
Brasil, tesão sem tada! Só guaraná e catuaba (por Roberto Caminha)
O mundo acorda para tomar o café brasileiro e adoçar a vida com suco de laranja paulista.

O Brasil, e os brasileirinhos, já viveram uma época em que pareciam acordar penteados e com brilhantina, de banho tomado com sabão de coco e sapato engraxado e polido na flanela, prontos para conquistar o mundo. Cheios de tesão e sem tadalafila. Só no guaraná e na catuaba.
Nós não éramos nenhum Estados Unidos, mas já resolvíamos as nossas paradas. Também não éramos nenhuma “Paris das Selvas”. Havia pobreza, amebas, lepra, malária, analfabetismo, estradas muito ruins e muitos brasileirinhos batalhando para colocar comida na mesa. Mas existia uma coisa poderosa no ar: a confiança.
Nos tempos de Juscelino Kubitschek, Lott, Lacerda, Ademar de Barros, Jânio e Magalhães Pinto, o Brasil resolveu sonhar grande. Construiu Brasília, abriu estradas, trouxe a indústria automobilística, criou empregos e deu ao povo a sensação de que o futuro não era a maldição tão decantada. Era uma ponte em construção.
E que ponte! Ligou muitas coisas a tudo.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesEnquanto as fábricas começavam a apanhar na bunda, chorar e nascer, a cultura brasileira afinava o violão. Vinicius de Moraes, Tom Jobim, João Gilberto, Johnny Alf, Roberto Menescal e a Bossa Nova mostravam ao mundo que o Brasil sabia fazer poesia cantando baixinho nos ouvidinhos.
Nos esportes, Adhemar Ferreira da Silva, o nosso primeiro bicampeão olímpico, saltava e pulava por cima do complexo de vira-lata para comemorar cantando e tocando, em suaves dissonantes, os nossos sambas e bossas, em plateias de atletas e dirigentes. Maria Esther Bueno encantava o tênis mundial. Éder Jofre, com a sua canhota, batia forte e bonito. Glauber Rocha e outros craques fizeram o Cinema Novo e encantaram.
A seleção canarinho, de Garrincha, Pelé, Didi e Nilton Santos, ganhava a primeira das cinco Copas do Mundo e ensinava, ao planeta Terra, que futebol também podia ser arte. Carlson Gracie enfileirava os machos do além mar, para serem finalizados com o seu invencível jiu-jitsu.
Era o Brasil dizendo:
— Eu posso! Hoje, o país parece ter esquecido ou perdido essa frase.
Seguimos adormecendo como gigantes, mas acordamos nanicos. Somos como o professor que ganhou sozinho na Mega acumulada e passa o dia reclamando do troco do cafezinho. Temos riquezas, talento, sol, água doce, salgada e mineral, terra fértil e abundante, juventude, ciência, floresta, terras raras, indústria, agricultura e criatividade. Mas gastamos energia demais discutindo na piscina do condomínio.
Em 2025, as exportações brasileiras chegaram a quase 349 bilhões de dólares. Só o nosso genial Vorcaro para demolir tanto trabalho. O agronegócio sozinho exportou mais de 169 bilhões de dólares. Somos potência em soja, carne, café, açúcar, celulose, frango, minério, petróleo e suco de laranja.
O mundo acorda para tomar o café brasileiro e adoçar a vida com suco de laranja paulista. Isso é espetacular!
Muita gente lá fora depende do Brasil sem nunca ter ouvido uma briga no Congresso, uma decisão do Supremo ou um desaforo de rede social. O problema é que nós, brasileirinhos, às vezes somos os últimos a perceber que encarnamos os gigantes desse imenso continente chamado Brasil.
Enquanto o mundo compra nossas commodities (produtos que servem para fabricar outros produtos), nós vendemos pessimismo no atacado. Enquanto navios saem lotados dos nossos portos, nossas conversas acumulam vazios de esperança. Enquanto o planeta olha para o Brasil como celeiro, floresta, energia e mercado, nós insistimos em nos enxergar como um país condenado a virar deserto.
Não estamos condenados. Estamos desorganizados e bastante “esculhambados”.
O Brasil não precisa escolher entre agro e indústria, entre floresta, praia e desenvolvimento, entre tecnologia e emprego, entre Amazônia, cerrado, pantanal e pampas. O Brasil precisa juntar tudo isso num balaio só. Naquilo que os louros chamam de Projeto Nacional.
A Amazônia, por exemplo, não pode ser tratada apenas como paisagem de documentário bíblico. Esse paraíso precisa ser ciência, bioeconomia, turismo, logística, remédio, alimento, pesquisa, tecnologia, emprego, trabalho, lazer e dinheiro para o amazônida, seja ele: índio, caboclo ou estrangeiro que por lá respira. A floresta em pé também precisa ter carteira assinada, CNPJ e nota fiscal.
Hoje precisamos de uma nova Bossa Nova do desenvolvimento. Menos gritaria. Mais projeto. Menos torcida contra. Mais construção. Menos ódio. Mais emprego com carteira assinada. Menos Bolsa Voto. Não precisamos repetir o passado. Se for possível, um canhotaço do Eder Jofre na corrupção com uma kimuriana do Carlson Gracie, para ela nunca mais voltar.
Na década de 1950, o Brasil construiu a discutível Brasília, no meio do cerrado. Hoje não precisamos construir outra capital. Precisamos reconstruir uma ideia: a de que vale a pena sonhar juntos.
Sonharemos juntinhos porque são as nossas commodities que enchem navios. É a confiança do povo que construirá um novo Brasil.
Roberto Caminha Filho, economista, acredita neste Brasil e nos simpáticos, alegres e inteligentes brasileirinhos.

