Macroeconomia e o nosso bolso
Por que os números da Economia são excelentes mas a maioria reclama de preços e salários?
atualizado
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Cada pesquisa me afeta de um jeito, me leva para um lugar. As que colocam a violência e a corrupção como as principais preocupações dos brasileiros são uma peça de teatro previsível. As sondagens eleitorais me levam a um estádio de futebol. Gosto do Censo porque é um bloco de carnaval em que a gente enxerga a desigualdade e a diversidade do país. Já o Datafolha, ao apontar que 45% dos brasileiros buscaram renda alternativa nos últimos meses e 59% dizem que a renda é insuficiente para pagar as despesas, me levou a um labirinto.
É só levantar a bola em uma conversa com os amigos que alguém corta; “É, tá difícil”. A maioria reclamando dos preços e dos salários e sugerindo uma alteração no calendário, para que os meses tenham 22, 23, 25 dias no máximo. Aí, vemos os números macroeconômicos comemorando: menor taxa de desemprego da história, crescimento de 2,3% do PIB, o aumento da renda média, recordes de exportação,11ª economia do mundo, e pergunto: se está tudo ótimo, por que tanta gente confessa que o bolso fica constrangido ao entrar no supermercado?
Para responder a essa pergunta, conversei com a economista Marilane Teixeira, professora e pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Marilane explica que, embora a inflação esteja dentro da meta, os preços se estabilizaram em um patamar elevado, especialmente em itens essenciais como alimentos e energia. Soma-se ainda um grave achatamento salarial, mesmo com a política de valorização do salário mínimo do terceiro mandato de Lula: 71% da força de trabalho ocupada recebe até dois salários mínimos no Brasil.
Para a professora, esse achatamento dos salários tem raízes na perda de dinamismo da indústria brasileira, que historicamente oferecia melhores salários, e empurrou os trabalhadores para um setor de serviços heterogêneo e desigual. Enquanto na década de 70 a indústria representava cerca de 30% da força de trabalho, hoje esse número está em torno de 10%.
Com as reformas trabalhistas de Temer-Bolsonaro, o empreendedorismo, a pejotização e a uberização, a “precarização do trabalho” poderia substituir o “Ordem e Progresso” de nossa bandeira. Benefícios como vale-refeição ou vale-transporte ficam à cargo dos trabalhadores. Férias remuneradas viraram um luxo. A pesquisadora da Unicamp ressalta o crescimento do trabalho por conta própria. Entre os anos de 2012 e 2025, houve um acréscimo de quase 6 milhões de pessoas nesse setor. Em termos percentuais, esse grupo saltou de 22% para quase 26% da população ocupada no país.
O endividamento das famílias alcançou sua máxima histórica, segundo o Banco Central, atingindo 49,9% em fevereiro de 2026, o que significa que o total de dívidas das famílias equivale a metade de toda a renda que as famílias recebem em um ano. O comprometimento da renda atingiu 29,7% no mesmo período: do que as famílias ganham mensalmente, quase 30% é destinado ao pagamento de juros e amortização de dívidas. Pagou todas as contas? O dinheiro só pingou na conta e sumiu. E o endividamento recomeça.
“As pessoas são pressionadas cotidianamente para se inserirem no mercado de consumo e infelizmente precisam se endividar para poder acessá-lo”, analisa Marilane. Isso leva a um endividamento sistêmico das famílias, agravado por taxas de juros abusivas no crédito pessoal. ”Cada vez mais as pessoas têm que sair para comprar uma série de serviços que antes elas podiam socializar no interior das famílias, às vezes na comunidade, o que garantia um certo nível de direitos”.
Tem saída? Marilane cita a necessidade de políticas macroeconômicas que favoreçam a produção interna, como o controle do câmbio e a tarifação de determinados produtos importados. Ela reconhece que tais medidas podem ser “antipáticas” para as classes altas, que se beneficiam do câmbio valorizado, mas são essenciais para criar um ambiente favorável ao setor industrial. O país precisaria retomar uma industrialização estratégica, investindo em indústria de bens de capital e tecnologia, como máquinas e computadores. Isso exigiria investimento público pesado em centros de pesquisa e escolas técnicas, já que a iniciativa privada tende a ser reticente em assumir esses riscos sozinha. Ainda deveria desenvolver setores que criem empregos intermediários especializados e combater o endividamento e juros altos.
Como se vê, não são ações para um ou dois mandatos, mas é um projeto de país. Péssima notícia para os trabalhadores, que terão que escolher entre um governo que tenta a reeleição ainda no modo conciliação e uma oposição que jamais foi “antipática” com as classes mais altas.


