
Cadê a terceira via? (por Antônio Carlos de Medeiros)
Continua faltando coragem e ideias consistentes aos principais candidatos vistos como do centro/centro-direita

As eleições presidenciais continuam em aberto. A pesquisa Quaest desta semana registra 56% de indecisos na menção espontânea. Lula com 23% e Flávio Bolsonaro com 17%, também na espontânea.
Os independentes representam 32% do eleitorado. Estão acima de Lula (23%) e Flávio (17%). 59% dos independentes rejeitam Lula. E 64% rejeitam Flávio Bolsonaro.
Continua com os independentes os rumos das eleições. A volatilidade ainda vai definir as eleições.
Com espaço eleitoral ainda aberto para o eventual crescimento de um candidato de terceira via. As rejeições de Lula e Flavio no eleitorado como um todo continuam girando em torno dos 50%. A guerra de rejeições continua.
Mas continua faltando coragem e ideias consistentes aos principais candidatos vistos como do centro/centro-direita: Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).
Eles não conseguem se descolar da sombra do bolsonarismo. Mesmo sabendo que o espaço de Centro (32% de independentes) está aberto para uma candidatura de centro-direita/direita não bolsonarista.
A terceira via nem bem tem ainda um projeto eleitoral. Muito menos um projeto de país e de futuro. Olha mais para o poder e menos para a sociedade. Só que não há mais espaço político-eleitoral para acordo pelo alto. É preciso conquistar a sociedade.
Neste sentido, a terceira via nem constrói coalizões na sociedade civil para avançar e nem alianças consistentes no plano político-partidário.
Ela comete, portanto, o mesmo equívoco do campo bolsonarista e do campo lulopetista: tem projeto de Poder e narrativas mais eleitorais, mas tem menos ênfase político-programática.
Assim, o Brasil vive outra vez um déficit de oferta política de lideranças que possam dialogar com a demanda da sociedade por lideranças de cosmovisão liberal social – isto é, lideranças do campo do Centro do espectro político. Existe a demanda. Mas falta a oferta.
Potenciais e pretensos candidatos de terceira via aparecem nas eleições e depois se dissolvem em iniciativas “isoladas”. São líderes e centros de estudos e de convivência que não criam força de comunicação com o espectro político e social que almeja e carrega uma opção social liberal.
Preferem fustigar o lulopetismo e o bolsonarismo do que forjar e construir liderança social e política que possa galvanizar a sociedade.
Agora, por exemplo, os candidatos mais conhecidos da terceira via (Caiado e Zema) se equilibram em raciocínio puramente eleitoreiro: operam na narrativa do antipetismo, mas não debatem e criticam a narrativa do bolsonarismo. Qual é a deles?
“O que a vida quer da gente é coragem”, dizia Guimarães Rosa.
As pesquisas continuam mostrando o cansaço com a polarização; a busca de um projeto de futuro; o encontro do liberal com o social.
Um potencial para uma candidatura de centro chegar a conquistar piso eleitoral de até 30%. E ser capaz de disputar um segundo turno. No mínimo, serviria para oxigenar o debate e a disputa eleitoral, com visão mais política e menos eleitoreira.
A sociedade agradeceria.
O Brasil de 2027/2031, diante dos desafios externos e internos já colocados agora em 2026, terá grandes dificuldades de governança e governabilidade se as eleições de 2026 não confluirem para a vitória de uma Frente Ampla.
Em seu novo livro, “A Oligarquia dos Poderes”, Joaquim Falcão mostra que, pela primeira vez, o arranjo oligárquico de poder no Brasil é produzido “pelo Estado dentro dele próprio. Vem das autoridades, das ambições internas. Do progressivo descolamento entre o eleitor e o Estado Democrático de Direito”.
É esta “nova oligarquia” regressiva, em pleno Século XXI, que uma Frente Ampla poderia conter, com legitimidade para reconectar Estado e Sociedade.
Vai ser possível? A sociedade agradeceria.
*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.
