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Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho

13/07/2026 11:21
Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)
Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Surra em Capistrano  (Tribuna da Imprensa — 17/8/1953)

Há [quase cem anos, em] meados de agosto, morria Capistrano de Abreu, o homem que mais soube o Brasil no seu tempo, e que sendo um sábio era também um artista, um escritor como não temos tido muitos. Menino quase, fora amigo de José de Alencar (ia a pé de Santa Teresa à rua São Clemente para conversar com Alencar já velho e desiludido); homem-feito, foi amigo de Machado de Assis. E sua prosa tem um pouco de ambos, a música numerosa de Alencar, a síntese sábia de Machado.

A folhinha, no velho porão de Botafogo que o viu morrer, guardou longo tempo a data de 13 de agosto como dia aziago. Mas o fim de Capistrano foi sereno, e a uma jovem amiga disse ele, pouco antes, esta meiguice que é quase um madrigal: “Sentai- -vos, carícia!” Assim se extinguia aquela grande luz: era um velho perto de morrer que dizia esta coisa de suprema delicadeza.

A vida, entretanto, nem sempre lhe fora suave.

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Li, ainda agora, a excelente biografia que lhe dedicou o senhor Pedro Gomes de Matos e que o autor me remete de Maranguape, no Ceará, berço de Capistrano, que ele amava. Não é ainda a obra definitiva, que Capistrano mais dia menos dia haverá de ter; nem a isso aspira o pioneiro que desbrava o terreno, que ergue a casa inicial. Outros virão depois, mas nos ombros largos do senhor Pedro Gomes de Matos terão de subir para desbravar o horizonte. O documentário reunido, sobretudo quanto à repercussão dos contemporâneos da figura e do pensamento de Capistrano, é farto. O senhor Pedro Gomes de Matos restabelece a verdade em pontos confusos e faz melhor: como convinha numa biografia de Capistrano, a si próprio retifica nas notas finais…

Vê -se aqui o menino Capistrano solto no campo, um coqueiro que plantou e as notas que mereceu no seminário: comportamento, sofrível, medíocre, sofrível, mau; latim, medíocre, sofrível, medíocre, e se sobe num mês a bom logo cai para medíocre; português, medíocre três meses seguidos, depois bom, logo sofrível, depois medíocre. Bom mesmo era em aritmética e catecismo. E boa também, invariavelmente, a saúde do pequeno sertanejo, que aos setenta anos, na doença final, diria a um amigo: “Nunca pensei que eu pudesse morrer!”

No livro de matrícula, no Seminário Episcopal do Ceará, existe esta nota: “Em julho de 1866 foi aconselhado ao pai do referido aluno que o retirasse por algum tempo a fim de o emendar de sua preguiça e vadiação.”

O senhor Pedro Gomes de Matos põe dúvidas sobre a versão, recolhida por Leôncio Correia, quanto ao motivo que levou os padres a expulsar Capistrano. Reconheço que as datas não se ajustam bem à história, mas não quero deixar de registrá-la tanto ela me parece “verdadeira” na essência.

Era professor de matemática de Capistrano um frade de grande queixo, objeto de constante mangação dos alunos. Um dia chamou Capistrano e lhe pediu que formulasse uma regra de três. Capistrano armou a proporção: se Sansão, com a queixada de um burro, matou mil filisteus, quantos de nós não mataria o padre Fulano, com seu próprio queixo?

Expulsaram-no. Tempos depois, o pai de Fausto Barreto, vizinho do major Jerônimo Honório de Abreu, riscou no terreiro da fazenda e viu Capistrano amarrado no tronco dos escravos, açoitado por dois deles, com as costas lanhadas, ensanguentadas. Foi ao seu grito de “basta!” — intercedeu pelo rapazinho como por um escravo — que o pai de Capistrano mandou cessar o suplício, e explicou que o menino insultara um sacerdote de Cristo.

Nessa noite Capistrano fugiu para o Rio.

Como conciliar essa versão com a outra, que dá José de Alencar, deslumbrado com o saber do moço que encontrara em Maranguape, dobrado sobre o cabo da enxada, aconselhando-o a vir embora? De qualquer forma, porém, não é esse o momento mais emocionante do livro (e da vida) de Capistrano. O que há nele de mais forte é a frase de uma carta do velho historiador à filha Matilde, sobre a morte do filho Fernando, que desde os cinco anos vivia na companhia do viúvo e a quem dera o apelido de “Abril”. Aos trinta anos, o moço morre. E Capistrano à filha: “Consolação não quero nem preciso.”

A dor, cristalizada, fez -se poesia.

Odylo Costa, filho