
Lula tem 100 dias para ancorar expectativas (Antônio Carlos de Medeiros)
Ancoragem das expectativas. Esse é o busílis

Reeleito, o presidente Lula disse aos brasileiros em seu primeiro discurso de agradecimento pela eleição que vai fazer o melhor mandato de todos no Lula 4 e que vai promover a renovação do seu governo. Governo que foi mal avaliado durante o Lula 3.
Renovação do ministério e do núcleo duro do Palácio do Planalto, disse ele. Com essa fala, procurou ganhar confiança para desfrutar dos tradicionais 100 dias de “carência” dos governos que iniciam. Ele não inicia. Reinicia. Por isto, deixou dúvidas e ceticismo no ar: “ele vai mesmo entregar?”.
Entretanto, ele fez um princípio de autocrítica e ganhou esperança pelo menos daquela parte do povo brasileiro que o reelegeu com maioria de 4,4 milhões de votos. Vem daí a carência de 100 dias.
A questão central continua a mesma: é preciso ancorar as expectativas. As econômicas e fiscais e as institucionais. O mercado financeiro continua instável. Trava a economia do país, com instabilidade.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesPor isto, ele precisa sinalizar outra vez este caminho. Deve começar fazendo isto já neste domingo, 08/11, em fala pela TV para a Nação. Depois, poderá continuar já no discurso de diplomação, dia 18 de dezembro. E depois no discurso de posse, dia 5 de janeiro.
No meio do caminho, deve sinalizar o anúncio em dezembro do novo Ministério. Seria bom começar por anunciar o novo ministro da Fazenda e o novo ministro da Casa Civil. A economia e a política.
Enquanto isto, o mercado político e econômico faz as suas apostas e especulações. É natural, como sempre. A renovação do núcleo duro pode incorporar André Janones em eventual Secretaria de Comunicação Digital. É outra especulação.
No segundo turno da Campanha, Lula resolveu calçar a sandália da humildade e ouvir as sugestões e críticas da nova equipe do segundo turno. Foi um bom sinal. Nos fez lembrar de Chico Buarque em 2002\2003, aconselhando Lula a nomear o que ele chamou na época do “ministério do vai dar merda”…
Todos já sabemos que a característica da (improvável) virada histórica de Lula, com o povo indo em massa e espontaneamente para as ruas em defesa do valor maior da democracia, fez ele entender que era/é preciso reconectar-se com a sociedade brasileira. E a opção pelo “Exército de Lula” do Janones também trouxe um ar de renovação e aceitação, por Lula, da importância do poder do mundo digital. Ajudou ele a se aproximar mais do povo.
O resultado foi mais 10 milhões de votos em relação ao primeiro tudo. Uma virada que era considerada improvável, impulsionada pela sinergia entre o “Exército de Lula” & os jovens que foram para as ruas, com a diminuição de 2% das abstenções. O mundo digital em sinergia com o mundo real. Não é pouco. Mudou o astral do candidato Lula e deve mudar a maneira do presidente Lula governar. É o que esperam os brasileiros.
Vale registrar que o agora Lula 4 já entendeu que precisa costurar um governo de coabitação com o Congresso Nacional. Já começou a cuidar desta questão institucional imprescindível para a evolução do seu quarto mandato. Começando pelo início antecipado do diálogo com os presidentes da Câmara Federal, Hugo Motta (Republicanos) e David Alcolumbre (União Brasil). Serão reeleitos em fevereiro? Não se sabe ainda. Mas as articulações já estão em curso.
Lula começou também a abrir diálogo com o Centro do espectro político. Não apenas o núcleo do Centrão. Refiro-me ao Centro ampliado: centro-direita, centro e centro-esquerda. Neste contexto, o Partido Republicanos deverá conquistar mais protagonismo num governo de coabitação. Cresceu no sudeste, elegendo os governadores de Minas Gerais, de São Paulo e do Espírito Santo, além de Mato Grosso. Fez também bancadas medianas na Câmara e no Senado. Com perfil conservador e equilíbrio político de moderação.
No âmbito desta costura política de busca da governabilidade, a coabitação também vai depender muito do protagonismo do novo senado da República e dos governadores. Me refiro à necessidade de fortalecer o papel do federalismo como pilar da governabilidade. O senado é a casa dos estados. E os governadores evoluíram recentemente em processo de descentralização de poder no país.
Tudo somado, os fatos já indicam que o mandato Lula 4 poderá ter como alicerce uma Frente Ampla para governar o Brasil. Se não tiver este alicerce, o Lula 4 poderá perder precocemente legitimidade e capacidade convocatória para liderar o pais em coabitação com o Congresso. Aí, pode ser o caos da ingovernabilidade.
Por isto, é uma premissa incontornável a busca pela ancoragem das expectativas dentro do horizonte dos 100 dias de carência.
Na questão institucional, a coabitação bem articulada com status de pacto político poderá repaginar a nova caminhada. Na direção da sequência esperada de reformas. A reforma política. A reforma do judiciário. A reforma econômica e fiscal. A reforma da previdência. E a reforma administrativa.
É claro que a questão fiscal é muito importante. É preciso gerar superávit fiscal. Mas a questão fiscal precisa ser envelopada pela questão econômica. Explico-me.
Na questão da relação dívida/PIB, é preciso mirar em resultados de políticas públicas bem desenhadas. A qualidade das políticas e a qualidade dos gastos. Resultando em um delta de ajuste fiscal de 2% a 2,5% do PIB. É exequível.
Recomenda-se o indicador clássico dívida/PIB, mas com menos foco no numerador e mais foco no denominador da equação. Sua Excelência o PIB. Mais foco em políticas públicas com efeitos multiplicadores para o crescimento do PIB. Melhorar a oferta da economia e impulsionar novos investimentos públicos e privados.
Trata-se de combinar o crescimento econômico com instituições “inclusivas”: abertura de mercado; aumento da produtividade; capacitação de mão de obra e talentos; ética pública; racionalidade do gasto governamental; e bom ambiente de negócios.
Estamos cansados de saber que a pobreza é escandalosa e o crescimento é pífio e no padrão voo de galinha. O enfrentamento dos dois problemas requer novas visões do desenvolvimento econômico no Século XXI. Para além dos dogmas. Menos Consenso de Washington e mais Consenso de Londres.
Direto ao ponto: um choque de capitalismo padrão Século XXI. Com ferramentas (políticas públicas) catalisadoras de novos investimentos em cadeias produtivas de inovação e produtividade, com o combate contínuo à pobreza. A redução da pobreza e o aumento da riqueza são faces da mesma moeda.
Antônio Carlos de Medeiros é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science

