Em busca de novos mapas (por Marcos Magalhães)

A adoção de um novo modelo econômico, baseado na IA e na adaptação à crise climática, vai requerer um olhar estratégico

atualizado

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Se o Brasil já foi definido como o país onde até o passado soa incerto, dá para imaginar o desalento dos eleitores com a falta de mapas para navegar os tempos exigentes que nos aguardam neste início turbulento do século 21.

Até aqui, brasileiras e brasileiros têm sido convidados a subir escadas escuras onde ecoam antigos slogans, até que, na hora certa, cheguem ao trampolim de onde poderão saltar para uma piscina cheia de promessas vencidas.

O ano de 2026 não é como outro ano qualquer. O mundo convive com pelo menos duas guerras de grandes dimensões – na Ucrânia e no Irã. Vê derreterem antigas alianças políticas, militares e econômicas. E tropeça em incertezas quando ensaia projetar o futuro – ainda que próximo.

Os solavancos da administração de Donald Trump ajudam a semear dúvidas. Onde antes havia regras comerciais, ainda que imperfeitas, agora há tarifas calculadas segundo o momento. Antigos aliados recalculam rotas depois de erráticas mudanças de rumo na política externa dos Estados Unidos.

E, ao longo dos próximos quatro ou cinco anos, a adoção de um novo modelo econômico, baseado na inteligência artificial e na adaptação à crise climática, vai requerer um olhar estratégico pouco cultivado no Ocidente nas últimas décadas.

O que fazer? Apesar dos reiterados apelos de forças neoconservadoras em busca da desmontagem de instituições públicas voltadas ao planejamento, parece destinado a voltar ao cenário o papel do Estado. Não necessariamente como proprietário de empresas, mas, principalmente, como desenhista de novas rotas.

Um exemplo eloquente vem do outro lado do mundo. A China já coloca em prática o seu 15º Plano Quinquenal, que pretende preparar o país para um dos cenários mais incertos em nível global desde que o primeiro plano foi lançado, em 1953.

Naquele momento, o novo governo de Pequim dava seus primeiros passos em direção ao desenvolvimento após a Revolução de 1949. Enquanto isso, o Ocidente era só otimismo com o crescimento econômico após a Segunda Guerra Mundial.

Pois o Ocidente de 2025 esperava do 15º Plano grandes metas de expansão da economia. Em vez disso, o governo chinês optou pela resiliência. Traçou planos para navegar tempos de crise com cautela e busca de autossuficiência.

Entre as novas prioridades estão a aceleração da pesquisa científica, capaz de levar o país a competir de igual para igual em setores como o de semicondutores, e a redução da dependência de importações consideradas estratégicas.

Também devem receber estímulos o consumo interno, como motor de crescimento, e a construção do que Pequim chama de “civilização ecológica”, por meio de investimentos em energias renováveis.

Permanecem ainda no radar apostas no desenvolvimento social, com foco na chamada “felicidade interna bruta”, e a busca de redução de grandes riscos internos e externos ao crescimento do país.

Essas grandes linhas estão detalhadas em centenas de páginas e detalhadas em milhares de documentos que guiarão o país de agora até o final de 2030.

Pois 2030 também será o ano final do próximo governo brasileiro, a ser eleito em outubro. Governo que será responsável pela elaboração de um Plano Plurianual a ser colocado em prática nos quatro anos seguintes ao de sua posse.

Ninguém espera que o próximo presidente brasileiro aposte em diretrizes tão detalhadas como as expostas nos planos adotados pela China. Mas os próximos anos prometem ser ariscos para países que não se prepararem para o futuro.

O atual governo brasileiro adotou a Estratégia Brasil 2050, um esforço quase inédito de planejamento para adaptar os sonhos nacionais a tempos exigentes. A próxima administração deverá ir além e detalhar o novo plano de voo.

Se a opção dos eleitores for por um governo mais à direita, é menos provável que o Brasil aposte no planejamento para crescer em ambiente hostil.

Se a escolha recair pela garantia de mais um mandato ao atual presidente, já estarão disponíveis para sua nova administração dados e projeções colhidos pelo atual esforço de planejamento.

A China tem demonstrado seu grande empenho em desenhar o próprio futuro. Em tempos turbulentos como os que nos esperam, o próximo governo brasileiro já sabe onde pode vir a buscar inspiração.

 

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