
O mundo mágico de Trump (por Marcos Magalhães)
Depois do fiasco da guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos quer dar a volta por cima

Donald Trump saboreou publicamente a queda do primeiro-ministro britânico Keir Starmer. E tem motivos para celebrar no Hemisfério Ocidental: Peru e Colômbia serão governados pela direita. Depois do fiasco da guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos quer dar a volta por cima.
Starmer já vinha sendo pressionado pelos correligionários do Partido Trabalhista desde a derrota nas eleições locais, em maio. Ele prometia lutar para permanecer no cargo. Mas um post de Trump nas redes sociais foi o empurrão que faltava.
“Keir Starmer renunciará ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido”, escreveu o presidente em sua rede Truth Social. O que poderia parecer um furo jornalístico foi, na verdade, uma espécie de tiro de misericórdia nas pretensões de Starmer.
“Ele fracassou miseravelmente em dois assuntos muito importantes: imigração e energia”, prosseguiu Trump, caprichando nas letras maiúsculas ao se referir aos dois temas. “Desejo-lhe tudo de bom!”, concluiu o presidente em tom mais suave.
Ao se referir à energia, em sua breve mensagem na rede social, ele também usou as letras maiúsculas para pedir “abertura do petróleo no Mar do Norte”. A referência deixa clara uma de suas divergências com o primeiro-ministro. E indica como seria o mundo ideal de Trump.
O presidente tem pressionado o Reino Unido para expandir a produção própria de petróleo, como forma de reduzir a dependência de importações. Por outro lado, deixa clara sua oposição à ênfase do governo trabalhista em fontes renováveis.
Trump opõe-se frontalmente, por exemplo, à instalação de parques eólicos off-shore. Ele prefere o petróleo e o gás e condena o que chama de “ineficientes moinhos de vento”. Um sonho de ambientalistas, na sua opinião.
Na outra parte da mensagem, ele critica a postura mais suave de Starmer sobre o tema da imigração. Talvez por desejar ver, no Reino Unido, uma versão mais estilosa de sua temida ICE, agência de polícia alfandegária e de imigração.
Há dez anos, os britânicos optaram pelo Brexit – por 51,9% dos votos, contra 48,1% – após ouvirem muitas promessas de que a economia iria melhorar e que o país teria em mãos decisões sobre temas delicados como imigração. Nada de burocratas europeus no caminho.
Agora, a maioria dos economistas está de acordo em que, ao deixar a União Europeia, o Reino Unido teve uma queda em seu potencial de crescimento econômico de 2% a 8%.
Apesar das promessas, a imigração também cresceu desde 2016 – e Starmer esteve no poder por apenas dois anos. Se a migração para o país girava em torno de 250 mil pessoas nos anos 2010s, agora ela alcança 550 mil pessoas.
Não é à toa que cresce a popularidade do Reform UK, um partido de extrema-direita que prega jogo duro contra os imigrantes. O que também está ligado ao movimento das bases do Partido Trabalhista pela renúncia de Starmer.
Parlamentares do partido não se sentiam seguros com Starmer a caminho de novas eleições gerais, que podem ocorrer em até três anos. Por isso começaram a trabalhar por um novo inquilino no número 10 de Downing Street.
O ex-prefeito de Manchester, Andy Burnham, de 56 anos, pretende ser esse inquilino. Muito popular no Norte do Reino Unido, ele está próximo de tornar-se primeiro-ministro. E esta será a melhor chance de a esquerda britânica evitar uma derrota para a direita radical nas próximas eleições.
Trump vai acompanhar de perto seus próximos passos. Até porque Burnham tem o que a revista The Economist chama de “vibe de esquerda”, o que soa mal do outro lado do Atlântico. E porque uma possível vitória da direita radical agradaria em cheio ao presidente americano.
Enquanto isso, ele saboreia as magras vitórias mais perto de casa. No Peru, ainda sem números oficiais por causa do resultado apertado, a candidata de direita Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, desponta como virtual nova presidente.
E na Colômbia, até aqui governada pelo presidente de esquerda Gustavo Petro, o candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella conquistou 49,66% dos votos, contra 48,70% de Ivan Cepeda, apoiado por Petro.
As inspirações de Espriella? Javier Millei, da Argentina, para a economia. E Nayib Bukele, de El Salvador, para o tema da segurança. “Foi uma grande vitória”, celebrou Trump na mesma rede Truth Social.
Ao comentar a renúncia do primeiro-ministro britânico, o presidente dos Estados Unidos delineou duas de suas prioridades: adiar a transição energética, em defesa das fontes responsáveis pelo desequilíbrio climático, e tornar cada vez mais difícil a migração para os países ricos da América do Norte e da Europa.
Ao celebrar a vitória na Colômbia, subscreveu a linha dura contra as guerrilhas e o narcotráfico, depois de tentativas de pacificar o país. Aí vêm novas grandes prisões ao estilo de El Salvador.
Essas são algumas das principais bandeiras do presidente dos Estados Unidos. Mais petróleo, rigor implacável contra os imigrantes e uma política de segurança que não cede espaço à defesa dos direitos humanos. O mundo mágico de Trump.
