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O planeta não é um grande almoxarifado (por Mariana Caminha)

Um dos nossos maiores equívocos é tentar resolver a crise ambiental com as ferramentas de uma mentalidade que ajudou a produzi-la

06/11/2026 12:10, atualizado 06/11/2026 12:31
Filipe Bispo Vale/picture alliance via Getty Images
Imagem colorida mostra a floresta amazônica - Metrópoles

Na semana passada, enquanto navegava pelas águas escuras do Rio Negro, no Amazonas, aproveitei para ler Futuro Ancestral, de Ailton Krenak. Não poderia ter escolhido cenário mais apropriado. Cercada por uma paisagem que parece existir em outra dimensão do tempo, encontrei nas palavras do pensador indígena uma explicação desconcertante para a crise ambiental que enfrentamos.

Krenak diz que nossas crianças, aos sete ou oito anos, já estão sendo treinadas para ignorar o meio ambiente. Somos educados para manter distância da natureza, para desconfiar dela. Aprendemos desde cedo que a terra é suja, que não devemos colocar a mão no barro, que uma batata arrancada diretamente do chão precisa ser vista com suspeita. Melhor encontrá-la limpa, embalada e organizada na prateleira do supermercado.

É o que ele chama de uma educação sanitária. Uma educação que, em nome da higiene, da segurança e da civilização, vai progressivamente nos separando do mundo natural. Crescemos acreditando que a natureza é algo que está lá fora, distante de nós, e não aquilo de que somos parte.

Essa desconexão, argumenta Krenak, está na origem de uma visão de mundo que transforma o planeta em um gigantesco almoxarifado. Um depósito de recursos à disposição da humanidade, de onde podemos retirar tudo aquilo de que precisamos, como se as prateleiras fossem infinitas.

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Pensei muito nisso durante minha passagem por Manaus, onde tive o privilégio de conhecer de perto o trabalho da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e conversar longamente com seu fundador, o professor Virgílio Viana.

A FAS é um exemplo concreto de como a conservação da floresta pode caminhar lado a lado com a melhoria das condições de vida de quem nela habita. A organização atua em centenas de comunidades amazônicas, desenvolvendo projetos que vão da geração de renda e educação à saúde, energia limpa e conectividade. Seu trabalho alcança mais de 20 mil famílias e contribui para a conservação de milhões de hectares de floresta.

Mas o que mais me chamou a atenção durante a conversa com Virgílio não foram apenas os números ou a diversidade das iniciativas. Foram os desafios de transformar experiências bem-sucedidas em soluções capazes de ganhar escala.

Conversamos sobre o papel do financiamento climático, especialmente sobre as possibilidades e limitações do mercado de títulos verdes e sustentáveis para apoiar projetos na Amazônia. Como fazer com que os bilhões movimentados pelos mercados financeiros internacionais cheguem às comunidades que estão, todos os dias, na linha de frente da conservação?

Porque existe um paradoxo difícil de ignorar. Nunca se falou tanto em financiamento climático. Nunca tivemos tantos instrumentos financeiros, compromissos internacionais, fundos e títulos sustentáveis. E, ainda assim, fazer com que esse dinheiro chegue efetivamente às comunidades que protegem a floresta continua sendo um enorme desafio.

O mercado de títulos verdes e sustentáveis, que acompanho há anos, demonstrou que é possível mobilizar grandes volumes de capital para investimentos com benefícios ambientais e sociais. Mas projetos comunitários, muitas vezes pequenos, dispersos geograficamente e com retornos que não cabem facilmente nas planilhas tradicionais do mercado financeiro, enfrentam barreiras importantes para acessar esses recursos.

Como financiar aquilo cujo valor não pode ser medido apenas em dinheiro? Quanto vale uma floresta em pé? Quanto vale o conhecimento de uma comunidade que há gerações sabe conviver com ela? Quanto vale um rio saudável?

E foi impossível não estabelecer uma conexão entre o que ouvi de Virgílio Viana e o que lia nas páginas de Krenak.

Um dos nossos maiores equívocos, acredito, é tentar resolver a crise ambiental exclusivamente com as ferramentas de uma mentalidade que ajudou a produzi-la. Criamos mercados para atribuir valor à natureza, mecanismos para compensar emissões, instrumentos financeiros para financiar sua proteção. Tudo isso é necessário. Mas será suficiente se continuarmos olhando para a floresta como um estoque de ativos, e não como um sistema vivo do qual dependemos?

A resposta não está em abandonar a economia, muito menos em rejeitar o financiamento climático. Está em reconhecer seus limites e, principalmente, em mudar aquilo que escolhemos valorizar.

Na próxima semana, Virgílio Viana e eu estaremos na Turquia, participando da COP31, a conferência do clima das Nações Unidas. O encontro acontece em um momento particularmente simbólico para a governança climática global.

Nesta semana, completaram-se dez anos da entrada em vigor do Acordo de Paris, o mais importante pacto internacional já firmado para enfrentar o aquecimento global. Uma década depois, a distância entre o que os países prometeram e aquilo que efetivamente entregaram continua preocupante.

Por isso, a palavra que precisa orientar as negociações em Antalya é implementação. Já sabemos, com razoável precisão, o que precisa ser feito. Conhecemos os riscos do aquecimento global, temos tecnologias disponíveis, instrumentos financeiros e evidências científicas suficientes. O grande desafio é transformar compromissos em investimentos concretos, políticas públicas e resultados que possam ser percebidos na vida das pessoas.

Isso significa fazer o dinheiro chegar onde ele é necessário. Significa financiar adaptação, resiliência, conservação e desenvolvimento sustentável. Significa reconhecer que uma comunidade amazônica não pode continuar esperando enquanto o mundo discute, pela enésima vez, como mobilizar recursos para protegê-la.

Precisamos reaprender a relação com o mundo natural. Precisamos de uma educação que permita às crianças colocar as mãos na terra, compreender de onde vem o alimento, reconhecer a vida que existe nos rios e nas florestas. Uma educação que não transforme a natureza em ameaça, mercadoria ou cenário, mas que nos ensine a pertencer a ela.

A COP31 poderá produzir avanços importantes. Espero que produza. Mas nenhuma conferência internacional, por mais ambiciosa que seja, será capaz de resolver sozinha uma crise que também é de imaginação, de valores e de pertencimento.

Dez anos depois da entrada em vigor do Acordo de Paris, temos muito a fazer. E talvez uma parte desse trabalho comece justamente onde Krenak nos convida a olhar: na infância, antes que alguém nos ensine que a terra é suja e que o mundo não passa de um almoxarifado.