do mandato presidencial.
Para começar, a aprovação do pacote fiscal – considerado tímido pelo mercado financeiro e muito ousado pela ala esquerda do governo – vai ser muito importante para a definição de expectativas para 2025.
Se o resultado da votação no Congresso for o de um pacote desidratado, o governo pode vir a enfrentar uma maré de desconfiança, traduzida, provavelmente, em novas altas do dólar e em ainda mais intensas elevações da taxa de juros.
Vai ser necessária uma grande disposição política, por parte do Executivo, para manter as principais medidas do pacote e, com isso, acenar com melhores resultados fiscais para o ano que vem.
Outra votação que vai exigir muita articulação é a da regulamentação da reforma tributária, que volta à Câmara depois das modificações feitas pelo Senado. Não é pouca coisa: trata-se da etapa final de tramitação de uma reforma discutida há duas décadas.
Se tudo der certo, e por mais imperfeita que venha a ser a reforma, o Brasil dará aos investidores um importante aceno não apenas para 2025, mas para as próximas décadas.
Para começar, a própria estrutura de tributação será tremendamente simplificada. O sistema será ainda modernizado e vai atender a antigas demandas, como a tributação do consumo no destino – e não mais no local de produção.
Como observou o próprio Lula, na conversa com Haddad, vai ser preciso promover um entendimento entre senadores e deputados sobre temas sensíveis como a inclusão ou exclusão de produtos na lista dos que terão maior tributação.
Por fim, já diante de um cenário definido pela aprovação das novas regras fiscais, estará em votação o projeto de Orçamento da União para 2025. Uma peça final na montagem do quebra-cabeças econômico do ano que vem.
Vão ser dias agitados no Congresso. Daqueles dias que exigem grande mobilização do Poder Executivo para a aprovação de medidas que terão efeito direto na definição de expectativas para o futuro próximo e para o futuro um pouco mais distante.
Lula vai precisar de toda a energia que puder encontrar nessa sua recuperação. Assim como vai precisar de unidade do governo em defesa de suas medidas e da atuação direta dos principais atores da articulação política.
Se tudo der certo, o presidente vai dar início à segunda metade de seu mandato com um cenário mais claro e com o poder de iniciativa para lidar com uma economia ainda incerta e com um movimentado ambiente político.
Ele poderá respirar um pouco mais aliviado no início de 2025, quem sabe dar um mergulho nas praias da Bahia. Mas o susto que ele passou, após a queda e a batida da cabeça, deve ajudá-lo a refletir sobre o seu futuro político e o futuro político do próprio país.
Ele deve se candidatar novamente em 2026? Caso não se apresente, quem receberá seu apoio? O próprio Haddad tem sido apontado como herdeiro natural, mas teria projeção política suficiente para se eleger?
Segundo pesquisa do Datafolha, a gestão de Haddad à frente da Fazenda é considerada boa ou ótima por apenas 27% dos entrevistados, enquanto 34% a veem como regular e outros 34% como ruim ou péssima.
Ainda há tempo para a economia se recuperar. Assim como há tempo para que Lula volte à plena forma. A bola está com ele. Caberá ao presidente decidir se aposta em uma nova temporada ou se aposta no seu sucessor.
Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.
