Pai! Mande a Thatcher, a Merkel e a Golda (por Roberto Caminha Filho)
Isso não é uma prece partidária. É uma súplica, uma oração cívica
atualizado
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Depois que o Cometa Vorcaro chegou e iluminou o Brasil, a Pátria, às claras, nos deixou com a impressão que não sobrou nada sobre nada. O Astro tirou o Banco Central para dançar e assediou descaradamente a nossa moeda, desfilando na Passarela do Samba, de Master Sala e fazendo o Real de Porta-Bandeira. Fez rock com a Câmara e buliu, na área de dispersão, com a nossa sagrada Constituição, distribuindo beijos e bilhetinhos escandalosos para o Senado e para o respeitável Supremo. O Cometa Vorcaro, deverá ser homenageado pelos brasileiros, agora careca e bem guardado, ou continuará cometendo?
O nosso Brasil é, de fato, um país muito curioso. Em dias de festas, somos capazes de unir milhões em torno de um samba ou de um craque. Em dias difíceis, porém, cada um parece falar um dialeto diferente. Talvez por isso, de vez em quando, o brasileiro recorra ao velho hábito de olhar para o alto e pedir, além de clemência, um sol de luz.
Isso não é uma prece partidária. É uma súplica, uma oração cívica.
Pai — se for possível dar uma mãozinha por aqui — mande ao nosso querido Brasil, com a sua reconhecida inteligência e sabedoria, um dirigente que reúna todas as raras virtudes: coragem para decidir, serenidade para governar e honestidade para servir.
Não pedimos um Sassá Mutema, um salvador da pátria, porque a história já mostrou que nossos salvadores costumam cobrar caro pelo milagre. Imploramos, apenas, por alguém inspirado em líderes que já provaram que: firmeza, responsabilidade e “Galinha de Parida” podem caminhar de braços dados e só fazem o bem.
A primeira lembrança é para a Margaret Thatcher. A chamada “Dama de Ferro”, aquela que governou o Reino Unido num período em que o país enfrentava inflação alta, economia travada e descrença geral. Thatcher nunca foi uma unanimidade — líderes fortes raramente possuem essa qualidade — mas tinha uma virtude essencial: estudou muito para ter clareza de rumo. Reduziu o peso do Estado em várias áreas, estimulou o empreendedorismo e devolveu competitividade à economia britânica.
Outro exemplo, o meu preferido, vem da Alemanha. Angela Merkel ficou conhecida pela combinação de prudência e disciplina. Merkel governou com calma de cientista e paciência de relojoeira. Em momentos de crise europeia, insistiu na velha e descansada responsabilidade fiscal com estabilidade institucional. Não gritava, não improvisava e jamais prometia ou aceitava joelhos de porco com chucrutes e batatas.
Da mesma forma, a história lembra a firmeza de Golda Meir, uma das fundadoras e primeira-ministra do Estado de Israel, uma líder que governou em circunstâncias extremamente difíceis. Golda Meir tinha uma característica que muitos eleitores admiram até hoje: a franqueza. Não falava em frases vazias; falava em responsabilidades. Em tempos de risco total, mostrou que liderança exige coragem para tomar decisões impopulares quando o país precisa.
O nosso país não precisa imitar, mas tem tudo para prosperar. Possui recursos naturais abundantes, população criativa, um enorme mercado interno e uma imensa cultura que valoriza o trabalho e a família. Mesmo assim, seguimos enfrentando problemas que parecem não ter fim: burocracia pesada, insegurança jurídica, violência crescente e dificuldades econômicas que castigam principalmente os mais produtivos e pobres…além da triste ideia, que nem Karl, o Ousado, ousou sonhar: a de premiar e bonificar o ócio para ganhar simpatia e votos.
Quando a economia anda devagar, o emprego demora a aparecer. Quando a lei parece fraca, o medo cresce nas ruas. Quando a política vira um eterno espetáculo, a confiança desaparece e o capital se muda através de um leve toque na tecla Enter. Esses, parecem ser, os componentes que o universo possui para nos mandar o Cometa Vorcaro e mostrar as fragilidades das nossas expostas instituições.
É preciso e urgente ser justo com quem trabalha e paga essa “porrada” de impostos.
O desafio de governar o Brasil não é pequeno. Somos uma nação continental, cheia de diferenças regionais e interesses diversos. Mas exatamente por isso precisamos de liderança equilibrada — alguém que una firmeza com sensatez, além de uma cultura que entenda 250 milhões de perplexos ETs brasileiros.
Um dirigente que compreenda que crescimento econômico não nasce de discursos, mas de confiança. Confiança para investir, empreender, estudar e construir o futuro aqui, e não no Paraguai, em Havana, em Beijing, Lima ou Caracas.
Talvez essa seja a essência da nossa prece cívica: que o Brasil encontre líderes, ungidos pelo Céu e capazes de servir ao país com responsabilidade, serenidade e coragem.
O Brasil já mostrou muitas vezes que sabe levantar depois das dificuldades. Quando encontra direção, o país avança. Quando encontra estabilidade, produz. E só quando encontra confiança, o gigante cresce.
E talvez seja justamente isso que tantos brasileiros, de 16 ou de 70 anos, desejam no fundo do coração: paz nas ruas, oportunidades no trabalho e esperança no futuro.
Se vier um dirigente com essas virtudes, inspirado na firmeza de Thatcher, na prudência de Merkel e na coragem de Golda Meir, o Brasil não precisará de milagres e muito menos de um Sassá Mutema.
Precisará apenas de continuidade, trabalho sério e respeito ao cidadão que teima em sobreviver aqui. E isso, convenhamos, já seria uma grande bênção para qualquer nação.
Roberto Caminha Filho, economista, agradece ao Pai, a possibilidade de ser lido e entendido nesta súplica de socorro e clemência.


