Eleição 2026

Flávio Bolsonaro: herdeiro sem herança (por Hubert Alquéres)

Uma aposta improvisada, movida pela necessidade de sobrevivência política e com efeito reverso

atualizado

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Vinícius Schmidt/Metrópoles
Flavio Bolsonaro aponta para a frente - Metrópoles
1 de 1 Flavio Bolsonaro aponta para a frente - Metrópoles - Foto: Vinícius Schmidt/Metrópoles

Um episódio da Segunda Guerra Mundial serve como ilustração para entender a candidatura de Flávio Bolsonaro e sua unção como sucessor do próprio pai. Quando a Alemanha invadiu a Polônia, a Inglaterra e a França declararam guerra a Hitler, mas as forças beligerantes não trocaram um só tiro até a invasão francesa. Esse período de mais de um ano entrou para a história como a “guerra de mentirinha”. A candidatura de Flávio nasce com essa suspeita: é de mentirinha. O próprio “candidato”, como um mau ator, desnudou o véu em menos de quarenta e oito horas ao insinuar que poderia desistir da disputa pela Presidência, mas que isso “tinha um preço”.

Pegou mal a declaração, considerada por aliados como um desastre. Para consertar a mancada, o ungido pelo pai afirmou, um dia depois, que sua candidatura era “irreversível”. Acredite quem quiser. Para completar a ópera, se definiu como um “Bolsonaro moderado”

O objetivo da candidatura puro-sangue não é, e nunca foi, unificar o campo da oposição, mas se posicionar no tabuleiro político como uma peça de barganha para tirar o pai da prisão. Daí quase nenhum analista ou político ter levado a sério o anúncio da candidatura, feito sob profundo anticlímax entre os opositores. Nada de declarações de apoio, a não ser uma fala burocrática e fria de Tarcísio jurando lealdade a Bolsonaro. Fora isso, nenhum entusiasmo, apenas um silêncio gelado por parte dos demais presidenciáveis do centro-direita. Nem mesmo no PL, partido de Flávio e de seu pai, houve frenesi. Waldemar Costa Neto, presidente da legenda, limitou-se a dizer “Bolsonaro falou, está falado”.

A recepção nas redes sociais tampouco ajudou: as mensagens negativas superaram as positivas por dez pontos, um dado particularmente simbólico em um ecossistema no qual o bolsonarismo sempre reinou com forte engajamento. A outrora aguerrida e barulhenta banda bolsonarista, que antes dominava o debate digital, parece ter perdido tração. O movimento que enchia as ruas perdeu poder de mobilização ao se reduzir a uma única bandeira: a anistia para Bolsonaro.

Para piorar, dois dias após o lançamento da candidatura, o Datafolha trouxe números devastadores. Flávio aparece como o presidenciável de oposição com pior desempenho em eventual segundo turno, perdendo para Lula por 15 pontos. Em comparação, Tarcísio de Freitas perderia por cinco e Ratinho Jr. por seis, dado que reduz drasticamente o poder de pressão do clã Bolsonaro na tentativa de chantagear o sistema político e o Parlamento. Se o cálculo era gerar medo, o resultado foi o oposto: aumentou o ceticismo no campo da oposição.

Se politicamente o anúncio foi recebido com frieza, no mercado financeiro provocou verdadeira rejeição. A Bolsa caiu fortemente, o dólar disparou; reações que deixam clara a leitura predominante entre investidores: a possibilidade de Flávio Bolsonaro assumir protagonismo nacional representa incerteza, instabilidade e risco fiscal, por facilitar a vitória de Lula. Este, aliás, foi o único a receber bem a possibilidade de enfrentar um adversário com o sobrenome Bolsonaro. Isso se encaixa nos seus planos de recuperar com mais facilidade a dinâmica de polarização que o favoreceu em 2022. A presença do filho de Bolsonaro na cabeça de chapa funciona como um convite ao retorno do eleitor pêndulo, aquele que, segundo o livro Brasil no espelho: Um guia para entender o Brasil e os brasileiros, de Felipe Nunes, reúne sociais-liberais tradicionalmente ligados ao PSDB, trabalhadores autônomos e empreendedores avessos a radicalismos.

Flávio carrega a rejeição do pai e afugenta exatamente esse eleitorado que foi decisivo nas últimas eleições. Em vez de ampliar o campo oposicionista, restringe-o. Em vez de fortalecer a direita, desorganiza-a. É mais um capítulo de uma sucessão de movimentos políticos desastrosos que a família Bolsonaro tem protagonizado, frequentemente de maneira intempestiva e sem cálculo estratégico. Episódios como o tarifaço e as provocações externas que resultaram em retaliações de Donald Trump já vinham evidenciando essa incapacidade de pensar a política para além da reação imediata.

O pastor Silas Malafaia, figura central no bolsonarismo, resumiu o episódio com precisão desconcertante: “o amadorismo da direita faz a esquerda dar gargalhadas”. Poder-se-ia acrescentar: antigamente se dizia que a esquerda só se unia na cadeia; hoje, a direita nem na cadeia se une. Impossível uni-la por meio de um dedaço de Bolsonaro. Sobretudo porque falta ao escolhido carisma, capacidade de articulação e empatia com o eleitorado, como demonstram as pesquisas.

Enquanto a esquerda observa sorridente, o centro-direita precisa repensar seus passos. Tudo parecia convergir para uma candidatura única, provavelmente a de Tarcísio, vista como a alternativa mais competitiva para enfrentar Lula. Agora, porém, a aposta improvisada em Flávio fragmenta o campo e reduz o potencial de unidade. No mínimo, empurra as incertezas até o final de março, quando o calendário eleitoral verdadeiramente se inicia. O problema não é ter mais de uma candidatura de oposição, até porque, no limite, elas podem se unir no segundo turno.

O xis da questão é ter uma candidatura que, por seu radicalismo, inviabiliza essa unidade e, de quebra, pavimenta a vitória de Lula ao empurrar para seus braços o eleitorado de centro. Ademais, fica a incógnita: na hipótese mais do que provável do Congresso não ceder à chantagem e não aprovar a anistia ao seu pai, Flávio manterá uma espécie de “anticandidatura” apenas para preservar o espólio do bolsonarismo?

É exatamente esse o risco apontado por lideranças evangélicas ao recorrerem ao Evangelho de Mateus: “todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda casa dividida contra si mesma não subsistirá”. Assim como Roboão, filho de Salomão, cuja ascensão precipitou a divisão do reino de Israel, Flávio corre o risco de ser o que leva o bolsonarismo à ruptura.

O paradoxo é que essa implosão ocorre em um momento em que a avaliação do governo Lula, segundo o próprio Datafolha, estagnou e apresenta sinais de desgaste. A parcela que considera o governo “ruim ou péssimo” supera em cinco pontos a que o avalia como “ótimo ou bom”, revelando um ambiente ideal para o surgimento de uma alternativa de centro-direita competitiva.

Somados à rejeição intensa a um nome puro-sangue do bolsonarismo, esses dados indicam a existência de um nicho eleitoral significativo, refratário à polarização e ávido por uma alternativa moderada. O que se coloca, portanto, é uma questão estratégica: haverá maturidade no centro-direita para ofertar essa alternativa, ou a coalizão ficará prisioneira da chantagem representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro?

A resposta a essa pergunta definirá, em grande medida, o rumo da disputa de 2026. O movimento de Flávio – improvisado, fraco nas pesquisas, mal recebido pelo mercado e divisivo entre aliados – coloca o bolsonarismo diante do risco real de autoaniquilação política. Em vez de expandir suas fronteiras, o clã parece empenhado em reduzi-las. Se persistirem nesse caminho de jogadas curtas e improvisadas, poderão, ironicamente, entregar a Lula sua melhor chance de vitória antecipada. A direita, fragmentada, vê seu principal polo implodir por dentro. Flávio Bolsonaro, longe de herdeiro capaz de consolidar um legado, pode se revelar, ironicamente, o agente involuntário da sua ruína.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

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