França busca alternativas 40 anos após Mitterrand (Por Marcos Magalhães)

Ameaça de guerra civil um ano antes de eleição entre Marine Le Pen e Emmanuel Macron

atualizado

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1 de 1 marine le pen - Foto: Divulgação

A bordo de sua nova estratégia de comunicação, idealizada pelo marqueteiro João Santana, o pré-candidato a presidente Ciro Gomes trazia nas mãos uma rosa vermelha no vídeo transmitido nas redes sociais no Dia das Mães. Além de um sinal de delicadeza, estava ali uma mensagem de renovação de um velho símbolo socialista.

A rosa vermelha envolta por um punho foi, desde o início, o símbolo do PDT, partido criado em 1979 por Leonel Brizola e que hoje tem Ciro como pré-candidato às eleições presidenciais. Desenhado por Didier Motchane, era também símbolo dos socialistas franceses, que chegariam ao poder dois anos mais tarde, após décadas de governos conservadores.

Pois nesta segunda-feira celebram-se 40 anos da vitória nas urnas de François Mitterrand, o presidente socialista que chegou ao poder à frente de uma ampla frente de esquerda. Ele obteve 52% dos votos no segundo turno, contra o republicano Valéry Giscard d’Estaing, e deu início a um período de 14 anos – em dois mandatos – de mudanças na França.

O aniversário abriu espaço a uma série de debates não apenas sobre o legado do primeiro presidente socialista francês. Mas também, e talvez principalmente, sobre a atualidade do próprio pensamento socialista em um país marcado pela radicalização política, por alertas de riscos de uma guerra civil e pelo risco de vitória nas urnas da extrema direita.

Legado

A vitória de Mitterrand em 1981 foi celebrada como uma grande conquista da esquerda democrática europeia. Ele concorria ao cargo pela terceira vez e obteve sucesso depois de costurar um amplo acordo que incluía o então ainda poderoso Partido Comunista.

Começou o governo com medidas de impacto. Aumentou o salário-mínimo, elevou os impostos dos mais ricos, estatizou bancos e indústrias e ampliou o período de férias dos trabalhadores. Uma típica receita econômica de esquerda, que precisou ser interrompida quando o país entrou em recessão e foram adotadas medidas de austeridade.

O presidente perdeu o apoio comunista e, a partir de 1986, precisou conviver com um primeiro-ministro neogaullista conservador, Jacques Chirac. Era a primeira experiência da chamada coabitação, em que um presidente e um primeiro-ministro de linhas políticas diferentes precisam conviver. Mas ele conseguiu se reeleger por mais sete anos em 1988.

As marcas de Mitterrand são visíveis até hoje em Paris. Entusiasta da cultura, ele patrocinou “grandes trabalhos” como a Pirâmide do Louvre, a nova Biblioteca Nacional, a Ópera da Bastilha, o Parque de La Villete, o Museu d’Orsay e o Instituto do Mundo Árabe.

O presidente também é lembrado por outra grande construção, esta política. “Mitterrand teve a inteligência de se apresentar como o candidato da união”, relembra o cientista político Gérard Grunberg, em entrevista à rede de televisão France24. “No espírito dos franceses, ele é aquele que se empenhou por 10 anos para unir a esquerda”.

Diretor emérito de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica e do Centro de Estudos Europeus da Sciences Po, Grunberg acredita que são pequenas as chances de a esquerda – hoje muito dividida – voltar ao poder nas eleições presidenciais de 2022. “A esquerda não consegue mais convencer os franceses, cada vez mais tentados por um discurso de direita”, observa.

Gerações

A própria celebração dos 40 anos da eleição de Mitterrand demonstrou essa divisão. No domingo, segundo relato do jornal Le Monde, a velha guarda socialista, tendo à frente o ex-presidente François Hollande, tomou um trem com destino à cidade de Saône-et-Loire, antigo berço socialista. Na segunda-feira, o primeiro-secretário do Partido Socialista, Olivier Faure, encerrou um encontro com o mesmo objetivo em Ivry-sur-Seine.

“Eu não sou um guardião de museu, mas o continuador de uma vontade”, disse Faure ao Le Monde. “A melhor forma de ser fiel a Mitterrand é a de estar ao lado da juventude que se mobiliza por criar um futuro”.

Ele está tão preocupado em atrair os jovens que pensa em propor a mudança do nome do próprio partido. “O nome não diz mais o que nós nos tornamos”, acredita o secretário, empenhado ainda em costurar uma candidatura comum com os ecologistas, cada vez mais fortes na França.

A candidata pode vir a ser a prefeita socialista reeleita de Paris, Anne Hidalgo, ela mesma adepta de um modelo de “transição ecológica” e de uma economia “que cuide do bem-estar dos indivíduos e combata a desigualdade”, como disse em janeiro ao Journal de Dimanche. Ela anunciará se será ou não candidata no outono europeu, ou seja, entre setembro e dezembro.

No último domingo, segundo cálculos dos organizadores, 115 mil pessoas participaram de 163 passeatas em várias cidades da França para reivindicar medidas mais ambiciosas do governo francês em relação ao meio ambiente e a realização de um referendo para incluir na Constituição a proteção do clima.

Guerra civil

A ascensão dos ecologistas ocorre ao mesmo tempo em que cresce, nas Forças Armadas, um movimento de extrema direita. Em 21 de abril, 60 anos depois que quatro generais tentaram depor o presidente Charles de Gaulle por renunciar à colonização da Argélia, 1200 militares da reserva – inclusive 24 generais – publicaram carta ao presidente Emmanuel Macron alertando para o risco de uma guerra civil no país.

Para eles, as Forças Armadas deveriam agir para a “erradicação de perigos” que estariam ameaçando a França, como “o islamismo e as hordas das periferias”.

No domingo foi a vez de um grupo de militares da ativa publicar artigo na mesma revista conservadora Valeurs Actuelles, de forma anônima, no qual afirmam que a “sobrevivência” da França estaria em perigo, por causa de “concessões” feitas ao islamismo. “Se uma guerra civil estourar, as Forças Armadas manterão a ordem, porque vão nos pedir isto”, escreveram.

Os manifestos dos militares contam com a simpatia da líder de extrema direita Marine Le Pen, que deve disputar as eleições presidenciais de 2022. Ela é considerada uma das favoritas para ir ao segundo turno contra Emmanuel Macron, candidato do centro, que buscará a reeleição.

É nesse contexto de radicalização que se recorda a histórica eleição de 1981. Se a chegada ao poder dos socialistas trouxe à França uma onda de renovação, agora o partido procura se reinventar e a França parece viver uma crise de identidade. Se Mitterrand conseguiu unir a esquerda há 40 anos, quem ganhar as eleições de 2022 precisará se empenhar para unir o país.

Marcos Magalhães escreve no https://capitalpolitico.com/

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