O pranto da Argentina (Por David Pontes)

O abismo do populismo não é o único para onde se precipitam os povos que deixam de ver soluções nos seus políticos. Há o da ditadura

atualizado

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Tomas Cuesta/Getty Images
imagem colorida Javier Milei presidente eleito da Argetnina
1 de 1 imagem colorida Javier Milei presidente eleito da Argetnina - Foto: Tomas Cuesta/Getty Images

Uma democracia cansada dos políticos, em que os eleitores têm cada vez mais dificuldades em se rever nos seus representantes, em acreditar nas suas propostas, normalmente atinge um ponto crítico em que olha para o abismo e se atira com vontade. É difícil não pensar nisto, quando se encaram os resultados das eleições na Argentina e as características daquele que, desde domingo à noite, passou a ser o Presidente dos argentinos, Javier Milei.

O homem que gostava de fazer comícios com uma motosserra para marcar o corte com o passado, sobre quem se levantaram dúvidas sobre o seu estado mental, que chegou a propor a liberalização do mercado de órgãos humanos, que insulta os seus adversários, e que queria acabar com o ensino e a saúde públicas, é o mergulho certo no abismo do desconhecido. Um país cansado de uma inflação superior a 140% e com 40% da população abaixo da linha da pobreza é um país em pranto, para quem já não parece haver outra solução que não seja uma mudança totalmente radical, baseada na fezada de que “pior do que está não fica”.

Javier Milei jogou as cartadas todas com que vimos ultimamente os populistas a construir a sua subida ao poder, desde as promessas de soluções simples, atenuadas com proximidade da ida às urnas, até à desconfiança no sistema eleitoral e, muito especialmente, a promessa de arrasar com a atual classe política. Eleito com um discurso de vitória em que voltou a prometer “mudanças drásticas sem gradualismo”, Milei tem pela frente uma tarefa que seria titânica para qualquer um, mas muito mais ainda para aquele que é o Presidente politicamente mais débil da história da Argentina, dada a fragilidade do seu apoio parlamentar.

Será um enorme desafio perceber como conseguirá levar para a frente as suas propostas radicais, e desejavelmente resolver alguns dos problemas do país, quando na câmara baixa não tem mais de 39 parlamentares em 257 eleitos e no senado oito dos 72 lugares. Perante a necessidade de entrar no jogo democrático dos compromissos e das alianças, iremos perceber se o homem que se anuncia como libertário e anarcocapitalista afinal se adapta ou, como muitos temem, deixará vir ao de cima o seu carácter autoritário, perceptível em muitas das suas declarações.

É que o abismo do populismo não é o único para onde se precipitam os povos que deixam de ver soluções nos seus políticos. Há ainda o da ditadura e mesmo com a dura experiência que a Argentina já sofreu não há garantias que tal não possa voltar a suceder.

(Transcrito do PÚBLICO)

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