Um dia ruim para a democracia (por Mirian Guaraciaba)

Só com muito sangue frio para não reagir à desfaçatez de Hugo Motta

atualizado

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KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo
O presidente da Câmara, Hugo Motta, retoma a sessão plenária após o deputado Glauber Braga ser retirado a força e da continuidade à análise do projeto de lei da Dosimetria – metrópoles 5
1 de 1 O presidente da Câmara, Hugo Motta, retoma a sessão plenária após o deputado Glauber Braga ser retirado a força e da continuidade à análise do projeto de lei da Dosimetria – metrópoles 5 - Foto: KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo

Há muito não se via tamanha falta de respeito na casa do povo. Na Câmara dos Deputados, ontem à noite, a ordem da presidência foi soltar o cassetete. Sobrou para a imprensa, que apanhou dos seguranças da casa, e foi expulsa do plenário, sob as ordens do coronel paraibano, sobrou para alguns parlamentares, que apanharam dos seguranças da Câmara. Só não sobrou para o janota Hugo Motta.

Inadmissível. Inaceitável. Motta ultrapassou todos os limites. Não se tem notícia do dia em que a imprensa foi retirada do plenário da Câmara dos Deputados.

Depois de mandar tirar à força de sua cadeira o deputado Glauber Braga (coisa que não fez quando seguidores de Bolsonaro assumiram sua cadeira por dois dias), Motta voltou à sessão defendendo o PL da Dosimetria. Quer reduzir de 27 anos para 2 anos a pena do golpista Jair Bolsonaro. Motta não se envergonha de dar o golpe no golpe.

E não é só o PL da dosimetria. Cinicamente, quer nivelar Glauber Braga (PSOL-RJ) a Eduardo Bolsonaro, entreguista que tramou contra o Brasil nos EUA de Trump, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, deputados condenados e fugitivos. Entrega o mandato de Glauber num processo mal contado de ataque a um militante do MBL, e finge que exerce democracia, propondo a cassação dos três meliantes.

Fazendo as contas, os traíras custam aos cofres públicos R$ 460 mil mensais, entre salários, cotas parlamentares e servidores. E milhões em emendas parlamentares.

Clima hostil se instalou em Brasilia. Entre Motta e o governo, entre Lula e Alcolumbre, e entre o presidente do Senado e o STF. Alcolumbre não engoliu a blindagem dos ministros do Supremo, em liminar baixada por Gilmar Mendes. Apenas a PGR poderia pedir o impeachment dos ministros. O presidente do Senado reagiu e pautou para hoje, quarta, votação de projeto que permite à OAB, PGR, partidos políticos e cidadãos em abaixo-assinado com 1% do eleitorado, pedir o impedimento de ministros.

 Vorcaro, Ibaneis, Toffoli, Bacellar

O Ministro Dias Toffoli deve esclarecimentos sobre o caso Master. Num dia, viaja no jatinho particular de “um empresário amigo”, com o advogado de Daniel Vorcaro (foi a Lima ver seu Palmeiras perder a Libertadores), e no outro recebe de bandeja o processo do banqueiro de araque.

A citação de um deputado federal levou Toffoli a chamar para si o caso Master. Alegação frágil. A defesa usou o nome de João Carlos Bacelar (do PL, claro) e um contrato imobiliário. Protegendo Vorcaro, o Ministro travou as investigações. Vorcaro, que passou uma semana na cadeia, está solto.

Tudo parece uma coisa só. Ibaneis e Celina também devem explicações sobre a defesa ardente da compra do Master pelo BRB, operação que claramente poria em risco a saúde financeira do banco público. Por ação do Banco Central, nos livramos dessa rasteira.

O Master foi liquidado e casos surreais são conhecidos aos poucos. A compra de um apartamento de $ 4 milhões para a sugar dad de Vorcaro. O cunhado do dono, ainda durante a negociação, pediu ao BRB $ 28 milhões por um imóvel que vale, no máximo, $ 9 milhões.

Nas histórias poucas republicanas, há informação de que o escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes teria contrato de milhões com o Banco Master. O acordo não entrou em vigor. O banco foi antes à bancarrota.

ESCÁRNIO – Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, preso pela PF por suposto envolvimento com o crime organizado, foi solto seis dias depois pelos colegas deputados. O CV tomando conta abertamente da politica fluminense.

Flávio Bolsonaro mal assumiu a candidatura à Presidência e já a pôs à venda.

Obs: A expressão “casa da mãe Joana” vem da França medieval, século XIV, referindo-se aos bordéis regulamentados pela Rainha Joana I de Nápoles, em Avignon. Por ela ser protetora e dar ordem a esses locais, eles se tornaram conhecidos como “Paço da Mãe Joana”, significando um lugar aberto e sem regras, que evoluiu para a ideia de bagunça e desordem que conhecemos hoje no Brasil e em Portugal.

E na Câmara dos Deputados.

 

Mirian Guaraciaba é jornalista 

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