O racismo tolerado (por Cristovam Buarque)

A desigualdade na qualidade das escolas conforme a raça do aluno é um racismo invisível

atualizado

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Rafaela Felicciano/Metrópoles
Menino de uniforme azul, de costas, com mochila vermelha, caminhando em escola
1 de 1 Menino de uniforme azul, de costas, com mochila vermelha, caminhando em escola - Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Até recentemente, muitas manifestações racistas ficavam imperceptíveis, tão aceitas que eram invisíveis. Felizmente, qualquer gesto racista por uma pessoa passou a ser imediatamente visto e combatido. Mas continua aceito o racismo considerado desigualdade na estrutura como vivem, estudam, moram os afrodescendentes brasileiros. É como se as ideias racistas fossem visíveis, mas a desigualdade conforme a cor do usuário não fosse também uma manifestação de racismo.

Esta semana percebeu-se o descuido nas escolas com a oferta de aulas de conscientização contra o racismo, mas não se percebe o racismo embutido na desigual qualidade entre as escolas dos brancos e negros que poderem pagar, em relação às escolas dos negros e brancos por serem pobres. O racismo é visto apenas na falta de aula sobre o assunto, não na falta de escola para todos os assuntos que as crianças precisam aprender. Não se vê como racismo o fato de o sistema escolar separar os brasileiros em “escolas senzala” e “escolas casa grande”, conforme a renda e o endereço, em consequência, conforme a raça porque no Brasil a pobreza tem cor.

O racismo da escola desigual é invisível. Até mesmo antirracistas não percebem o racismo no sistema com escola desigual na qualidade. Consideram demagogia a defesa de escola com a mesma qualidade para todos, brancos ou negros, ricos ou pobres. Este racismo material é invisível e até mesmo desejado pelos que podem pagar boas escolas privadas. Por isto, não é chamado de racismo, mas de legítima prática de desigualdade conforme a disponibilidade de renda, uma condição necessária à liberdade. Não há liberdade sem direito de usar a desigualdade de renda para ter acesso diferenciado a bens e serviços oferecidos no mercado, mas a indecência está no fato que a educação é a fábrica de racismo. Em uma sociedade onde a renda e riqueza têm cor branca, ao deixar educação como um serviço para compra no mercado, mantém-se a fábrica de racismo funcionando, mesmo que haja aula com mensagem contra o racismo.

Há um racismo visível na mente dos racistas e um racismo invisível na estrutura como funciona a sociedade. A prática de preconceito é um racismo visível, a desigualdade na qualidade das escolas conforme a raça do aluno é um racismo invisível, aceito. A África do Sul acabou o racismo visível do apartheid, os Estados Unidos acabaram o racismo visível da segregação, mas os dois mantém racismo invisível, ao diferenciarem a qualidade da escola para rico ou para pobre: fantasiando com desigualdade o que é racismo e fábrica do racismo.

O descuido com o ensino antirracista nas escolas provocou críticas e manifestações, mas não houve críticas nem manifestações contra a prática racista de condenar aos negros brasileiros, por serem pobres, a escolas com qualidade inferior a dos brancos, que podem pagar ensino com qualidade.

Cristovam Buarque foi ministro, senador e governador

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