
Déjà vu (por Antônio Carlos de Medeiros)
O Brasil não se cansa de viver em ambiente de uma crise atrás da outra

Lançado nesta semana, o pacote de medidas de apoio às empresas atingidas pelo tarifaço arrefece momentaneamente a crise político-institucional. Mas não contorna a crise.
O imbróglio político e econômico, agravado pela imposição do tarifaço de Donald Trump, está deixando o país sem plano de vôo. O piloto sumiu. É a sensação predominante.
Mais um dos inúmeros conflitos das elites vividos pelo Brasil desde o tempo do Brasil Império, no Século XIX. Com o agravante de que agora o Poder Moderador de plantão, o Poder Judicário, está sob intenso ataque da sociedade e das elites – e, o que é surreal, de Donald Trump!
Não há como não sentir uma sensação de “Déjà vu”.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesQue nos remete ao grave ciclo de crise iniciado com as manifestações de rua de 2013. Pairando sobre o Estado e a sociedade brasileira. E resultando numa sequência disruptiva de anomia social; ingovernabilidade; impeachment; queda do PIB; violência; inflação.
Estancou em 2019. Mas voltou em 2020 com a pandemia. Cruzou 2021 em zigue-zague e resultou nas eleições polarizadas de 2022. Com ínfima formação de maioria de governo para o governo Lula 3.
É esta reiterada maioria ínfima de governo, conjugada com o nosso estranho parlamentarismo branco e com a escalada da politização do judiciário, que deságua num persistente Frankenstein político-institucional.
Um labirinto que vai e volta. Acabamos de entrar em mais um.
Agora com o prenúncio de uma situação mais grave: a fragilidade nascente do Poder Moderador de plantão – vale dizer, do Poder Judiciário.
O Brasil, uma eterna arena de conflito das elites na dança interminável da tradição patrimonialista, não caminha sem Poder Moderador.
É por isto que, neste momento, todos perguntamos mais uma vez perplexos: para onde vamos?
O imbróglio fica mais grave quando se inclui na percepção e na constatação dos fatos o “fator Trump”. Com a espada das tarifas e a bomba da Lei Magnitsky.
O que Donald Trump mira e busca não é pouca coisa. A reconstrução do império americano como líder do ocidente. E o fortalecimento da indústria americana e do ambiente pró negócios no EUA: “business as usual”. O poder do dinheiro na cultura americana.
Com o forte componente da “questão Bolsonao”. Fazer do Brasil uma Comarca americana e ampliar o alcance global da direita internacional.
Niall Ferguson registrou nos idos de 2009 o início do fim dos 500 anos de supremacia ocidental. E o declínio do império americano. Que se devia para ele a “três déficits fatais no cerne do poder” dos EUA: déficit da força militar; déficit de atenção e sensação de pertencimento do povo; e déficit financeiro.
É a superação desses três “déficits fatais” que norteia a ação política, institucional e econômica de Donald Trump.
Ao mesmo tempo, no cerne do nosso imbróglio político, tanto o fator Bolsonaro quanto a narrativa da defesa da soberania do presidente Lula, impulsionam nova escalada da polarização política no país.
Tudo que a sociedade não quer mais. Tudo que afasta mais ainda a sociedade brasileira dos Três Poderes. Tudo que leva a sociedade à exaustão e à fagulha para novas manifestações no perfil semelhante às de 2013. A sociedade quer soluções e entregas.
Guerra permanente nas redes sociais. Qual será a resultante?
Intuo que o modo imperador de Trump empareda os membros da Aliança Ocidental e o Brasil. Mas deverá valer a lógica do bambu: enverga mas não quebra.
Enquanto se estabelecem negociações bilaterais entre cada país e os Estados Unidos. Não há ambiente político/força política para negociações em bloco. Os interesses não são convergentes. O Brasil precisa encontrar caminhos para negociar.
Ao mesmo tempo, intuo que as potências emergentes do século asiático – China, Índia e Rússia – não se envergarão ao Trump imperador.
Na prática, Trump já está se aproximando de Putin e de Xi Jinping.
Sinalizando que as plutocracias ocidentais e orientais deverão convergir para uma convivência entre ocidente e oriente.
Mediada pela nova guerra de dissuasão da Era da IA e dos drones como armas letais de guerra.
E pela lógica do capitalismo de plutocratas liderados pelos EUA e pela China. A convergência, já em curso, do capitalismo iliberal americano com o capitalismo político chinês. Capitalismo sem rivais.
Quanto ao Brasil e nosso novo imbróglio, já verificamos que a letargia decisória do Congresso e do Executivo avançou em pleno segundo semestre de 2025. Ausência de entregas para além das retóricas. Outra vez: o povo que é solução.
O imbróglio em curso estimula um aumento do peso da alienação eleitoral (brancos, nulos e abstenções) em 2026.
Conjugadas com os efeitos do tarifaço na economia e no desemprego, a letargia decisória dos Três Poderes e as algaravia das elites políticas deverão remar contra a melhoria da popularidade de Lula, colocando em risco uma candidatura sua à reeleição. O tema da soberania, sozinho, não deve sustentar a popularidade do presidente Lula.
Colocarão em risco, também, uma candidatura do clã de Jair Bolsonaro.
E já estão provocando o dissenso entre Centrão e bolsonarismo, olhando para 2026.
Neste contexto, o país poderá adentrar 2026 sem expectativas claras de Poder Político. Uma situação de existência de candidatos sem candidaturas costuradas e articuladas.
Como o Poder não admite vácuo, a baixa expectativa de Poder Político poderá induzir a plutocracia e as redes de comunicação a impulsionar alianças e candidaturas.
É uma hipótese factível. Significaria a construção de candidaturas politicamente viáveis que se afastariam dos extremos do espectro político.
*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

