Morro abaixo (por Mary Zaidan) 

A falta de escrúpulos de boa parte dos políticos escancara a profunda erosão moral do país, personificada na figura de Flávio Bolsonaro

atualizado

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Metrópoles
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1 de 1 flavio-eduardo-bolsonaro - Foto: Metrópoles

Algo está pra lá de torto em um país que afrouxa a cobrança de multas dos partidos políticos e dos candidatos, autorizando recursos dos fundos partidário e eleitoral para condenados. Que autoriza o uso de robôs na comunicação online dos postulantes a cargos públicos, inviabilizando qualquer tipo de controle; que libera doações até de cestas básicas nas vésperas das eleições e ainda suspende a proibição de repasses de recursos para cidades inadimplentes. Tudo isso em uma única semana. Embora a natural falta de escrúpulos de boa parte dos políticos não surpreenda, ela escancara a profunda erosão moral em que o Brasil se encontra.

Flávio Bolsonaro personifica essa degradação.

Um mentiroso contumaz, enrolado com a milícia e “rachadinhas”, que disse nunca ter feito contato e muito menos recebido milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro – e mesmo assim colhe poucos danos à sua imagem, com delitos considerados administráveis por seus pares.

Na sexta-feira, gente de sua turma comemorou a pesquisa Datafolha, com números menos desastrosos do que imaginavam. No primeiro turno, a diferença em favor de Lula aumentou de 3 para 9 pontos percentuais. No segundo a oscilação foi ainda menor. De um empate em 45% na penúltima rodada, no levantamento atual o senador caiu apenas dois pontos percentuais. Ainda que à frente – 47% a  43% -, Lula pontua no limite da margem de erro.

Pela pesquisa, o conhecimento do imbróglio Flávio-Vorcaro é de 64%, número idêntico ao dos que acham que o senador errou ao se meter com o ex-banqueiro, mas ainda baixo perto da dimensão do escândalo. Para o time de Flávio isso é o suficiente para reorganizar a campanha. O eleitor, mesmo fora da bolha bolsonarista, pode até não gostar, mas teria engolido a balela de que os contatos se deram para o financiamento do filme do papai. E que mesmo machucado, o senador ainda se sai melhor do que qualquer outro candidato da oposição, incluindo a madrasta Michelle, preferida do dono do PL Valdemar Costa Neto, mas em atrito permanente com o clã.

Os resultados tidos como positivos da pesquisa teriam enterrado a hipótese de substituição de Flávio. Nessa altura, seus apoiadores imaginam que nem o PT de Lula, que o tem como opositor ideal, insistirá nas explicações do inexplicável.

Podem surgir novas histórias e dificuldades para o candidato, embora, estranhamente, a Polícia Federal tenha iniciado diligências sobre transferências de dinheiro para o irmão Eduardo, autoexilado nos Estados Unidos, sem sequer ter ameaçado investigar Flávio.

Há questões tão óbvias que até parecem não terem sido feitas para proteger a candidatura dele. Por exemplo: no áudio, Flávio pede a Vorcaro para honrar as parcelas de financiamento do filme Dark Horse. O ex-banqueiro já havia colocado R$ 61 milhões (U$ 12 milhões) dos R$ 134 milhões prometidos para a brincadeira. Dias depois do vazamento do diálogo, Karina Ferreira Gama, produtora do filme, disse que a cinebiografia estava quase pronta – teria custado U$ 13 milhões, 90% bancados por Vorcaro. Ora, e para o que mesmo Flávio queria os R$ 63 milhões restantes? Ninguém perguntou?

Mesmo sem as respostas mínimas, Flávio tem a seu favor a armadura paterna que o blinda e a cegueira de milhões de fieis mantidos sob a lei da desinformação multiplicada nas redes sociais. Ele não é o único.

Nesse Brasil ao avesso, a transgressão tem vencido. Reduzem-se penas para golpistas condenados, concedem-se privilégios para criminosos que têm como custear as mais caras bancas de advocacia. Fazem-se vistas grossas para delitos supremos, permitem-se salários estratosféricos para uma casta. Perdoam-se devedores contumazes, pune-se quem paga as contas em dia.

O cidadão comum é o trouxa que paga impostos enquanto os grandes e espertos sonegam. Só o enrolado Grupo Refit deve R$ 26 bilhões ao fisco, a Ambev, das cervejas, mais de R$ 6 bilhões, a Vivo, quase R$ 4 bilhões. É o cidadão comum quem financia os R$ 1,5 bilhão do fundo partidário e os quase R$ 5 bilhões do fundão eleitoral que custeiam políticos, a maioria deles só de olho em seus próprios umbigos.

Refém da violência cotidiana, sem serviços públicos dignos e carente do mínimo, esse cidadão, impotente diante da intensidade dos abusos, torna-se um descrente total – alvo perfeito para ser cooptado por falsos herois e mentirosos.

Talvez essa seja a aposta do Zero Um.

 

Mary Zaidan é jornalista 

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