Jovem emigra, a conta fica e o Brasil doa o futuro (Roberto Caminha)

Porque, no fim das contas, quando o futuro decide emigrar, o presente precisa fazer autocrítica.

atualizado

Compartilhar notícia

Divulgação/UEPB
Imagem colorida mostra pesquisadores envolvidos na criação de canudo para detectar metanol em bebidas - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra pesquisadores envolvidos na criação de canudo para detectar metanol em bebidas - Metrópoles - Foto: Divulgação/UEPB

O Brasil tem uma curiosa vocação: transforma problema estrutural em debate ideológico e chama isso de “projeto de nação”. Enquanto discutimos narrativas, os números — esses seres frios e antipáticos — seguem trabalhando. E os números contam uma história menos poética: gasto público comemorado e crescente, déficit recorrente, dívida robusta, premiação do ócio e juros que castigam quem ousa produzir.

O pior de tudo é que os nossos dirigentes querem ser uma Cuba que não mais existe e que foi destruída pelo mesmo processo que pensam implantar por aqui. Os cubanos que vieram morar conosco, já começaram a chorar com a incrível semelhança.

Comecemos pelo básico, porque economia nunca foi palavrão. Quando o governo gasta mais do que arrecada, surge o déficit. Déficit repetido vira dívida. Dívida crescente exige juros maiores para convencer alguém a financiá-la. Juros maiores encarecem crédito, travam investimento e destroem salários. É um dominó sofisticado, embalado em seda atraente… e muito cruel.

Há ainda um conceito pouco popular nas rodas de bar, mas decisivo no destino das nações: dominância fiscal. Traduzindo sem economês: é quando a política de gastos do governo começa a mandar na política monetária. O Banco Central, aqui esculhambado pelo TCU, sobe juros para conter inflação, mas o rombo fiscal neutraliza o esforço. É como enxugar gelo com secador ligado no máximo.

Roberto Campos alertava que populismo econômico é caro e cobra juros compostos. Parece piada, mas é matemática. Já Mário Henrique Simonsen repetia que inflação não é acidente, é escolha. Quando o Estado promete tudo a todos, a conta aparece para cada um. Por aqui está virando política de Governo.

“Ah, mas o nosso Brasil é grande demais para quebrar.” Verdade! Economias grandes demoram mais para entrar em colapso. O problema é que também demoram mais para sair da estagnação. O empobrecimento brasileiro não chega com sirene de bombeiro; chega com silêncio de cemitério. Ele aparece na produtividade que não cresce, no investimento que hesita e na renda que patina na manteiga de garrafa e no KY.

E então entramos na segunda parte da equação: o ambiente institucional. O chamado Custo Brasil não é folclore. É burocracia excessiva, insegurança jurídica, sistema tributário labiríntico, regras que mudam no meio do jogo. É a cruel e crescente sensação de que empreender aqui exige mais computadores, advogados e contadores que engenheiros e trabalhadores da construção.

Quando a regra tranca a porta, o capital voa — pela janela. Empresas redirecionam investimentos, fábricas escolhem outras geografias, startups nascem com endereço estrangeiro. E, nos últimos anos, um fenômeno ganha força simbólica: a saída de jovens brasileiros para estudar e trabalhar no Paraguai. Os paraguaios esperam o erro brasileiro e constroem o óbvio. Não dá pra errar.

Não é apenas turismo acadêmico. É cálculo racional. Menos burocracia, carga tributária mais simples, custo operacional menor. Quando o jovem atravessa a fronteira, o PIB atravessa junto e sem saudade. Porque ele leva consigo o que o Brasil mais precisa: capital humano e juventude para pagar os milhões de lesados aposentados.

Capital humano não se imprime em gráfica oficial. Forma-se com educação, experiência e ambição. Quando essa energia encontra menos barreiras do lado de lá da ponte, algo precisa ser revisto do lado de cá…urgentemente.

A Venezuela mergulhou no populismo financiado por petróleo. Cuba sufocou sob planejamento central rígido. O Brasil não está nesse ponto — mas flertar com atalhos fiscais permanentes é brincar com fósforo em depósito de álcool, bebendo caipirinha 24 horas por dia.

O debate, portanto, não é ideológico; é pragmático. Queremos crescer ou distribuir estagnação? Queremos competir ou nos consolar? Queremos ser Cuba ou Beijing?

Três reformas objetivas poderiam mudar a trajetória: 1- Âncora fiscal real e “acreditável”, com controle efetivo de gastos e metas transparentes. Sem contabilidade criativa tropical. 2-Simplificação tributária profunda, reduzindo litígios e custos de conformidade. 3- Fortalecimento da segurança jurídica, com respeito a contratos. Não é glamour, é fundamento.

O Brasil tem talento, mercado e recursos naturais. O que falta é coerência. Crescimento não é decreto; é consequência. E a consequência depende de escolhas certas e conjuntas.

Enquanto discutimos slogans e narrativas, nossos jovens fazem as malas. E, convenhamos, nenhum país prospera exportando sua melhor safra humana e dinamitando as próprias escolas e universidades.

Empobrecer é um processo lento — até virar rotina. E rotina, meu caro, honrado e elegante leitor, é a forma mais discreta de decadência. O mundo se impressiona com o grau de corrupção que atingiu o Brasil. Os nossos amigos brasileiros que moram na Europa e nos Estados Unidos, assim nos perguntam, diariamente, sobre vários temas: Isso é verdade?

A pergunta não é “quanto falta para chegarmos lá”. A pergunta é: vamos corrigir a rota enquanto ainda temos combustível? Vamos vender para a China sem brigar com os Estados Unidos?

Porque, no fim das contas, quando o futuro decide emigrar, o presente precisa fazer autocrítica.

Roberto Caminha Filho, economista, não aceitou ser o primeiro a cruzar a ponte, sem olhar pra trás, mas não será o terceiro.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?