Reforma das forças armadas (por André Gustavo Stumpf)

O governo brasileiro investe pouco nas suas forças armadas. O gasto fica em torno de 1,3% do produto interno bruto

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Ricardo Stuckert/Presidência da República
Foto colorida do presidente Lula e os chefes das Forças Armadas - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida do presidente Lula e os chefes das Forças Armadas - Metrópoles - Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

O presidente Lula descobriu que o Brasil precisa dar mais atenção as suas Forças Armadas para proteger o país de eventual ataque externo. É uma descoberta óbvia, um pouco tardia, porém verdadeira. Os militares brasileiros sempre estiveram mais preocupados com a gestão do país, com a política partidária, com suas próprias vantagens e relegaram a segurança nacional a segundo plano. Mas a invasão da Venezuela, o sequestro de Nicolas Maduro, pelas forças especiais dos Estados Unidos, chamaram atenção dos países do continente para sua fragilidade.

A última vez que o Brasil teve suas fronteiras violadas foi na guerra contra o Paraguai, no século 19. A notícia de que o país tinha sido invadido levou três semanas para chegar ao Rio de Janeiro, sede do Império. O Brasil de hoje está ligado por comunicações de norte a sul, de leste a oeste. Mas faltam equipamentos para informar violações das fronteiras nacionais. Elas são quase abertas. Contrabandistas de todos os calibres, de drogas, armas, e equipamentos diversos, conhecem os caminhos para fazer o material chegar ao consumidor brasileiro. Quando Maduro ameaçou invadir a Guiana, o Exército brasileiro fez uma penosa transferência de equipamentos de Manaus para Roraima. A operação levou mais de um mês. Tempo mais que suficiente para que o eventual invasor se instalasse confortavelmente no território nacional.

O atual efetivo das Forças Armadas brasileiras é de aproximadamente 360 mil militares na ativa. No Exército estão 213 mil, na Marinha 74 mil e na Aeronáutica 68 mil militares. Cerca de 10% do efetivo é constituído por mulheres. A este número se somam 409 mil militares da reserva, pensionistas e as famosas filhas solteiras que recebem pensão por toda a vida. Cerca de 70% das despesas militares no Brasil são dirigidas para pagamento de pessoal, da ativa ou da reserva. Resta pouco dinheiro para investir em novas tecnologias e equipamentos modernos capazes de fazer frente aos desafios da guerra moderna.

O governo brasileiro investe pouco nas suas forças armadas. O gasto fica em torno de 1,3% do produto interno bruto. Os Estados Unidos investem 3,5%, a Rússia 4%, a Índia 2,4%. Donald Trump pressiona países europeus para aumentar os gastos militares até 5% do PIB. As guerras de Trump na Venezuela e no Irã, além de ameaçar Cuba e outros países, têm provocado uma corrida para aumentar gastos militares. Ele quis ser campeão da paz, mas promoveu conflitos em todos os recantos do planeta. A França decidiu aumentar sua capacidade estratégica, os ingleses estão se mexendo nesta direção. O governo do Japão decidiu também aumentar seus efetivos. Os chineses não economizam neste segmento. Estão na vanguarda. Os arroubos do presidente norte-americano tornaram o mundo mais inseguro. O governo brasileiro se coloca dentro desta moldura.

O programa de modernização e rearmamento das Forças Armadas é caro, porém substancial. A Marinha pretende construir quatro submarinos convencionais e um nuclear nas instalações de Itaguaí, estado do Rio de Janeiro. Três deles já estão operando, o quarto vai entrar em testes, e o nuclear deverá entrar em operação em 2033, apesar da má vontade dos norte-americanos que não gostam da ideia de o Brasil construir seu submarino nuclear. O objetivo dos marinheiros brasileiros é defender a chamada Amazonia Azul. O programa envolve o domínio da tecnologia nuclear para construção de reatores. Tudo com tecnologia nacional. Além disto, projeto de renovação prevê a construção de quatro fragatas modernas, no Brasil, com transferência de tecnologia.

A Marinha também pretende construir um sistema de radares costeiros, satélites e centros de comando com objetivo de monitorar o mar territorial e a zona econômica exclusiva do Brasil. O Exército planeja substituir os antigos Urutu e Cascavel por veículo blindado 6×6 para transporte de tropas, ambulância e comando. Sonha em criar um sistema tecnológico para proteger a fronteira terrestre com radares, sensores, drones e centros de comando. O objetivo é a vigilância da Amazônia e combate ao tráfico e crimes transnacionais. Está nos planos também a modernização da artilharia e a modernização dos carros de combate Leopard, além do desenvolvimento de novo modelo nesta categoria. Na Aeronáutica a modernização já é conhecida. Trata-se da produção no Brasil dos jatos suecos Grippen, o que está em curso, e a adoção do cargueiro Millenium C-390, produzido pela Embraer.

Vale lembrar que a Polícia Militar do estado de São Paulo, com 82 mil militares, é maior que a Marinha e a Aeronáutica. Há muito o que crescer e organizar no dispositivo militar nacional que precisa esquecer o inimigo interno, ganhar agilidade e mobilidade para identificar as ameaças externas.

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