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Eleições das desilusões e rejeições (por Antônio Carlos de Medeiros)

O desencanto e o cansaço com a polarização prevalece ao centro do espectro político, os chamados independentes

10/07/2026 11:06
Arte Metrópoles
Imagem colorida mostra Lula e Flávio - Metrópoles

Esta Copa do Mundo, realizada com novo modelo de 48 clubes, provocou emoções, surpresas e desempenhos competitivos. Devem ir assim até o fim, na partida final de 19 de julho. Seleções competitivas. As emoções ainda estão no ar pelo mundo afora.

Depois do roteiro das emoções da Copa, o Brasil já encarar outro roteiro. O roteiro das desilusões e rejeições que deverão predominar nas eleições gerais de 2026, a partir de 16 de agosto.

Eleições “sui generis”. Estávamos acostumados a conviver com eleições disputadas e decididas por uma mistura de razão e emoção na cabeça do eleitor. Agora, veremos uma mistura de rejeição e desilusão. Isto para quem comparecer para votar. Há grandes chances de recorde de eleitores que não vão votar, ou votarão em branco ou nulo.

A chamada alienação eleitoral (abstenção + brancos + nulos) na eleições presidenciais girou em torno de 26% e 28% entre 2010 e 2022. Mas pode chegar até ao recorde de 56%, a julgar por pesquisa do Instituto Futura realizada entre 08 e 12 de junho (56% sem contar os nulos).

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Poderemos ter um ambiente de guerra de rejeições, misturada com desilusões. Para além do tradicional misto de razão & emoção. As rejeições de Lula e Flavio Bolsonaro giram em torno de 50% para cada um – têm variado sempre dentro das margens de erro.

Sobre a decepção e descrença dos brasileiros com a política, a FESP-SP realizou pesquisa também recente e captou que 41% dos brasileiros estão desiludidos com a política. E que 73% não têm simpatia por nenhum partido político.

O desencanto e o cansaço com a polarização prevalece ao Centro do espectro político, os chamados independentes – os moderados que torcem por uma terceira via desde 2014, logo após as manifestações de 2013.

Entretanto, as pesquisas mostram que o desalento também está presente nos eleitores que votam no “menos pior” nas pontas do espectro político. É o eleitor que não vê opção ao Centro e acaba decidindo pelo “voto útil” –  naquele que julga “menos pior” (entre Lula e Flavio Bolsonaro).

As rejeições e desilusões tornam as eleições de 2026 sui generis.

Este é, digamos, o lado do eleitor, a sua percepção, o seu cansaço.

O roteiro da desilusão é crescente, principalmente a partir das manifestações de 2013. Resultou na polarização ideológica de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro. Mas, já nas eleições municipais de 2020, começaram a surgir indícios de cansaço com a polarização e com a guerra de narrativas ideológicas.

Hoje, este cansaço é crescente, mostrando que a polarização dividiu o país, mas regrediu.

Surge gradualmente o crescimento de uma cosmovisão liberal social, decorrente de uma transformação no eleitorado. Há uma tendência de crescimento do Centro Político.

Salvo algum recorde de alienação eleitoral (ou “não voto”), esta tendência poderá se manifestar de forma mais nítida. A raíz da tendência é um processo de transformação do eleitorado brasileiro.

Jairo Nicolau registra este fenômeno em seu recente livro: “O País Dividido”.

São três transformações estruturais. Começa pela demográfica. “O eleitor envelheceu, tornou-se majoritariamente feminino e passou por uma revolução educacional”(…). “O eleitor típico deixou de ser uma pessoa com ensino fundamental incompleto e passou a ser alguém com ensino médio completo(…). Essas mudanças alteram o peso relativo dos grupos sociais e estão associadas a novas formas de escolha eleitoral”.

Depois, ele registra a segunda transformação, a da “reorganização das bases sociais do voto”(…). “Sexo, escolaridade e cor/raça passaram a atuar de forma combinada. Mulheres pretas de baixa escolaridade consolidaram apoio ao PT; homens brancos de ensino médio migraram para a direita. Jovens de sexo masculino e jovens de sexo feminino fizeram escolhas opostas”.

Por último, a terceira transformação. “A entrada dos valores morais e da polarização afetiva no centro do debate eleitoral. O realinhamento dos evangélicos(…)que migraram para a direita – coincidiu com a politização de temas como casamento homoafetivo, aborto e ideologia de gênero”.

A polarização cresceu. Entretanto, Nicolau registra que “a polarização dividiu o país, mas não completamente”.

Com efeito, ela (a polarização) – as pesquisas mostram com o aumento dos independentes -, está diminuindo. Isto já está claro, apesar das narrativas dos extremos do espectro político, que continuam na “vibe” de impulsionar a polarização ideológica.

Veremos o que ocorrerá até o dia 04 de outubro.

Eleições de segundo turno são prováveis. As eleições continuam abertas: a pesquisa Meio/Ideia desta semana mostrou mais de 40% de indecisos, brancos e nulos.

O busílis é: com tantas rejeições e desilusões elegeremos um presidente da República de legitimidade inconteste?  Não custa lembra que 2027 será um ano difícil. Sem legitimidade, a vaca tosse.

Antonio Carlos de Medeiros é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.